Para compreendermos a Odisseia temos de estar atentos ao truque do Canto IX. É a partir daqui que Ulisses começa a contar a sua história a pedido do rei Alcínoo:
“Que coisa te contarei primeiro? Que coisa no fim?
Pois muitas foram as desgraças que me deram os Olímpios.”
A série de aventuras que se segue não é contada, então, por um narrador que olha objetivamente para os acontecimentos. As aventuras de Ulisses são contadas pelo próprio Ulisses – o mesmo é dizer, pelo homem menos confiável da Antiguidade, aquele que é conhecido como “o dos mil ardis” e que na tradução de Frederico Lourenço aparece no primeiro verso como “homem versátil”, mas que noutras traduções é descrito como “complexo”.
Trata-se de um truque inteligente: se contada por uma terceira pessoa, a história adquiriria um tom de veracidade; contada por Ulisses, torna-se complexa. E Ulisses conta-a à frente de toda a corte com um objetivo específico: que os feácios o ajudem a chegar a Ítaca, apesar da ira de Poseidon. Ulisses é, assim, o herói complementar de Aquiles: não é tão rápido, nem tão forte, mas é o mais inteligente e inteligente o suficiente para contar uma história não só capaz de entreter o seu público, como ainda de o manipular emocionalmente para concretizar o seu objetivo. Não esteve sempre o mundo na mão destes homens?
Notemos agora como a adaptação de Christopher Nolan transforma uma obra antiga num filme dos nossos tempos: Nolan prescinde dos hábeis feácios, do rei Alcínoo e da querida Nausícaa e põe Ulisses a recordar a sua história perante uma única pessoa. Estão quase sempre sentados, a paisagem é tranquila, a interlocutora é calma e bonita – o truque é óbvio: Ulisses está a fazer terapia. O objetivo aqui já não é entreter e seduzir, mas recordar o que aconteceu apesar do trauma. Como alguns têm feito notar, um dos grandes heróis da Antiguidade foi substituído por um soldado com transtorno pós-traumático. Bem-vindos ao século XXI!
Curiosamente, o facto de se tratar de terapia não desfaz o elemento inventivo. Afinal, quantos estudos não revelaram já que um dos danos da terapia é a criação de memórias falsas? (Pensemos no efeito “no contact” que se tem propagado no mundo anglo-americano e a que voltaremos em breve.) Nolan substituiu o homem que lutou, matou e mentiu – e seduziu e foi seduzido – por um homem sofrido e traumatizado, dobrado pelo peso dos acontecimentos e sem qualquer complexidade.
Este é um traço dos nossos tempos: este esforço terapêutico permanente de recapitular tudo o que fizemos ao longo da vida, descrevendo ações, encontrando motivações e, quase sempre, imputando a terceiros – ao sistema, ao mundo, à natureza, aos outros – a responsabilidade pelo que nos acontece. E é exatamente isso que encontramos também no último livro de Édouard Louis – Mudar: método.
Deixemos de lado a questão divertida que resulta de tantas pessoas críticas da economia de mercado se disporem tão facilmente a tornar-se produtos de mercado para triunfarem e enriquecerem. Notemos, antes, de que forma o método de Édouard Louis evoluiu desde o seu primeiro livro, Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule.
Édouard Louis começou por fazer aquilo que Didier Eribon, o seu mentor, fez em Regresso a Reims: um registo das suas memórias e do seu mundo de infância para refletir sobre como as condições de pobreza determinam ideias e comportamentos. E manteve o método em Quem matou o meu pai e O colapso.
No entanto, e como seria expectável, o tema esgotou-se e Édouard Louis teve de mudar a abordagem. No seu último livro, abandona a análise sociológica e adota desta vez o exercício terapêutico, vasculhando memórias, experiências, intenções e comportamentos pessoais. Ficamos assim a saber:
“para mim o que estava em jogo era a mudança e a libertação, não os livros ou a vocação literária. Não penso que a minha obsessão principal tenha sido os livros. Se de repente sonhava tornar-me escritor, não era por sonhar escrever, mas porque sonhava separar-me definitivamente do passado e por ter sido isso a apresentar-se nesse momento através do encontro com Didier, só isso. É importante não ver naquilo que escrevo a história do nascimento de um escritor mas a história do nascimento de uma liberdade, da separação, a todo o custo, de um passado detestado.”
Escrever livros foi sempre o meio para um fim, o que nos dá a garantia de que, enquanto houver público e vendas, haverá escritor. A questão é a de saber se o autor francês se tornará alguma vez capaz de abraçar a total complexidade da vida. A dado momento, parece ter um assomo dessa complexidade quando supera a lógica infantil de ver o mundo como uma luta dos maus (os privilegiados) contra os bons (os desfavorecidos) e reconhece o seu próprio privilégio: “O meu privilégio era o de ter conhecido a vida sem privilégio.” (Ninguém o sabe melhor do que Cristiano Ronaldo.) Mas esse assomo é sol de pouca dura.
E acabamos por ficar, no final, com o grande problema dos livros confessionais: é que quanto mais mergulhamos nas nossas memórias e quanto mais exploramos intenções e comportamentos, mais encontramos o homem hobbesiano. O ser frágil e competitivo, ansioso por lucro e reconhecimento. A civilização cobre com um verniz frágil esta natureza humana, mas a terapia afasta o verniz e deixa-nos o homem que está disposto a vencer a todo o custo, enquanto vai abandonando todos aqueles que já não lhe são proveitosos: os pais, o irmão, a amiga, os amantes. Em Édouard Louis não há uma Ítaca para onde regressar: sobra o homem despido e só.