Primavera de 1979. Em plena ditadura militar, os trabalhadores do setor metalúrgico impulsionam, a partir da região de São Paulo, a primeira greve geral no Brasil. Cerca de 60 mil grevistas reúnem-se no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, onde um jovem sindicalista, de barba e cabelo preto e microfone na mão, comanda a multidão. Aos 33 anos, Luiz Inácio Lula da Silva não sabia ainda que esse seria apenas o primeiro de muitos passos no mundo da política.
Quase 50 anos depois das greves da década de 1970, o agora Presidente brasileiro regressou este domingo ao estádio paulista para lançar oficialmente a sua sétima campanha ao Planalto. Com 80 anos, Lula procura alcançar o seu quarto mandato como chefe de Estado. Para lá chegar, definiu como prioridades a saúde, a soberania nacional e a segurança — e, a juntar todos os temas, o combate à extrema-direita.
Ainda que as sondagens coloquem Lula à frente das intenções de voto para a eleição presidencial de outubro, a segunda volta parece quase certa. E, aí, o seu adversário direto deverá vir precisamente desse espectro político. Depois de, em 2022, ter reconquistado a presidência com uma margem mínima sobre o incumbente Jair Bolsonaro, Lula enfrenta agora o senador e filho Flávio Bolsonaro, escolhido como sucessor pelo ex-Presidente depois de ter sido condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

A história e a tradição política também pesaram na apresentação da campanha de Flávio Bolsonaro, que escolheu lançar-se na corrida no mesmo lugar onde o pai e os familiares que se candidataram a cargos políticos se apresentaram aos eleitores: na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Recusando comparar-se a Jair Bolsonaro, o candidato do Partido Liberal (PL) invocou, contudo, o nome do antigo chefe de Estado que tem sido, aliás, figura omnipresente na pré-campanha, com recurso a Inteligência Artificial (IA).
A dois meses das eleições, a corrida desenha-se renhida. Andre Pagliarini, historiador brasileiro especialista sobre a democracia na América Latina e autor de um livro sobre Lula, define as presidenciais brasileiras como “o concurso eleitoral mais importante do ano no mundo”. Para além de importante, a eleição tem uma particularidade, apontada por vários especialistas ouvidos pela imprensa brasileira: os legados dos dois candidatos podem pesar tanto ou mais que as promessas de campanha nos resultados de outubro.
Lula: contra a direita, a aposta na saúde, na educação e na soberania brasileira
A história de vida de Lula como líder sindical foi abordada pelo Presidente no seu discurso de domingo. Foi também o mote para apelar à participação cívica na política. “Depois da greve de 1978, eu dizia que não gostava de política e odiava quem gostava. Pensava que era esperto. No fundo era um imbecil, porque sabe qual é o defeito de quem não gosta de política? É que o país é governado por quem gosta. São eles que são eleitos“, afirmou.
Os apelos aos eleitores foram feitos de mãos dadas com ataques aos opositores e começaram na área da saúde, ao lembrar a gestão do governo de Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. “Uma direita que é responsável pela morte de 400 mil pessoas de Covid por irresponsabilidade com a vacina. Que futuro essas pessoas querem para o povo brasileiro?”, atirou.
O tema da saúde também serviu para Lula cimentar a sua figura de Presidente populista. Sempre de chapéu na cabeça, explicou que se tratava de uma recomendação médica, devido a um cancro de pele — endereçando diretamente, como destaca a imprensa brasileira, as preocupações com a possibilidade de o Brasil vir a eleger um Presidente com 80 anos para um mandato de quatro anos. Contudo, Lula também fez questão de mostrar que, pelos seus apoiantes, estava disposto a tirar o chapéu — literal e metaforicamente.
Retórica populista à parte, o discurso de Lula da Silva assentou em dois outros grandes pilares: a segurança e a exploração de recursos. No que toca ao combate à criminalidade, defendeu a aposta na educação e no combate ao crime organizado como solução. “Investir na educação é muito mais barato do que investir na cadeia para prender essas pessoas”, começou. “É fácil matar um bandido numa favela. Agora, o cara que manda está morando no condomínio e nós precisamos de acabar com eles”, continuou. Para dar resposta ao problema, Lula prometeu ainda a criação de um novo Ministério da Segurança Pública.
A defesa da exploração de recursos, em particular de terras raras — o Brasil tem as segundas maiores jazidas mundiais, só atrás da China —, serviu por sua vez como forma de olhar para a posição do Brasil no palco internacional e reforçar a defesa do multilateralismo que tem marcado a agenda internacional de Lula. “A gente não tem opção pela China nem opção pelos Estados Unidos”, declarou. Por oposição, o Presidente insistiu na aposta na soberania brasileira. “A gente não quer exportar o mineral bruto para depois comprar as coisas prontas deles. Nós queremos extrair aqui, transformar aqui, industrializar aqui, produzir aqui, gerar emprego aqui”, sublinhou.

Bolsonaro (filho): o legado do pai “honesto e incorruptível” e o combate às “organizações terroristas”
Flávio Bolsonaro aparece no topo de um palco móvel de colete à prova de bala e uma t-shirt amarela e verde com as palavras “Meu partido é o Brasil”. Aos 45 anos, as semelhanças físicas com o pai são inegáveis e o senador não foge delas. “Sei que pareço com ele. Mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé“, brinca, logo que toma a palavra. Antes de Flávio, o microfone foi ocupado por muitas outras vozes de membros do PL, todas trajadas de verde e amarelo. As cores repetem-se na maré de apoiantes que ocupa a praia. E nos lábios de todos está o mesmo nome.
“Imaginem que o Presidente Bolsonaro esteja nos vendo nesse momento. Então, vamos homenageá-lo, um homem de bem, honesto, incorruptível, que deu o seu melhor para o Brasil e que foi injustiçado, cantando assim: ‘Volta Bolsonaro!'”, apelou. “Pai, essa é para você“, rematou, perante o coro da multidão. Apesar das constantes referências ao pai e ex-Presidente, o processo de sucessão não foi totalmente pacífico e incluiu o afastamento de setores do PL e até um confronto público com a antiga primeira-dama. Michelle Bolsonaro já afirmou que irá marcar presença em alguns eventos de campanha do enteado, mas não foi um dos rostos presentes em Copacabana no domingo.
O apelido Bolsonaro também pode colocar outro desafio a Flávio nas eleições, depois da condenação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal há pouco menos de um ano, devido à sua participação na invasão dos Três Poderes a 8 de janeiro de 2023. “Essa memória ainda choca com a vida democrática, as instituições democráticas e motiva rejeição entre os eleitores mais moderados”, assinalou o cientista político brasileiro Leandro Gabiati, ao Wall Street Journal.
No sentido inverso, Flávio Bolsonaro pode beneficiar de um contexto muito favorável no continente americano. No início do ano, Colômbia, Chile e Brasil partilhavam governos de esquerda, uma frente de resistência à onda de direita que tomou o continente durante os últimos anos, à boleia de Donald Trump a norte e de Javier Milei na região. Nos últimos oito meses, eleições em Bogotá e Santiago viraram os dois países à direita, deixando o Brasil como a última potência regional com um Governo de esquerda. Flávio Bolsonaro está ciente desta conjuntura internacional favorável e utiliza-a para impulsionar a sua campanha.
“Eu sou o único [candidato] que pode sentar com os Estados Unidos, com a China, com Israel, com o Oriente Médio, com a Índia e com a Argentina e fazer os melhores e maiores acordos comerciais pelo bem da nossa nação”, declarou à multidão reunida no Rio. Em linha com os governos anteriormente mencionados, a grande bandeira do candidato brasileiro é a segurança. Não através do investimento na educação, como propõe Lula, mas através de uma abordagem bem mais direta: a declaração de grupos criminosos como organizações terroristas.
“Nós perdemos a nossa soberania. Hoje não temos mais soberania sobre o nosso celular, nosso carro, a nossa bolsa”, argumentou. “Eu vou resgatar a soberania do Brasil, porque eu vou tratar PCC, Comando Vermelho e milícia como organizações terroristas. E ladrão de telemóvel vai ficar oito anos preso, no mínimo”, prometeu.

Uma “eleição decidida nas margens”: a luta pelos indecisos e os moderados
A pouco mais de dois meses da primeira volta das eleições, que se realiza no dia 25 de outubro, as sondagens apontam para uma quase certa segunda volta entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Na segunda volta, a vitória é dada a Lula, com uma margem de três pontos percentuais: 43% para os 40% de Bolsonaro segundo a sondagem da Quaest para a Globo divulgada na sexta-feira e 47% para os 44% de Bolsonaro na sondagem da BTG/Nexus publicada esta segunda-feira.
A estreita diferença entre os dois candidatos torna a corrida renhida e atira para os eleitores indecisos e mais ao centro a decisão final, apontam os especialistas. “Os dois candidatos têm bases de apoio consolidadas. A eleição será decidida nas margens: no eleitor que rejeita a polarização, decide tarde e vota menos por entusiasmo do que para evitar o que considera pior”, caracteriza o cientista político e CEO da consultora política Arko Advice, Murillo de Aragão na CNN Brasil. “Numa diferença de três pontos, alguns milhões de votos decidem tudo”, escreve.
Lula pode ir à frente na luta por esses votos, mas o Presidente também enfrenta os seus próprios desafios. Aquele que é apontado de forma mais unânime pelos analistas é a queda de popularidade do Partido dos Trabalhadores (PT) e do seu Governo. A sondagem da BTG/Nexus desta segunda-feira revela que 42% dos inquiridos caracterizam a governação atual como negativa, contra apenas 34% que têm uma avaliação positiva. Excluído o 1% que “não sabe/não responde”, sobram 23% — é esta, portanto, a percentagem de eleitores que vai decidir a eleição.
A má notícia para Lula é que a sua taxa de popularidade é negativa. A boa notícia (ou menos má) é que não está em queda: a percentagem de eleitores que avaliam a governação de Lula de forma negativa tem-se mantido estável perto dos 40%. Além disso, o facto de ser incumbente e o seu longo currículo no cargo facilitam a campanha: Lula tem-se focado nos objetivos alcançados pelo seu Executivo e não tanto em promessas para os próximos quatro anos — ainda que estas existam.
Os ataques de Flávio Bolsonaro a Lula ao longo dos próximos dois meses são a maior ameaça a esta continuidade que o Presidente procura projetar. Se estes forem bem-sucedidos e conseguir capturar os eleitores decisivos, o candidato da direita pode transformar a estabilidade petista em estagnação. “A derrota não viria de um colapso do lulismo, mas da lenta consolidação do antilulismo. Às vezes, não é preciso perder votos para perder uma eleição”, simplifica Murillo de Aragão na coluna de análise na CNN. “Basta parar de ganhá-los”.