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"Confidente": drama, "suspense" e corrupção numa linha erótica na Turquia

Realizado pelo francês Guillaume Giovanetti e pela turca Çagla Zencirci, "Confidente" é ambicioso demais, mas tem uma formidável interpretação de Saadet Aksoy. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Eurico de Barros
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A ideia de fazer um filme em que os protagonistas estão permanentemente em contacto telefónico e constante interacção dramática não é nova. Em 1956, Sydney Pollack estreou-se a realizar com Chamada para a Vida, em que Sidney Poitier interpreta um estudante universitário que é voluntário numa linha de apoio a pessoas com tendências suicidas, e procura impedir uma mulher (Ann Bancroft) de se matar, conversando com ela. Ao mesmo tempo, outras pessoas ao seu redor, um psiquiatra e um detective da polícia, tentam descobrir onde ela está, bem como localizar e contactar o marido.

Mais recentemente, vimos o dinamarquês O Culpado, de Gustav Möller, no qual um polícia despromovido para o 112 local, e sem poder sair do seu posto, tenta salvar uma mulher que foi raptada; e o remake americano, com o mesmo título, de 2021, assinado por Antoine Fuqua e com Jake Gyllenhaal no papel principal. E há ainda o inglês Locker, de Steven Knight, todo filmado dentro de um automóvel guiado por Tom Hardy, interpretando um empreiteiro que, ao longo do percurso, tem uma sucessão de conversas telefónicas das quais dependem o futuro da sua vida profissional e familiar.

A estes títulos junta-se agora Confidente, uma co-produção turco-franco-luxemburguesa realizada pelo francês Guillaume Giovanetti e pela turca Çagla Zencirci, também autores do argumento. O filme passa-se em 1999, nos arredores de Ancara, nas acanhadas instalações de uma linha erótica. Uma das operadoras, Arzu (Saadet Aksoy), está preocupada porque o marido, que pensa que ela trabalha nos Correios, pode ficar com a custódia do filho quando forem a tribunal por causa do divórcio; e ao mesmo tempo, tem que esquivar os avanços do seu patrão, que está obcecado por ela e lhe promete mundos e fundos.

[Veja o “trailer” de “Confidente”:]

https://www.youtube.com/watch?v=_AQmx_wDE9U

De repente, há um pequeno tremor de terra, que logo a seguir se sabe ter sido muito mais grave noutras zonas do país, caso de Istambul. Arzu recebe então um telefonema de um adolescente daquela cidade com quem tinha falado pouco antes, e mandado desligar por não ser maior de 18 anos. O rapaz está preso nos escombros do seu prédio sem saber do pai e da mãe, e implora-lhe que o ajude. A mulher liga então a um cliente que ela sabe ser muito importante na estrutura do Estado e poderá ajudar, acabando por se ver metida numa intriga política muito perigosa, à medida que vão caindo as máscaras e as falsas identidades intrínsecas ao mundo das linhas eróticas.

[Veja uma entrevista com os realizadores:]

https://www.youtube.com/watch?v=i9aOzNxpEa0

Filmes como Confidente são quase como teatro radiofónico, ou rádio filmada. Dependem, para funcionar como drama, manter a tensão viva, a verosimilhança activada e o interesse do espectador constante, de um enredo convincente e consistente e de um suspense rigorosamente controlado; precisando ainda de apelar à imaginação de quem está a ver, e de actores que, pela sua presença ou pelas vozes, comuniquem todo o dramatismo, a ansiedade e as emoções em jogo na história, e sugiram as situações que acontecem ao longo desta e não são vistas, apenas ouvidas ou descritas.

Neste último ponto, a interpretação de Saadet Aksoy quase só por si justifica a deslocação. A sua Arzu está sempre presente ao longo dos 76 minutos de Confidente, muitas vezes em grande plano, e da expressividade à tonalidade vocal, passando pela revelação do mundo íntimo da personagem, Aksoy dá unidade, textura e peso de angústia à fita. Já os realizadores, esses, têm ambição a mais, ao quererem que, além de um filme de suspense com registo político, Confidente seja também um libelo sobre a situação da mulher na Turquia, a opressão e a hipocrisia patriarcal, e a corrupção nas altas esferas do país, tornando-o demonstrativo e sentencioso, e dando-lhe uma conclusão atrapalhada.