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Harald V da Noruega (1937-2026). Um Rei conciliador e à frente do seu tempo

Do exílio na Casa Branca em criança ao discurso viral sobre diversidade aos 79 anos, Harald V foi um monarca que desafiou convenções e moldou a monarquia norueguesa.

Sâmia Fiates
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Carolina Carvalho
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Foi o primeiro príncipe a nascer no país em séculos, o terceiro Rei de uma Noruega independente, o monarca mais velho em exercício na Europa e teve uma vida e reinado marcados pelas mudanças, livres de preconceitos e a olhar para o futuro — ainda assim mantendo o apoio popular. Na infância exilou-se na Casa Branca; na juventude ameaçou abdicar para se casar com uma plebeia; como pai, acolheu tanto o passado de drogas da nora assim como o seu filho anterior ao casamento, bem como a decisão da filha mais velha de se afastar da realeza e casar-se com um xamã; e como avô, viu alterada a lei da sucessão para que a neta seja rainha. Ainda antes de ter um telemóvel — só se rendeu aos 83 anos — discursava sobre aceitação numa Europa marcada por políticas anti-imigração. Harald V, o Rei da Noruega morreu esta sexta-feira, 28 de agosto, aos 89 anos.

https://observador.pt/2026/08/28/morreu-o-rei-da-noruega-harald-v-tinha-89-anos-e-estava-internado-desde-o-dia-17/

O monarca estava internado desde o dia 17 de agosto para tratar uma retenção de líquidos, consequência do tratamento com corticoides a uma anemia hemolítica, uma doença autoimune, e o seu estado de saúde piorou progressivamente desde o fim de semana. A Casa Real confirmou a morte esta sexta-feira através de um comunicado.

A saúde do carismático Rei dava sinais de preocupação já desde o início dos anos 2000. Em dezembro de 2003 a Casa Real norueguesa divulgou que sofria de um cancro na bexiga. O monarca, que não quis fazer da sua condição um segredo, foi operado no mesmo mês. Em abril de 2005 foi operado para substituir uma válvula cardíaca, e desde então foram várias as vezes que já teve que recorrer ao hospital. Em setembro de 2020 submeteu-se de emergência a nova intervenção cirúrgica, e desde 2024, depois de uma infeção numa viagem à Malásia, usava um marca-passo.

Harald V ascendeu ao trono a 17 de janeiro de 1991, depois da morte do pai, Olav V. Entretanto, o seu papel foi maioritariamente representativo e cerimonial. A Noruega é uma Monarquia Constitucional, o que significa que o monarca ocupa o cargo de chefe de Estado. A Constituição norueguesa ainda concede poderes executivos, mas na prática é o Governo a atuar em nome do Rei. Entre as funções oficiais está a abertura formal do parlamento (ou Storting), no outono; presidir ao Conselho de Estado e ser o comandante das forças armadas. Até 21 de maio de 2012, o soberano era o chefe da Igreja da Noruega, mas deixou de o ser depois de uma emenda constitucional.

Em 2021, num discurso durante o tradicional evento com membros do parlamento que o Palácio Real costuma organizar, o Rei Harald confessou que só no ano anterior, com 83 anos, teve o seu primeiro telemóvel. E a culpa foi da pandemia. O Rei fazia um balanço do último ano e dos isolamentos pelos quais todas as pessoas passaram. “Se há algo que realmente aprendemos desde março do ano passado é a importância da tecnologia moderna para poder estar em contacto”, disse o monarca. “Portanto, foi uma grande alegria para a minha família quando tive telemóvel. Só demorei 40 anos”, disse o Rei, citado pela Vanity Fair.

Um príncipe com herança viking e atleta olímpico

Harald V da Noruega nasceu a 21 de fevereiro de 1937 e o acontecimento teve especial simbolismo porque foi o primeiro príncipe norueguês a nascer no país desde 1370. Recebeu o nome do primeiro soberano daquele país na época dos Vikings, Harald the Fairhead.

A Noruega é uma monarquia independente apenas desde 1905. Esteve unida à Dinamarca entre 1381 e 1814 e, depois, à Suécia até 1905. O avô de Harald V, Haakon VII, foi o primeiro Rei do país como monarquia moderna. O seu filho — pai de Harald — nasceu na propriedade da família real britânica, em Sandringham, na Inglaterra. A mãe era uma princesa inglesa, Maud de Gales, e o príncipe chegou a ser batizado com um nome britânico: Alexander Edward Christian Frederick. Contudo, os pais, quando ascenderam ao posto de Reis da Noruega, rebatizaram-no com o nome do último Rei do país, ainda no século XIV. Aos 2 anos de idade, o príncipe Alexander passou a chamar-se Olav.

O Rei Olav V morreu com um ataque cardíaco aos 87 anos e era, na altura, o monarca mais velho da Europa. Durante a Segunda Guerra Mundial e a ocupação nazi na Noruega, era príncipe herdeiro e foi considerado um símbolo da resistência. Esteve com o Rei e com membros do Parlamento escondido na floresta do norte do país durante dois meses, quando as tropas alemãs começaram a invadir o seu país. Depois, embora quisesse ficar e liderar a resistência, acabou por se exilar em Inglaterra onde se tornou enviado dos Estados Unidos. Reinou durante 34 anos, tinha uma postura de proximidade com os seus súbditos e foi um Rei amado: ganhou o título não oficial de “um Rei para todo o povo”, segundo conta o The New York Times.

Harald foi o terceiro filho e único rapaz do Rei Olav V da Noruega e da princesa Martha da Suécia. O monarca tem ainda duas irmãs mais velhas, as princesas Ragnhild, nascida em 1930 e que morreu em 2012; e Astrid, nascida em 1932. Quando nasceu também estava na linha de sucessão ao trono britânico, por ser trineto da Rainha Victoria. Só se tornou o herdeiro direto ao trono norueguês quando o avô, Haakon VII, morreu e o pai assumiu, em 1957. A sua mãe, a princesa Martha, já tinha morrido em 1954.

Em 1940, quando o pequeno príncipe Harald tinha apenas três anos, perante a ocupação nazi na Noruega, a mãe saiu do país com os três filhos. Os Reis tinham viajado várias vezes aos Estados Unidos e o Rei era amigo do Presidente norte-americano Roosevelt, que convidou a Rainha e os filhos para se instalarem na Casa Branca, onde viveram durante algum tempo. Depois mudaram-se para Pook Hill, ainda no estado de Maryland até regressarem a casa a 7 de junho de 1945. O pai e o avô de Harald estiveram exilados em Inglaterra até à primavera desse mesmo ano.

Enquanto era ainda príncipe, Harald estudou na Universidade de Oslo, no Balliol College em Oxford e na Academia Militar Norueguesa. O pai era praticante de esqui e vela — como velejador chegou a ganhar uma medalha de ouro olímpica, da competição de 1928. Harald seguiu os passos do pai: também se especializou em vela, representou a Noruega nos Jogos Olímpicos de 1964, 1968 e 1972, e viria a ser patrono da World Sailing.

A história de amor com uma plebeia

Não há consenso sobre o local e a data exata. Segundo alguns registos, o príncipe Harald e Sonja Haraldsen conheceram-se numa festa em 1958, outros referem que o primeiro encontro se deu num acampamento quando tinham 15 anos. A verdade é que se apaixonaram, ainda que o amor parecesse impossível. Viriam a casar anos mais tarde, em 1968. Os pais do príncipe opuseram-se ao namoro de tal forma que Harald foi enviado para estudar em Oxford, para que esquecesse a namorada e talvez até arranjasse uma nova noiva. Tudo porque Sonja era uma plebeia.

A princesa Sofia da Grécia, atual rainha emérita de Espanha, chegou a ser apontada ao seu caminho. Os Reis gregos e pais de Sofia, Pavlos I e Federica, visitaram Oslo em meados da década de 1950 com a filha. Esta terá dançado com o príncipe e até gostado dele. Há quem defenda que o romance não avançou porque o dote de Sofia não era suficiente para o Rei da Noruega, mas Harald também estaria decidido a ficar com a namorada plebeia.

Sonja estudou Design de Moda e trabalhou como costureira. O pai tinha uma loja de roupa feminina que era gerida pelo filho, na qual ela trabalhou como consultora de moda. O pai pertencia à burguesia norueguesa e morreu em 1959, nove anos antes do casamento da filha. O primeiro sinal de que os dois namorados estavam a pensar em casamento veio em 1961, quando Sonja deixou a sua carreira profissional para começar a dedicar-se ao estudo de línguas, arte, história e outros temas que seriam adequados para uma futura rainha, escreve o The New York Times na notícia do casamento. Quando se casou, Sonja passou a ser o único membro da família real a falar francês.

A jovem terá ameaçado tirar a própria vida se não lhe permitissem o casamento com Harald, conta a Vanity Fair. O príncipe, por seu lado, fez um ultimato aos pais, segundo o qual ou o deixavam casar-se com a sua amada ou renunciava aos seus direitos dinásticos. O Rei acabou por aceitar o compromisso, depois de confirmar com o Parlamento que o casamento não viria a ser um problema político.

A 20 de março de 1968 o mesmo The New York Times noticiava que o Rei Olav V deu “a Harald a aprovação para casar com uma plebeia”. “Estudou francês e inglês na Universidade de Oslo, mas não tem licenciatura. Frequentou uma escola para raparigas na Suíça e também estudou em França. É uma instrutora de esqui autorizada. Os jornais dizem que é boa cozinheira”, descrevia ainda o artigo sobre a noiva. O jornal dava ainda conta de que chegou a haver “alguma discussão para alterar a Constituição, para negar à mulher do príncipe herdeiro totais direitos reais”. Contudo, o tema não avançou, já que a monarquia gozava de grande popularidade desde a Segunda Guerra Mundial. Naquela altura as duas irmãs do príncipe já tinham casado com plebeus e Harald era o único na linha de sucessão, uma vez que só os homens podiam ascender ao trono. Assim, os três filhos dos reis casaram fora do universo da realeza.

O casamento real aconteceu na Catedral de Oslo a 29 de agosto de 1968, na presença de uma série de membros de casas reais europeias. A noiva chegou à catedral de limusine, conduzida até ao altar pelo Rei. Sonja desenhou o seu próprio vestido em seda branca e silhueta com cauda e véu em tule. O decote redondo subido e as mangas três quartos foram bordadas com pérolas e pequenas flores.

Em 2018 o casal de monarcas fez 50 anos de casamento e celebrou as suas bodas de ouro com a renovação dos votos na Catedral de Oslo perante 800 convidados, 200 destes eram representantes do povo. Chegaram no mesmo carro que os transportou no dia do casamento, em 1968. O Rei ofereceu à rainha uma pregadeira em forma de rosa, em ouro, que Sonja usou neste dia.

Em 2017 os Reis fizeram ambos 80 anos, pretexto para uma grande festa que reuniu vários membros da realeza em Oslo. Desta vez o monarca ofereceu à rainha um espaço de arte e cultura com o seu nome aberto ao público nos renovados estábulos do Palácio Real. Desde a Segunda Guerra Mundial que este local estava destinado a arrumação, agora chama-se “The Queen Sonja Art Stable”.

Os filhos rebeldes

Seguindo os passos dos pais, os dois filhos de Harald e Sonja também enfrentaram as polémicas por amor. A princesa Martha Louise nasceu a 22 de setembro de 1971. A 24 de maio de 2002 casou-se com Ari Behn, de quem se divorciaria em 2017. Pelo meio tiveram três filhas: Maud Angelica (2003), Leah Isadora (2005) e Emma Tallulah (2008). Em 2019 o ex-marido da princesa, então com 47 anos, suicidou-se. Foi também neste ano que a princesa começou a sair com o guia espiritual de Hollywood, autoproclamado xamã de sexta geração, Durek Verrett. Em junho de 2022 anunciou na sua conta de Instagram o noivado, e em novembro renunciou aos seus deveres reais através da mesma rede social, esclarecendo que a sua decisão tinha por base “trazer calma à Casa Real” e que foi tomada em conjunto com a Rainha, o Rei e o resto da família real, de forma “amigável”. Märtha Louise mantém o seu título de princesa, mas deixou de representar a Casa Real. O casal trocou alianças em 2024, e em 2025 estrelou um documentário na Netflix chamado Rebel Royals.

O herdeiro ao trono, no entanto, assumiu os seus deveres reais assim que completou a maioridade e exerce um papel ativo na monarquia — não longe das suas próprias polémicas. O príncipe Haakon Magnus nasceu a 20 de julho de 1973. Em 1991, quando o pai ascendeu ao trono, tornou-se o príncipe herdeiro. Meses depois, no mesmo ano, quando já tinha 18 anos, participou no primeiro Conselho de Estado ao lado do Rei Harald V, dia em que fez o seu primeiro discurso.

Foi anos depois, em 1999, que Haakon aprendeu o que é lutar por amor. O príncipe conheceu Mette-Marit depois de terem sido apresentados por amigos em comum. O noivado foi anunciado apenas seis meses depois do primeiro encontro, já sob a pressão e o escrutínio da imprensa.

Empregada de mesa e mãe solteira, a escolha do príncipe herdeiro não era propriamente o que a sociedade norueguesa esperava para uma futura rainha. Terá sido durante os anos na Universidade de Oslo que Mette-Marit viveu os seus “anos rebeldes”. No ano 2000 a imprensa norueguesa avançou histórias sobre o envolvimento da noiva de Haakon com drogas e a sua constante presença num ambiente de festas estilo rave. Também foi nesta altura que conheceu Morten Borg, que havia sido preso em 1991 por posse de cocaína, além de ter tido outros problemas com a justiça, envolvendo casos de violência, drogas e condução sob o efeito de álcool. Do breve relacionamento com Morten Borg nasceu Marius, em janeiro de 1997.

A poucos dias do casamento, Mette-Marit falou publicamente sobre os rumores, como recorda o britânico Independent. “A minha juventude rebelde foi mais forte do que a de muitas pessoas”, disse a então noiva de Haakon, que na altura tinha 28 anos. “Passei dos limites e sinto muito por isso”, reconheceu ainda Mette-Marit. “Na altura era importante para mim viver no limite daquilo que era aceite”, afirmou, já às lágrimas. “Quero aproveitar a oportunidade para condenar o uso de drogas”.

O casamento decorreu a 25 de agosto de 2001, na Catedral de Oslo. O casal mudou-se para Skaugum, a residência oficial dos príncipes herdeiros até aos dias atuais, em dezembro de 2003 — em janeiro de 2004 deram as boas-vindas à primeira filha, Ingrid Alexandra. Sverre Magnus nasceu quase dois anos depois, em dezembro de 2005.

Em 1990 a Constituição alterou a lei da primogenitura, que passou a conceder a Ingrid Alexandra o direito legítimo ao trono. No dia do seu aniversário de 18 anos, a princesa cumpriu um ritual de visitas aos três poderes do Estado, indo ao Parlamento, à sede do poder judicial e ao gabinete do primeiro-ministro. Será a segunda rainha da Noruega: a primeira chamava-se Margarida e reinou entre 1387 e 1412 no reino conjunto da Dinamarca, Noruega e Suécia.

Um Rei viral

Em 2016, Harald completou 25 anos no trono da Noruega, e o ano ficou marcado pelo discurso de cinco minutos que fez para dar as boas-vindas aos convidados numa festa no jardim do Palácio Real de Oslo. No momento foi ouvido por cerca de 1500 convidados, mas através das redes sociais chegou a todo o mundo. Uma porta-voz do palácio revelou que receberam uma série de pedidos de uma tradução oficial do discurso em inglês, que viria a ter mais de três milhões de visualizações e cerca de 80 mil gostos no Facebook.

Harald, na altura com 79 anos, falou resumida e claramente sobre todas as questões quentes do momento: apoio a refugiados, tolerância religiosa, diversidade e direitos LGBT. O Rei disse que o povo norueguês é composto por “raparigas que amam raparigas, rapazes que amam rapazes e raparigas e rapazes que se amam uns aos outros”; os noruegueses creem “em Deus, em Alá, no universo — e em nada”, e falou ainda de “confiança, solidariedade e generosidade” e da noção de casa. “Nem sempre é fácil dizer de onde somos, de que nacionalidade somos. Casa é onde o nosso coração está”.

O Guardian lembra que na altura a Noruega era um país com cinco milhões de habitantes a braços com a dificuldade em integrar cerca de 30 mil pessoas que haviam chegado ao país em busca de asilo, tendo 5500 destas atravessado a Rússia de bicicleta vindas da Síria. A retórica anti-imigração crescia então a olhos vistos no país e a coligação de centro-direita, no Governo desde 2013, era altamente criticada por querer deportar para a Rússia os requerentes de asilo na Noruega. Sugeriram ainda a criação de uma vedação na fronteira entre os dois países.

O Rei reforçou no seu discurso que os noruegueses não vinham apenas das diferentes zonas da Noruega, mas também “do Afeganistão, Paquistão e Polónia, da Suécia, Somália e Síria”, reforçando a ideia de inclusão. E terminou com uma mensagem de união para o futuro. “A minha maior esperança para a Noruega é que consigamos tomar conta uns dos outros. Que continuemos a construir este país — com base em confiança, companheirismo e generosidade de espírito. Que sintamos que somos — apesar das nossas diferenças — um povo. A Noruega é uma.” Uma fala que reflete a sua posição ao longo da vida, sempre a defender o acolhimento e as mudanças necessárias, com o foco no futuro.