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(A) :: Crónica estival ou uma definição política

Crónica estival ou uma definição política

Chegados a meio de Agosto, sentei-me ao computador e achei que, ao fim de cinco anos de crónicas, devia ao leitor uma apresentação e um enquadramento político. Para a semana volto à maçadoria habitual

Nuno Gonçalo Poças
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Gosto de comida: gosto de cozinhar, de comer e de falar de comida. Não gosto, contudo, de ter de lavar a louça, portanto gosto bastante de máquinas de lavar, embora não goste de lá colocar a louça e de lá tirar a louça. Gosto de acordar cedo e de me deitar tarde e de fazer sestas rápidas ao fim da tarde. Gosto de jornais mas gosto cada vez menos de os ler. Gosto de livros, de gastar dinheiro em livros, de arrumar estantes e de ficar longos minutos a olhar para estantes de livros. Gosto de roupa engomada. Não gosto de ir para o banho, nem gosto de sair do banho. Gosto de estar ocupado e de não ter nada que fazer. Gosto de jantares em casa. Gosto de grupos pequenos de pessoas. Gosto mais de escrever do que de falar porque sinto sempre que nunca consigo dizer tudo aquilo em que estou a pensar, que é o que me acontece quando escrevo, mas quando falo ainda é pior. Gosto de fazer perguntas. Gosto de gente que sabe mais do que eu. Gosto de ouvir as conversas dos outros. Gostava que todos os meus passos fossem acompanhados por uma banda sonora escolhida por mim. Gosto de fatos. Não gosto de usar fatos. Gosto de roupa nova. Não gosto de experimentar roupa. Não gosto de lojas de roupa. Não gosto de centros comerciais. Não gosto de ar condicionado no Inverno, mas gosto muito dele no Verão. Não gosto de multidões. Gosto de ver futebol no estádio. Não gosto de programas de futebol. Gosto de decorar equipas iniciais de futebol, Neno, Veloso, Mozer, William, Schwarz, Paulo Sousa, Vítor Paneira, Rui Costa, Paulo Futre, João Pinto e Rui Águas. Gosto de fazer palavras com as letras das matrículas dos carros. Gosto de whisky, de gin, de vodka, de aguardente, de medronho, de vinho, embora beba cada vez menos. Gosto de Coca-Cola Zero com gelo e limão. Gosto de trincar gelo. Gosto de comer rodelas de limão. Gosto de disparar e de pescar e de comer o que consigo matar. Gosto do campo. Gosto de praias sem gente ao fim do dia. Gosto de voar. Não gosto de atrasos. Gosto de fumar. Gosto de estatística. Gosto de fotografias antigas. Gosto de música, tanto faz. Não gosto de não gostar de chuva. Gosto de dias frios. Não suporto conversa de circunstância. Não gosto que me digam o que fazer. Gosto que me digam o que fariam no meu lugar e se calem para sempre. Gosto de furar papel. Gosto de agrafar. Gosto de desconstruir clipes. Gosto de ver triturar papel. Gosto de ir ao ginásio. Gosto de ir a cemitérios. Gosto de estar calado. Gosto de saber o que quero. Gosto que não reparem em mim e não gosto quando não reparam em mim. Ou quando me confundem o nome. Gosto de acumular tralha. Não gosto de filas. Não gosto de senhas de atendimento. Gosto de rotinas, mas não gosto que os dias sejam todos iguais. Gosto de ouvir línguas diferentes da minha. Gosto de gente simples. Gosto de gente sofisticada. Não gosto de gente simples que acha que é sofisticada. Não gosto de gente sofisticada que acha que é simples. Não gosto de ter rinite e sinusite. Não gosto de ir ao médico. Não gosto de ir ao dentista. Gosto de pasta de dentes. Não gosto de lavar os dentes, mas gosto de ter os dentes lavados. Não gosto de restaurantes barulhentos. Neste momento, gosto mais de Rodrigo Leão que de qualquer outro músico, mas amanhã isto pode ser mentira. Não gosto quando alguém diz que o grande defeito que tem é a teimosia. Gosto de saber que o amor existe e de o ter na minha vida. Não gostei de mudar fraldas. Gosto de saber que as minhas filhas nunca me vão agradecer porque lhes mudei as fraldas. Gosto de chegar a casa cedo. Gosto de estudar. Não gosto de estudar porque alguém me obriga a estudar ou porque isso pode ser importante para ter um resultado que não seja o da mera satisfação que o conhecimento me dá. Gosto de saber que sei muito pouco. Não gostava que um dia viesse a achar que já sabia tudo, como acontece quando somos novos. Gostava de chegar a velho. Gostava de ter netos. Gostava de celebrar bodas de ouro. Gostava que as minhas filhas se casassem com pessoas decentes. Gosto quando me vêm as lágrimas aos olhos. Não gosto de controlar as lágrimas, que é o que faço quase sempre. Gosto de ter cabelos brancos. Gosto de ir cortar o cabelo, mas não gosto de ter o cabelo acabado de cortar. Não gosto que se viva ao ritmo do funk. Gosto de ter aprendido mais com os livros, a música, o teatro e o cinema do que em cinco anos de licenciatura e dezassete anos de labor em redor de códigos e legislação avulsa. Gosto mais de política do que devia. Não gosto de ficar sempre com a sensação de que não sou suficientemente claro quando falo, nem de achar sempre que nunca disse tudo o que queria. Gosto de abrir portas e janelas. Gosto de estar sempre a abrir e a fechar a tampa das canetas. Não gosto de caviar. Gosto de chupar ossos, porque a carne que está perto do osso é a melhor. Gosto de palavrões. Gosto de palavras que, não sendo palavrões, também não são socialmente aceites. Gosto que o homem do café saiba o meu nome e que saiba o que eu quero antes de pedir. Gosto de coerência e gosto de ser incoerente. Gosto que as pessoas digam o que lhes apetece. Gosto que as pessoas meçam o que dizem para não magoarem os outros, mas gosto mais ainda quando as pessoas não se deixam magoar pelo que os outros dizem. Gosto bastante de não querer saber da opinião dos outros, a menos que sejam pessoas importantes para mim. Gosto do Eça e gosto do Camilo, e não me parece que isso seja incoerente. Gosto do Rentes, do Maugham, do Pavese, do Borges, do Nelson Rodrigues, do Rubem Fonseca e das biografias do Ruy Castro – estou de volta da do Garrincha. Gosto muito do velho Millôr Fernandes. Não gosto que se escrevam poucas biografias. Gosto muito de diários. Não gosto que se escrevam poucos diários. Gosto que não me aborreçam e que não me chateiem. Não gosto de incomodar. Não gosto de me apresentar a pessoas que não conheço. Não gosto de saber que sou só mais um no mundo embora saiba que sou só mais um no mundo. Não gosto do trânsito. Não gosto de semáforos. Gosto de atravessar as ruas fora das passadeiras. Gosto de autoridade, não de tutela. Gosto de saber comer com pauzinhos porque me deu trabalho a aprender. Gosto de saber de cor a primeira frase d’Os Maias. Gosto de saber que a quinta palavra d’Os Maias é “Maias”. Gosto de orelha de porco, de joelho de porco, de pernil de porco e de praticamente todas as partes do porco. Gosto de cabrito assado. Não gosto de caldeirada. Não gosto de lampreia. Gosto de frases curtas. Não gosto de textos que são uma soma de frases curtas, como este. Não gosto que as senhoras já não usem leques. Gosto de barquinhos de papel. Gosto do cheiro a tabaco misturado com perfume. Gosto que o fumo saia ligeiramente da boca e que volte a entrar para depois sair de vez. Gosto de deitar o fumo pelo nariz. Gosto de ter as mãos nos bolsos quando não posso fumar porque me protejo dos outros. Gosto que o meu cabelo pareça penteado sem que esteja realmente penteado, e que pareça despenteado sem que esteja realmente despenteado. Gosto de dizer “sertã” mesmo que diga sempre “frigideira”. Não gosto de dizer “cruzeta” em vez de “cabide”. Gosto do nascer e do pôr do sol. Não gosto que haja pessoas que aplaudem o pôr do sol. Gosto de me despedir com facilidade. Não gosto de me esquecer de coisas importantes. Gosto de coisas velhas. Gosto de celofane. Já gostei mais de esferovite e daquele plástico com bolhas do que gosto hoje. Não gosto de ter usado botas ortopédicas, calças de bombazina e de ter usado joelheiras nas calças. Não gosto de jardineiras. Gosto de jardineira de vitela, mas nunca peço nos restaurantes. Gosto de bifes, mas passaria bem sem comer bifes. Gosto de telefonias antigas. Gosto de rádio. Não gosto que as pessoas na rádio estejam sempre bem dispostas. Gosto de entretenimento. Não gosto que tudo se tenha tornado entretenimento. Não gosto de rezar o terço, mas gosto de rezar. Gosto mais de cães e gosto menos de gatos. Gosto de cavalos. Gosto do Johnny Cash e do Leonard Cohen. Gosto de fotografias do Kennedy e do Adolfo Suárez. Gosto mais do Suárez que do Kennedy. Gosto do Magritte. Gosto do Corto Maltese, do Tintim e da Mafalda. Gosto de arcas. Gosto de globos. Gosto do Marlon Brando. Gosto que as pessoas sorriam a desconhecidos. Gosto de ver putos a jogar à bola. Não gosto de crianças mal-educadas. Gosto de canetas de tinta permanente. Não gosto de só ter talento para coisas que não servem para nada. Gostava que as pessoas soubessem o que querem, e do que gostam, e do que não gostam.

Chegados a meio de Agosto, sentei-me ao computador e achei que, ao fim de cinco anos de crónicas, devia ao leitor uma apresentação e um enquadramento políticos. Para a semana voltarei à maçadoria habitual.