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Desafios de uma sociedade com formação superior

Num contexto marcado pelo envelhecimento da população, pela escassez de trabalhadores e pela crescente competição pelo talento, a qualificação dos recursos deixa de ser apenas política educativa

António Edmundo Ribeiro
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Portugal encontra-se perante uma mudança estrutural que cruza três dimensões decisivas para o seu futuro: a educação, a evolução demográfica e a capacidade de renovação do mercado de trabalho. O aumento recente das candidaturas ao ensino superior é, à primeira vista, um sinal positivo. Reflete a crescente convicção de que o conhecimento constitui um dos principais fatores de realização pessoal, progresso económico e participação social. Confirma também que as famílias e os jovens continuam a reconhecer na formação superior uma via relevante de acesso a melhores rendimentos, sendo, porventura, um dos mecanismos mais importantes de promoção da mobilidade social e da igualdade de oportunidades. De resto, esta leitura aproxima-se da perspetiva de Joseph E. Stiglitz e Bruce C. Greenwald em Creating a Learning Society, (2014), para quem o progresso económico e social depende decisivamente da capacidade das sociedades para aprenderem, difundirem conhecimento e transformarem esse conhecimento em produtividade, inovação e melhores condições de vida.

Em 2026, as estatísticas da Direção-Geral do Ensino Superior (DGES) para a 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso mostram 60 391 candidatos, contra 49 595 no período homólogo de 2025, o que corresponde a um aumento de cerca de 21,8%. Este dado merece uma leitura positiva, mas não deve ser interpretado de forma isolada. Mais candidatos ao ensino superior significam mais jovens envolvidos em percursos académicos mais longos, com uma duração mínima de pelo menos três anos. Mas significam também uma alteração na forma como os jovens se distribuem entre diferentes modalidades de qualificação, com efeitos sobre a formação profissional, os estágios profissionalizantes, a entrada no mercado de trabalho e a substituição das gerações que, entretanto, se retiram da vida ativa.

O primeiro desafio é, por isso, o da articulação entre ensino superior e percursos de qualificação profissional. Quando uma parcela crescente dos jovens opta por prosseguir estudos superiores – sinal também de que a economia regista crescimento que permite essa opção pelas famílias – diminui inevitavelmente o contingente disponível para percursos de qualificação técnica e profissional de nível intermédio, bem como para estágios dirigidos a qualificações não superiores. Esta realidade ganha particular importância em áreas e setores de atividade onde continuam a existir vagas por preencher e onde a falta de trabalhadores disponíveis já condiciona a capacidade de resposta das organizações e o crescimento económico.

As medidas de estágios do IEFP ilustram bem esta diferenciação de públicos e necessidades. Os Estágios INICIAR (ajudam jovens e desempregados com uma qualificação de nível 4 ou 5 do Quadro Nacional de Qualificações – QNC, a ganhar experiência prática numa entidade empregadora) abrangem desempregados inscritos com aquelas qualificações, enquanto os Estágios +Talento se dirigem a jovens até aos 35 anos com qualificação superior, correspondentes aos níveis 6, 7 ou 8 do QNQ. Esta arquitetura revela que a política pública procura adaptar-se a trajetórias formativas distintas, tendo gerado, conjuntamente com outras políticas públicas e enquadramento económico, o maior número de população ativa alguma vez registado em Portugal. Mas, mostra também um equilíbrio cada vez mais delicado entre diferentes necessidades do sistema educativo e do mercado de trabalho: por um lado, a necessidade de valorizar qualificações intermédias e profissionalizantes; por outro, a exigência crescente de criar respostas mais qualificadas, mais bem remuneradas e mais orientadas para a inserção efetiva de jovens já detentores de formação superior.

O segundo desafio é demográfico. A evolução da natalidade condiciona, ano após ano, a dimensão das gerações que chegam ao ensino secundário, ao ensino superior, à formação profissional e, posteriormente, ao mercado de trabalho. 2025 foi um ano em que os nascimentos aumentaram. Segundo o INE, em 2025 nasceram 87 764 nados-vivos de mães residentes em Portugal, o que representou um aumento de 3 122 nascimentos (+3,7%) face a 2024, embora persista ainda défice natural apreciável (-34 mil pessoas, entre óbitos e nascimentos), só anulável pela imigração controlada e inclusiva.

Estes números ajudam a compreender um fenómeno de fundo que vai muito além das oscilações anuais das candidaturas ao ensino superior. Mesmo quando, num determinado ano, aumenta o número de candidatos, como o ano presente, a sustentabilidade demográfica do país continua a assentar em fundamentos ainda frágeis. Portugal pode registar mais procura de ensino superior num dado momento, mas permanece confrontado com gerações (naturais) mais pequenas, uma população envelhecida e uma capacidade insuficiente de renovação geracional. Os efeitos desta fragilidade estrutural têm sido atenuados, em larga medida, pelo contributo da imigração para o crescimento da população ativa, mas isso não elimina a necessidade de uma estratégia demográfica consistente e de longo prazo.

O terceiro desafio resulta das saídas do mercado de trabalho por aposentação ou reforma. Embora este fenómeno seja particularmente visível na Administração Pública, ele traduz uma transformação muito mais ampla: a retirada de trabalhadores experientes altera o equilíbrio das organizações, cria necessidades de substituição e obriga a processos exigentes e céleres de transmissão de conhecimento. Em 2025, a DGAEP registou 17 231 saídas por reforma ou aposentação nas administrações públicas. Este número não deve ser lido apenas como uma variação administrativa de efetivos. Significa a saída de conhecimento, fragmentação das redes de relacionamento profissional, memória institucional e competências construídas ao longo de décadas.

Quando estas saídas se combinam com uma população jovem menos numerosa, a renovação dos quadros deixa de ser uma mera operação administrativa para se transformar num verdadeiro desafio estratégico. Não basta abrir procedimentos de recrutamento, publicar avisos ou lançar concursos. É necessário atrair candidatos, selecionar perfis adequados, assegurar integração profissional, transmitir conhecimento acumulado e criar condições de permanência. Num contexto próximo do “pleno emprego”, esta tarefa torna-se ainda mais complexa, porque o recrutamento deixa de depender apenas da existência formal de postos de trabalho disponíveis e passa a depender da capacidade das organizações para atrair, integrar e reter talento, remunerando-o adequadamente.

O quarto desafio prende-se com a correspondência entre as qualificações produzidas e as necessidades reais do país. A DGEEC publicou os resultados do RAIDES (Registo de Alunos Inscritos e Diplomados do Ensino Superior) relativos a 2024/2025, indicando 107 997 diplomados no ensino superior, dos quais 57,8% são mulheres e 42,2% homens. Este volume de diplomados é expressivo e revela a capacidade instalada do sistema científico e educativo nacional. Todavia, uma sociedade com mais formação superior não resolve automaticamente os problemas de produtividade, substituição geracional ou escassez de trabalhadores em setores críticos.

Em vários domínios de atividade, o problema já não reside apenas na insuficiência global de trabalhadores, mas na escassez de pessoas com competências específicas, adaptadas à transformação tecnológica, à digitalização, à transição energética, à modernização dos serviços e à crescente complexidade das organizações. O debate relevante já não se resume, portanto, ao número de diplomados produzidos anualmente. Importa perceber se as áreas de formação correspondem às necessidades emergentes da economia, se os diplomados encontram oportunidades compatíveis com as suas competências, se os territórios conseguem fixar talento e se o país é capaz de reter os recursos humanos que forma (e que são frequentemente tentados a emigrar para outros países europeus de maiores remunerações absolutas).

Neste contexto, é desaconselhada uma leitura simplista do atual aumento das candidaturas ao ensino superior. O crescimento de cerca de 21% é um sinal muito positivo, mas não elimina o problema estrutural da natalidade, não substitui por si só os trabalhadores que se aposentam, nem garante disponibilidade imediata para estágios profissionalizantes ou empregos em setores onde persistem carências de mão de obra. Pelo contrário, exige uma gestão mais fina das transições: do ensino secundário para o ensino superior, do ensino superior para o emprego, da formação profissional para a contratação e da aposentação para a renovação dos quadros.

As medidas do IEFP, como os estágios e os apoios à contratação de jovens qualificados, devem por isso ser entendidas não apenas como instrumentos de inserção profissional, mas também como peças de uma política mais ampla de gestão estratégica de talento. Entre os seus objetivos encontram-se a atração e retenção de jovens qualificados, a promoção da estabilidade laboral, o combate ao desemprego jovem e o incentivo ao regresso de jovens emigrantes. Esta orientação é particularmente relevante num país que precisa simultaneamente de qualificar mais, reter melhor e substituir com maior eficácia as gerações que vão saindo do mercado de trabalho, para não existir perda de rendimentos nem de competitividade.

O aumento da escolarização superior constitui, sem dúvida, uma das transformações mais positivas da sociedade portuguesa nas últimas décadas. Significa que há igualdade de oportunidades (sobretudo agora quando surgem novas residências de estudantes e cursos mais atrativos em Instituições do Ensino Superior do interior do país) e que o elevador da mobilidade social funciona na nossa democracia. Mas, essa conquista, só produzirá plenamente os seus efeitos se for acompanhada por políticas de natalidade, imigração qualificada, requalificação ao longo da vida, valorização salarial (igualmente em curso), estágios de qualidade e planeamento estratégico das competências futuras. O problema português não é ter jovens “a mais” no ensino superior; é ter uma base demográfica estreita, saídas crescentes por idade de reforma, dificuldades de substituição em profissões essenciais e um mercado de trabalho que nem sempre consegue transformar qualificações em carreiras atrativas.

A verdadeira questão não reside, portanto, no número de diplomas atribuídos, mas na capacidade de transformar esse capital humano em desenvolvimento efetivo. Tal implica criar condições para que o conhecimento produzido pelas Instituições de Ensino Superior se traduza em inovação, produtividade, melhores serviços públicos e maior coesão territorial. Num contexto marcado pelo envelhecimento da população, pela escassez de trabalhadores em vários setores e pela crescente competição internacional pelo talento, a qualificação dos recursos humanos deixa de ser apenas uma política educativa para se afirmar como um dos pilares centrais da estratégia de desenvolvimento do país. O sucesso desta transformação dependerá da capacidade de articular educação, emprego, demografia, qualificação e competitividade numa visão integrada, exigente e de longo prazo.