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(A) :: Michaely Bihina fez apenas um jogo pelo Benfica desde fevereiro. Agora foi à Taça das Nações Africanas, venceu-a e foi a melhor guarda-redes

Michaely Bihina fez apenas um jogo pelo Benfica desde fevereiro. Agora foi à Taça das Nações Africanas, venceu-a e foi a melhor guarda-redes

Muitos penáltis defendidos, recorde de defesas num só jogo e uma campanha "cheia de emoções". Michaely Bihina volta agora aos encarnados, onde o seu paradigma pode mudar — dentro ou fora do clube.

Manuel Conceição Carvalho
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Não era suposto que Michaely Bihina chegasse aqui. Não por falta de talento — isso tornou-se evidente ao longo de três semanas em Marrocos, na Taça das Nações Africanas (CAN), que terminou no último domingo —, mas porque a história poderia ter tomado outro rumo bem antes.

Quando era jovem, em Yaoundé, a atual guarda-redes do Benfica jogava como avançada. Foi o treinador quem a mudou de posição: “Disse-me que eu era demasiado alta para ser avançada e que seria mais eficaz como guarda-redes. Aceitei e, seis meses depois, fui convocada para a seleção”, recordou com um sorriso ao portal oficial da Taça das Nações Africanas. Agora, aos 22 anos, tornou-se campeã africana com os Camarões. O troféu da CAN, que tinha escapado por três vezes ao seu país — em 2004, 2014 e 2016 —, ficou finalmente em Yaoundé.

O torneio de Marrocos estava longe de ser garantido para os Camarões. A seleção não se tinha sequer qualificado pela via normal — entrou na competição apenas porque a CAF decidiu, já em dezembro, alargar o formato de 12 para 16 equipas e atribuiu um dos lugares por ranking FIFA. Era a segunda participação consecutiva numa CAN para Bihina, nascida a 28 de dezembro de 2003 em Yaoundé, mas a primeira em que o mundo do futebol a viu de verdade. Depressa se perceberia porquê.

Os Camarões avançaram na fase de grupos sem grande ruído, mas foi nos quartos de final que Bihina se revelou ao continente. Frente à Nigéria — campeã defensora e vencedora recorde com doze títulos em 16 possíveis —, fez nove defesas num único jogo, um recorde na história da CAN. O golo de Myriam Nyadjou, ainda na primeira metade, foi suficiente para o 1-0 final, mas a vitória foi, em boa parte, obra da guarda-redes do Benfica, que foi carregada pelas companheiras assim que o apito final soou. A CAF reconheceu-o de imediato: melhor jogadora em campo. Depois de 360 minutos sem sofrer golos, a meia-final frente ao Marrocos, anfitrião do torneio, prometia ser o exame mais difícil.

E foi. Depois de 90 minutos sem golos, o prolongamento também não produziu resultados. Já perto do fim do prolongamento, o árbitro assinalou grande penalidade para Marrocos. Bihina avançou, esperou e parou o remate de Fatima Tagnaout. Os Camarões sobreviveram. Nas grandes penalidades, a guarda-redes encarnada voltou a ser decisiva: defendeu três penáltis da seleção anfitriã e assegurou o apuramento para a final. “Estou muito feliz e cheia de emoções, porque para a nossa geração é a primeira vez que jogamos uma final”, disse à BBC, pouco depois.

https://twitter.com/CAFwomen/status/2087692813022490712

Antes de o mundo a descobrir em Marrocos, Bihina tinha percorrido um caminho discreto mas consistente. Da formação em Yaoundé — onde passou pelo Canon de Yaoundé, pelo Nkoldongo e pelo Éclair de Sa’a, clube próximo da família Onana, com quem André Onana partilhou conselhos técnicos com as guarda-redes — até Portugal, em agosto de 2022, para o Racing Power, então na segunda divisão.

Ajudou o clube a vencer o título da Segunda Liga e a subir de divisão, e na primeira época no escalão principal fez o suficiente para que ninguém ficasse com dúvidas: 14 defesas sem sofrer golo e o prémio de melhor guarda-redes da Liga BPI em 2023/24. Era apenas uma questão de tempo até chegar um clube maior à porta. Esse clube foi o Benfica, que a contratou a 1 de fevereiro de 2026. Ela própria descreveu a mudança como “um sonho tornado realidade”. Em poucos meses, tinha já ganho o campeonato e a Taça de Portugal, mas só realizou uma partida pelos encarnados.

A CAN confirmou o que Lisboa já sabia. Em cinco jogos, Bihina manteve por quatro vezes quatro a baliza a zero e fez 19 defesas, sendo eleita melhor jogadora em dois encontros distintos. Na final frente ao Malawi — estreante no torneio e surpresa da competição —, não precisou de grandes intervenções: Marie Ngah Manga marcou por duas vezes e Naomi Eto assinou o terceiro, tudo antes do intervalo. O 3-0 final era o maior triunfo de sempre dos Camarões numa final da prova, depois de três finais perdidas em que a seleção não tinha marcado um único golo. A cerimónia de entrega de prémios acrescentou mais uma distinção individual ao palmarés de Bihina: a Luva de Ouro da CAN 2026.

https://twitter.com/CAFwomen/status/2089098388553842995

Aos 22 anos, e com contrato no Benfica até 2029, Michaely Bihina volta a Lisboa com um título continental, um prémio individual e um Mundial feminino no horizonte — o Brasil 2027 espera pelos Camarões, que garantiram a qualificação ao chegarem às meias-finais. A guarda-redes volta agora aos encarnados, onde, desde fevereiro, fez apenas um jogo. Estas conquistas, no plano coletivo e individual, poderão mudar o paradigma da guarda-redes camaronesa, dentro ou fora do Benfica.

https://twitter.com/SLBenfica/status/2089295054460391629

Mas antes disso, a festa. Muita festa. Milhares de camaroneses saíram às ruas para comemorar a conquista da seleção feminina. Bihina, uma das grandes responsáveis pela conquista, foi uma das atletas no centro das celebrações em Yaoundé, esta segunda-feira.

https://www.youtube.com/watch?v=xKUJO7eJumI