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(A) :: Calimontenegro e o discurso que não tem Pontal por onde pegar

Calimontenegro e o discurso que não tem Pontal por onde pegar

Montenegro esteve muito bem ao aproveitar um discurso transmitido integralmente por todos os canais de notícias para se queixar da qualidade da cobertura noticiosa de que é alvo

José Diogo Quintela
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Luís Montenegro, no encerramento da famosa Festa do Pontal, queixou-se de ser alvo de censura: “O país tem de ter coragem de falar sobre as coisas que estamos a fazer mais e falar menos das coisas que, porventura, estamos a fazer menos. Não podemos viver uma espécie de censura moderna, em que as pessoas só sabem e só debatem os assuntos mais polémicos, os pequenos episódios

À primeira vista, é estranho ouvir o Primeiro-Ministro de um país onde existiu censura que condicionava o trabalho dos jornalistas, referir-se ao jornalismo livre e incómodo como “censura”. É mais ou menos como o Presidente dos EUA referir-se à turbulência que passou numa viagem no Air Force One como “o novo 11 de Setembro”. (O paralelismo não é perfeito, eu sei. Como esta censura moderna é praticada agora pelas vítimas da censura antiga, para a analogia ser correcta os prédios é que tinham de se atirar aos aviões).

Não deixa de ser bizarro que a censura moderna se pareça tanto com a antiga liberdade. Soa a velha tolice. Que alguns consideram genialidade contemporânea. Só se a semelhança estiver no lápis azul. A censura de antanho usava-o para cortar o que não interessa ao Governo, a moderna usa-o para sublinhar. É parecido, é.

Porém, uma segunda análise ao discurso leva-me a concluir que se trata de um estratagema inteligente de Montenegro. Sobretudo, quando afirma que “o país tem de ter coragem”. Vê-se que conhece os seus concidadãos. Como bom português, afino quando me chamam cobarde. Sou como o Marty McFly do Regresso ao Futuro e não suporto ouvir “chicken?” Se insinuam que sou medricas, a minha primeira reacção é gritar: “Ai, não tenho coragem para falar das coisas lindas que o Governo está a fazer? Já vamos ver quem é corajoso!” E desato a enumerar as excelentes medidas que Montenegro tem tomado, calando-me sobre as más medidas, pois falar nelas é cobardia e se há coisa que não sou é um poltrão. Tenho esperança de que, a partir desta intervenção do PM, os nossos compatriotas passem a não ter receio de falar bem do Governo em público. Vão deixar de ser necessárias aquelas reuniões clandestinas, em locais secretos, com senha e contra-senha, onde se discutem em surdina as formas de melhor enaltecer o Governo. Os bufos das cartas anónimas vão ficar sem ocupação. Nunca mais se lerá uma denúncia que começa com: “Saiba Vossa Excelência que António Saraiva, morador em São Domingos de Benfica, costuma estar no snack-bar O Pirolito a elogiar o trabalho da Ministra da Saúde. Custa-me repetir, mas sinto-me no dever de relatar que, na passada semana, chegou mesmo a referir-se à senhora como (e peço desculpa pelo termo, mas estou apenas a reproduzir o que ouvi) «estupenda profissional!»”

Voltando a ser valente, tenho de dizer que Montenegro esteve muito bem ao aproveitar um discurso transmitido integralmente por todos os canais de notícias para se queixar da qualidade da cobertura noticiosa de que é alvo. “Não podemos viver uma espécie de censura moderna em que as pessoas só sabem, só conhecem e só debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos muitas vezes de pequenos incidentes, os assuntos dos pequenos episódios e deixar aquilo que é mais importante muitas vezes escondido em notas de rodapé”, criticou o primeiro-ministro que quer “um Portugal com orgulho em si próprio”, “com menos maledicência“.

Há quem vá dizer que um Primeiro-Ministro lamentar-se do vigor das críticas é como um guarda-redes protestar com os avançados por rematarem com muita força. Mas, lá está, isso é dar razão a Montenegro, na medida em que apenas se está a salientar o lado negativo, ser mariquinhas, omitindo o lado positivo, que é termos um Primeiro-Ministro sensível.

Aliás, esse é justamente um ponto em que o PM tem toda a razão. A comunicação social foca-se muito nos aspectos menos bons dos assuntos, ignorando as partes excelentes. Na cobertura do chamado “caos dos exames”, por exemplo. O nome indica logo o viés. Porquê “caos”, termo carregado de negatividade, e não, sei lá, o neutro mas igualmente factual “normalidade alternativa”? Os jornalistas preferiram pegar no descalabro da digitalização, em vez de saudar a aproximação que isso suscitou nas famílias portuguesas, com pais e filhos juntos a reivindicarem à porta das escolas, mostrando uma união com progenitores que é pouco habitual quando se trata de adolescentes na idade do armário. Acabou por ser uma medida de apoio à família, mas alguém teve a coragem para o referir? Claro que não. Cobardolas.

Passou-se o mesmo no caso do Ministro da Administração Interna. Preferiram discutir se se tratava de uma piscina ou de um tanque e ninguém destacou que é um corpo de água a que se pode recorrer no combate aos incêndios. Um mini-drone equipado com um tupperware consegue ir buscar quase 40 cl de cada vez. Graças ao Ministro Luís Neves, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina está mais seguro. Mas não esperem lê-lo na facciosa imprensa de referência.

A ligação entre o Ministro e o construtor é outro tema em que o que é mais importante acaba escondido em notas de rodapé. Debateu-se a natureza da relação, levantaram-se suspeitas, exacerbadas por entretanto se ter descoberto que o empreiteiro também trabalhou em casa do director financeiro da Judiciária. Mas em momento algum se quis olhar para esta facilitação de obras como parte das iniciativas do Governo para resolver o grave problema da habitação.

Neste discurso do Pontal, só discordo de Montenegro quando resolve comparar-se a outro Primeiro-Ministro português. Não é que Luís Montenegro não faça lembrar um antigo Chefe de Governo. Faz. Só que não é Aníbal Cavaco Silva. Com estas lamúrias sobre a “maledicência” que sofre o seu Governo, Montenegro lembra José Sócrates, que adorava a palavra “maledicência” e também se considerava perseguido pela comunicação social. A diferença é que, em vez de censura, chamava-lhe bota-abaixismo. Ao queixar-se da censura moderna, Montenegro parece mesmo um Sócrates moderno.