(c) 2023 am|dev

(A) :: O Vitinho já não existe. E agora quem manda os nossos filhos para a cama?

O Vitinho já não existe. E agora quem manda os nossos filhos para a cama?

Era um ritual coletivo. Uma espécie de toque de recolher nacional, disfarçado de anúncio de papinhas

Joana da Costa Taborda
text

“Está na hora da caminha, vamos lá dormir…” Quem tem mais de 35 anos ouve esta frase e sente logo um cheiro a pijama quentinho e a leite morno.

Era o “Boa Noite, Vitinho!”, a rubrica que estreou a 2 de fevereiro de 1986 na RTP, criada por José Maria Pimentel para a marca Milupa. Durava poucos segundos, uma cançãozinha envolta em ternura, um boneco a bocejar e pronto, estava dado o sinal.

As crianças de Portugal inteiro sabiam que era hora de desligar as luzes e descansar.

Hoje isso parece coisa de outro planeta.

Um relógio que tocava para todos ao mesmo tempo

O que o Vitinho fazia, sem que ninguém desse por isso, era impor uma fronteira. Não havia negociação possível: a televisão, esse mesmo aparelho que hoje tememos como inimigo número um da infância, tinha uma grelha fixa, um horário rígido, um fim. Depois do Telejornal vinha o Vitinho, e as crianças sabiam, porque toda a gente sabia que era hora de ir para a cama.

Era um ritual coletivo. Uma espécie de toque de recolher nacional, disfarçado de anúncio de papinhas.

O ecrã sem fim

Hoje, uma criança pode estar às duas da manhã a ver o oitavo vídeo seguido de alguém a abrir brinquedos, porque o YouTube nunca diz “boa noite”. Não há Vitinho, não há sinal, não há corte. Há apenas o autoplay, silencioso e infinito, e uns pais cada vez mais sozinhos na tarefa de dizer “chega”.

E aqui está a ironia que ninguém gosta de admitir: a televisão, hoje acusada de viciar e amolecer os miúdos, foi durante décadas uma aliada silenciosa da disciplina parental. Não porque fosse pedagógica, mas porque tinha limites. Começava e acabava. Isso, por si só, já educava.

Não é o ecrã, é a ausência de fim

O problema do streaming e das plataformas não é serem digitais — é não terem princípio nem fim marcados. Tiramos aos pais um aliado estrutural e devolvemos-lhes a tarefa inteira, sem rede: sem grelha fixa, sem rubrica das boas-noites, sem nada que imponha um limite antes de ser preciso levantar a voz.

Talvez precisemos de reinventar o Vitinho!

Porque, esta noite, alguém vai ter de mandar os nossos filhos para a cama.