If it bleeds, it leads. Bad news, good news. O homem que mordeu o cão e não o cão que mordeu o homem. Luís Montenegro nunca teve que ler Nelson Traquina nem estudar a teoria do agenda-setting. E ainda bem. A função de um político não é conhecer as aborrecidas teorias de comunicação, ser exímio a reconhecer os 5 dáblios, nem validar ou concordar com escolhas editoriais. O primeiro-ministro tem, no entanto, de perceber (e percebe) de comunicação política porque só assim é que chega ao seu público-alvo, os eleitores.
Na rentrée política do PSD, na Festa do Pontal, Luís Montenegro queixou-se do que chamou de uma “espécie de censura moderna” em que “as pessoas só sabem, só conhecem e só debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos muitas vezes de pequenos incidentes, os assuntos dos pequenos episódios.” No meio dessas malfadadas escolhas “aquilo que é mais importante” aparece “muitas vezes escondido em notas de rodapé ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular a informação e comentar a informação.”
O primeiro-ministro pediu mesmo um “Portugal com menos maledicência” em que se possa dizer não só o que “corre menos bem”, mas também “realçar aquilo que corre muito bem”. Montenegro acrescentaria ainda que “fala-se pouco em Portugal”, mas “muito de fora de Portugal do que se está a fazer”. Referia-se, certamente, à célebre distinção da revista The Economist, à menção honrosa do Financial Times e, mais recentemente, aos elogios do francês Le Figaro à economia portuguesa.
O apelo de Luís Montenegro a mais boas notícias acaba por ser naïf. Vejamos alguns exemplos. Se uma pessoa estiver duas ou três horas à espera numa urgência, não é notícia. Se estiver onze horas só para primeira observação, como aconteceu, por exemplo, no Barreiro, dois dias antes do Pontal, já é. Se um bebé nascer numa maternidade, a menos que seja o primeiro do ano ou qualquer outro episódio extraordinário, não é notícia. Se nascer numa ambulância, por mais normal que se tenha tornado, já tem interesse noticioso.
Se a justiça funcionar a horas, não é notícia. Se um antigo primeiro-ministro estiver há 10 anos a ser investigado/julgado sem nenhum desfecho (e, já agora, com a justiça a ser rápida a condenar o Estado a pagar-lhe 15 mil euros), já é. Se os políticos entregarem as declarações de rendimentos todas direitinhas, como está na lei, não é notícia. Se estiverem em contínuas omissões, esquecimentos estratégicos e dúvidas sobre a lei, já é. Se um ministro contratar um construtor nas páginas amarelas ou um amigo para fazer uma obra sua não é notícia, se esse empreiteiro tiver sido contratado pela entidade pública que geria, já é. Um primeiro-ministro tirar férias não é (nem deve ser) notícia, anunciar que não tira, já é. Se os exames nacionais forem entregues a horas, não é notícia. Se houver centenas de alunos com a vida suspensa por erros a que são alheios, já é.
As notícias também podem, naturalmente, ser boas. Se Portugal crescer 5% ao ano, é notícia. Se for o país a 27 (ou da OCDE) que cobra menos impostos ou o que mais reduz a dívida também tem destaque noticioso. O que define igualmente uma notícia é algo que tem interesse público (ou, no mínimo, do público) e é novidade. Ao escolher criticar, uma vez mais, a comunicação social — não só as escolhas jornalísticas, mas também os temas de painéis de comentários — o primeiro-ministro fez com que as peças jornalísticas (e as análises e comentários) tivessem de dividir o espaço disponível com os anúncios que alegadamente queria priorizar e as políticas que queria destacar.
O anúncio — apesar de ter sido revelado um pouco antes, nessa tarde — de que o Estado ia adquirir uma percentagem da REN ou que a TAP ia ser vendida muito acima do valor anunciado e render muito em dividendos, acabou por ter de partilhar espaço de televisão, de rádio e da imprensa com a tese da “censura moderna”. Das duas, uma: ou Montenegro se esqueceu de que o jogo mediático que criticava tende a secundarizar o que estava a querer destacar; ou utilizou essas regras para dar destaque a essa crítica que tem sido constante desde que chefia o Governo e que teve como auge o célebre episódio do “jornalismo ofegante“.
As queixas de Montenegro sobre as escolhas da comunicação social não são uma novidade na política portuguesa. São até uma imagem de marca de quem lidera o Governo da República. António Costa também lamentava o pouco destaque que era dado às políticas do Governo por oposição às polémicas, que desvalorizava chamando de “casos e casinhos”. O socialista também lamentava os tais casinhos e teve os seus conflitos com a comunicação social, apesar de alguns terem acontecido ainda antes de ser chefe de Governo (como a reação colérica com que reagiu à jornalista que apareceu “inopinadamente atrás de um carro” ou a SMS que enviou a um editor do Expresso). Mas era mais comum dar mostras de mau feitio ocasionais ou fugir a questões com improvisos poéticos: “Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. Olhe para o céu, está tão bonito, adeus”. A pergunta era, imagine-se, sobre a manutenção de João Galamba no Governo.
Passos Coelho chegou a chamar “preguiçoso” a jornalistas e, acima de tudo, a comentadores, acrescentando que chegavam a ser “patéticos” ou uma espécie de “Maria vai com as outras”. O mesmo aconteceu com José Sócrates, que até tentou interferir na comunicação social para lhe ser mais simpática e fazia pressões, direta ou indiretamente, nas direções de órgãos de comunicação. Com níveis de agressividade (e gravidade, claro) diferentes, os primeiros-ministros gostam de criticar publicamente a comunicação social e consideram-se injustiçados. Já na oposição, adoram os tais “casinhos” que desgastam Governos.
Por muito que o primeiro-ministro o deseje, nem três Scolaris conseguiriam puxar pelo patriotismo (muito menos dos jornalistas e comentadores) que levasse os órgãos de comunicação social a tornarem-se em versões multifacetadas do Povo Livre. Aí, no jornal oficial do PSD, não há problema em as manchetes serem galvanizadoras do trabalho da AD: “Portugal está na rota do crescimento e da credibilidade“. Ou, porque não, algo do género: “Governo espetacular tem resultados incríveis”.
Agora que os primeiros dez parágrafos deste texto foram dedicados àquilo que Montenegro optou por (sem necessitar) incluir no discurso, em vez do que verdadeiramente importa, podemos falar então nas medidas anunciadas na rentrée. Ou RENtrée, uma vez que foi a maior novidade daquele dia. E é simples: a compra da REN faz todo o sentido. Desde logo, Portugal era o único país dos 27 na União Europeia que não tinha qualquer participação pública no capital do operador da rede elétrica nacional. O apagão mostrou que o Estado tem de ter mais força para exercer pressão sobre quem gere a rede elétrica. Além disso, o primeiro-ministro tem oportunidade de ser coerente. Em entrevista à CNN a 9 de outubro de 2023 — antes de saber que iam existir eleições e muito menos que haveria um apagão — o então líder da oposição foi questionado sobre se admitia fazer alguma renacionalização e acabou por dizer que a reentrada no capital da REN merecia “uma reflexão”, acrescentando mesmo ser do “interesse estratégico de Portugal ter a rede elétrica na posse do Estado”.
Na sequência do apagão, na primavera de 2025, Montenegro admitia novamente renacionalizar, apesar de dizer que não o ia “fazer a quente”. Agora, decidiu comprar uma posição minoritária — que é um ato mais recuado (e mais barato) do que uma renacionalização — mas que vai dar ao Estado mais voz dentro da empresa estratégica. Além disso, o fundo soberano anunciado começa a ganhar forma. Apesar da decisão não ter uma motivação financeira, o primeiro-ministro garante ainda que pode ser um bom negócio, uma vez que a REN tem distribuído 5% de dividendos e o Estado paga juros na ordem dos 3%. É verdade que poderá ter de levar com Pedro Passos Coelho numa conferência em breve a criticar esta opção, mas isso é o novo normal.
Para acalmar o espaço liberal (na IL e dentro do PSD), e dar provas de que não se tornou num perigoso keynesiano, ao mesmo tempo Montenegro fala sobre as conquistas da reprivatização da TAP. E, como um bom capitalista aplaudiria, com maior capital inicial pela venda do que estava previsto, integrando a empresa num grande grupo e mantendo uma posição no capital com um princípio não só estratégico (de defesa do hub de Lisboa e da economia), mas também de lucro. A ideia é recuperar o dinheiro investido pelos contribuintes (em particular os célebres 3,2 mil milhões injetados no tempo de Pedro Nuno Santos) através dos dividendos que o Governo acredita que a empresa irá distribuir nos próximos anos.
Os dois anúncios (REN e TAP), a juntar aos 150 mil empregos criados (curiosamente a meta que estava nos cartazes de Sócrates em 2005 e que nunca conseguiu executar), à subida do salário médio para 1835 euros, às 28.300 casas atribuídas ou aos 3 mil milhões já investidos na recuperação da zona centro teriam tido mais destaque se o próprio Luís Montenegro tivesse resistido à tentação de falar numa inexistente censura moderna, integrada numa tese que, em coerência, o próprio concordará que não é o mais importante para o País. É o que se poderia chamar de autocensura moderna.