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(A) :: Trump reduz exercícios com Seul e estende a mão a Pyongyang. Mas os "benefícios diplomáticos são questionáveis" e a China sai a ganhar

Trump reduz exercícios com Seul e estende a mão a Pyongyang. Mas os "benefícios diplomáticos são questionáveis" e a China sai a ganhar

Trump insiste numa "boa relação" com Kim e critica gastos com defesa sul-coreana. Retração dos EUA no leste asiático é motivada por guerra no Irão e, se continuar, pode encorajar ação da China.

Madalena Moreira
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“Indiquei ao Secretário da Guerra, Pete Hegseth, para reduzir os Exercícios Militares Conjuntos!”. O anúncio de Donald Trump este domingo foi feito sem qualquer aviso, nem mesmo ao aliado visado, a Coreia do Sul. O exercício militar anual Ulchi Freedom Shield reúne, ao longo de dez dias, milhares de soldados sul-coreanos, norte-americanos e das Nações Unidas na região para ensaiarem cenários de ataques com mísseis, drones ou cibernéticos. Apesar da surpresa, esta não é a primeira vez que o Presidente norte-americano suspende este exercício com Seul — o mesmo já tinha acontecido em 2018, durante o seu primeiro mandato.

Em ambos os casos, a decisão norte-americana surgiu no âmbito de uma tentativa de aproximação à Coreia do Norte. Neste contexto, a realização de exercícios militares junto às fronteiras de Pyongyang pode ser interpretada pelo regime de Kim Jong-un como uma ameaça — e esse parece ser um risco que Washington não quer correr. Mas a caracterização que Trump faz desta realidade é bem mais otimista. Nas suas palavras, a decisão foi tomada, em parte, devido “à [sua] relação muito boa com Kim Jong-un“.

Na verdade, a suspensão do Ulchi Freedom Shield é apenas mais um passo numa retração da presença militar dos Estados Unidos na região a que se tem vindo a assistir ao longo dos últimos meses. E a justificação para essas outras ações não está a norte, mas no Médio Oriente — mais precisamente na guerra que os EUA continuam a travar contra o Irão. Em março, menos de duas semanas depois do início da ofensiva, os Estados Unidos retiraram da Coreia do Sul alguns sistemas antimísseis de defesa terminal de área a grande altitude (THAAD, na sigla em inglês). Da zona fronteiriça com a República Popular Democrática da Coreia (RPDC, nome oficial da Coreia do Norte), os sistemas foram transportados para o Médio Oriente.

Na semana passada, o Pentágono mobilizou o porta-aviões USS George Washington, ancorado no Japão, para o Médio Oriente, com o propósito de render o USS Abraham Lincoln que, destacado há mais de 250 dias, bateu o recorde de mais dias consecutivos em alto mar. O acumular de situações reflete as prioridades internacionais de Washington, mas faz soar os alarmes entre os seus aliados no leste da Ásia. A Coreia do Sul mostra-se particularmente apreensiva com o vizinho a norte, mas é a China, potência global, adversário dos Estados Unidos e principal aliado de Pyongyang, que mais tem a ganhar com a presença cada vez menor dos norte-americanos na região.

“Um passo positivo na redução das tensões com a Coreia do Norte”

Na mesma publicação em que invocou a sua alegada boa relação com o líder norte-coreano, Donald Trump aproveitou para criticar Seul. “Recentemente pedi ao Presidente da Coreia do Sul se eles gostavam de se juntar a nós na Desnuclearização da República Islâmica do Irão e eles disseram ‘Não, obrigado!'”, criticou. Esta segunda-feira, questionado pela imprensa na Casa Branca sobre o tema, Trump encontrou ainda outro defeito na aliança com a Coreia do Sul.

“A Coreia do Sul tem sido protegida por nós durante muitos, muitos anos. E, durante o meu primeiro mandato, eles concordaram em pagar perto de três mil milhões de dólares pela proteção porque, basicamente, eles não estavam a pagar“, queixou-se. As críticas relativas à dependência militar dos aliados de Washington têm sido frequentes, durante o segundo mandato de Trump, na direção da Europa e da NATO. Mas as acusações na direção da Coreia do Sul vão de encontro à caracterização positiva que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, tinha feito da relação Washington-Seul em maio deste ano.

"Esperamos que as relações amigáveis entre os líderes norte-coreanos e dos EUA resultem em diálogos relevantes entre a Coreia do Norte e os EUA e o início de discussões com vista e promover a paz e a estabilidade na Península da Coreia."
Comunicado do Governo sul-coreano

“Se quiserem ver como a partilha de responsabilidades funciona olhem para a República da Coreia. A Coreia do Sul tem investido na sua própria defesa de forma consistente porque não se pode dar ao luxo de tratar a guerra como um exercício académico”, ponderou o líder do Pentágono, a que Donald Trump se refere utilizando o novo título que criou para o cargo, secretário de Guerra, em vez de Defesa.

Face à retórica agressiva utilizada pela Casa Branca, Seul fez questão de sublinhar a importância de uma “aliança sólida” com os EUA para a “segurança nacional” coreana. Apesar disso, o Executivo liderado por Lee Jae-myung também vincou os aspetos positivos que podem resultar desta decisão. “Esperamos que as relações amigáveis entre os líderes norte-coreanos e dos EUA resultem em diálogos relevantes entre a Coreia do Norte e os EUA e o início de discussões com vista a promover a paz e a estabilidade na Península da Coreia”, declarou o Governo em comunicado.

As palavras vão ao encontro de um desejo que o Presidente Lee tem expressado desde a sua eleição no ano passado: o fim formal da Guerra da Coreia, que começou em 1950 e para o qual foi assinado um cessar-fogo, mas nunca um acordo de paz definitivo. Questionado sobre o tema esta segunda-feira, Donald Trump afirmou que Kim Jong-un tinha respondido de forma “positiva” aos pedidos norte-americanos para um encontro entre os dois chefes de Estado. Pyongyang não se pronunciou sobre essa possibilidade.

“Em último caso, a decisão de Trump pode representar um passo positivo na direção da redução das tensões com a Coreia do Norte — desde que Trump esteja disposto a coordenar com Seul para tirar o máximo proveito”, argumenta James Park, investigador do programa para o leste asiático no Quincy Institute, num artigo de análise. Porém, este possível benefício do anúncio é muito menor que as possíveis consequências negativas, bem mais numerosas.

Mais riscos que benefícios. Os perigos da decisão norte-americana

Esta segunda-feira, anunciou a presidência sul-coreana, o exercício conjunto começou “como anteriormente agendado” — está previsto que dure até ao dia 27 de agosto. Não é claro que alterações terão sido feitas ao exercício depois da indicação dada por Donald Trump a Hegseth, mas Carl Schuster, antigo diretor do Centro de Informações do Comando Conjunto das Forças Armadas norte-americanas no Pacífico, explicou à CNN que estas deverão ter sido mínimas. Isto porque, dois dias antes do início do exercício, a maior parte dos investimentos e preparações já teriam sido feitos.

Vários analistas reconhecem que o exercício anual tem, efetivamente, custos muito altos, um peso que se faz sentir ainda mais no orçamento do Pentágono quando este enfrenta há quase seis meses uma guerra no Médio Oriente, que custou já milhares de milhões de dólares. O que é mais criticado é a form

a como o chefe de Estado escolheu ultrapassar este desafio. “Se Trump estava à procura de poupar dinheiro, podia só ter diminuído os exercícios e dito que já não queria pagá-los, sem dar créditos a Kim por um bom comportamento que não existe”, escreve Kevin Baron, analista de segurança nacional do canal MS-NOW.

"A poupança de custos ao diminuir os testes é marginal, enquanto os benefícios diplomáticos para as relações com a Coreia do Norte são questionáveis. As recentes publicações de Trump nas redes sociais sobre Kim Jong-un sugerem uma disponibilidade para se voltarem a relacionais, mas a Coreia do Norte está ocupada a beneficiar da guerra da Rússia contra a Ucrânia, enquanto moderniza o seu próprio Exército."
Leif-Eric Easley, professor de estudos internacionais em Seul

Os “créditos” são visíveis na caracterização que Donald Trump faz do regime de Pyongyang no seu anúncio de domingo: “um país que, desde que Donald J. Trump é Presidente, tem sido não intimidante e respeitoso“. As ações do líder norte-coreano contrariam esta leitura do Presidente dos EUA. Nos últimos anos, Kim Jong-un dedicou-se a expandir o seu programa nuclear, apostou na modernização dos seus sistemas militares (e exibiu esses avanços publicamente, muitas vezes ao lado da filha e herdeira) e envolveu-se diretamente na guerra entre a Ucrânia e a Rússia, com o envio de tropas para apoiarem as forças russas.

“A poupança de custos ao diminuir os testes é marginal, enquanto os benefícios diplomáticos para as relações com a Coreia do Norte são questionáveis“, aponta Leif-Eric Easley, professor de estudos internacionais em Seul, à DW. “As recentes publicações de Trump nas redes sociais sobre Kim Jong-un sugerem uma disponibilidade para se voltarem a relacionar, mas a Coreia do Norte está ocupada a beneficiar da guerra da Rússia contra a Ucrânia, enquanto moderniza o seu próprio Exército”, elabora.

Num âmbito mais alargado, a retirada dos Estados Unidos fragiliza a capacidade de defesa dos seus outros aliados na região: o Japão, as Filipinas ou Taiwan. Além disso, consolida a imagem de Washington no palco internacional como um aliado pouco fiável, que prioriza os seus interesses e “negligencia continuamente os aliados”, caracteriza David Silbey, professor de história militar e políticas de defesa na Universidade Cornell, também à DW. No sentido inverso, se os aliados regionais saem a perder, os adversários dos Estados Unidos podem sair a ganhar.

Fragilização da coordenação e capacidade de resposta podem encorajar ações da China

A decisão de Donald Trump motivou, sem surpresas, um coro de críticas no Partido Democrata: apontaram ao desrespeito da Casa Branca pelas alianças, à cordialidade com que trata o regime de Kim Jong-un e ao arrastar dos gastos com o conflito no Médio Oriente. A administração norte-americana manteve-se, de forma igualmente expectável, firmemente leal a Trump. Contudo, as consequências da decisão são reconhecidas por vozes isoladas no Partido Republicano.

“Reduzir os exercícios conjuntos com a Coreia do Sul não faz mais do que libertar milhares de soldados norte-coreanos para apoiar o rapto, a tortura, a violação e o assassinato sistemáticos de cidadãos ucranianos inocentes por parte de Putin”, escreveu o senador Thom Tillis nas suas redes sociais. Além da Rússia de Vladimir Putin ou da Coreia de Kim Jong-un, a China de Xi Jinping pode ser quem tem mais a ganhar com as movimentações norte-americanas na região.

Xi realizou no início de junho uma visita a Pyongyang, a primeira desde 2019, revelando a valorização de uma relação que permanece profundamente desigual. A aproximação entre a Rússia, a RPDC e a China é, por si só, preocupante para os Estados Unidos. Ainda mais quando acontece num clima de deterioração da relação de Washington com os seus aliados. A fragilização desta relação e a diminuição da presença norte-americana na região podem mesmo encorajar Pequim a fletir mais do que o seu poder económico na região.

Num cenário de ação militar, o cenário mais óbvio é um aliado norte-americano que já foi mencionado: a ilha de Taiwan. Ora, a atual atuação dos Estados Unidos na região pode “fragilizar a dissuasão contra possíveis conflitos na Ásia”, salienta o professor Leif-Eric Easley. Caso esses conflitos se concretizassem, os EUA também veriam diminuídas as suas capacidades de coordenação e resposta.

Contudo, os especialistas destacam que este cenário, ainda que não seja impossível, é muito longínquo — e, como a maior parte das políticas da Casa Branca sob a administração Trump, imprevisível. John Herbst, antigo embaixador dos Estados Unidos durante a presidência de George W. Bush, destaca à Associated Press que a situação inspiraria mais cuidados se as ações dos EUA em relação à Coreia do Sul (ou outros aliados da região) se tornarem “mais frequentes ou mais importantes”.

Por agora, a decisão de Donald Trump sobre os exercícios conjuntos não representa uma mudança decisiva na organização, estabilidade ou segurança regional. Para além de não ser inédita, a suspensão dos treinos resulta de um conjunto de outras variáveis diplomáticas e militares que forçaram Washington a agir. “Apesar de algumas declarações que parecem apontar na direção [da destruição do sistema de alianças], ainda não caminhamos nessa direção de forma consistente”, argumenta o antigo embaixador.

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