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Com "primeiro-ministro desligado da realidade", Carneiro persegue maioria de Guterres e deixa aviso sobre OE

No Algarve, há 31 anos, Guterres deu o pontapé de saída para uma maioria socialista. Agora, José Luís Carneiro traz momento à memória e faz contas a dez anos. Montenegro foi alvo a abater.

Inês André Figueiredo
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Diogo Ventura
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Do Algarve para a maioria, seguindo os passos de António Guterres. Foi desta forma que José Luís Carneiro se apresentou em Olhão, com um tiro ao alvo a Luís Montenegro e com as promessas de que o PS está pronto para ser a alternativa a um Governo sem “humildade democrática” e que tem “bloqueado as propostas do PS na Assembleia da República”. Entre críticas e avisos ao primeiro-ministro, o secretário-geral socialista deixou claro que o partido quer “dar um contributo para a estabilidade” para o Orçamento do Estado, mas sublinha que esta é uma responsabilidade que tem de partir do Governo.

“Os portugueses já perceberam que não podem confiar neste Governo.” O mote para o próximo ano legislativo está lançado há vários meses: descredibilizar o Governo para assegurar que a “alternativa de confiança” está do lado dos socialistas. Desta vez, em Olhão, garantiu que os portugueses “podem confiar no secretário-geral do PS e no PS” para a caminhada que o partido tem pela frente. E aproveitou um momento de boa memória para o PS para dar força a essa ambição: “Há 31 anos tivemos aqui aquele que foi o pontapé de saída para uma nova maioria liderada por António Guterres. E hoje vamos dar um primeiro passo para afirmar uma alternativa de força, de confiança e de esperança para o futuro de Portugal.”

Numa altura em que Luís Montenegro pretende repetir aquilo que Aníbal Cavaco Silva fez entre 1985 e 1995, José Luís Carneiro focou-se numa “alternativa política e económica para os próximos 10 anos”, que está em andamento, mas que em outubro terá uma nova fase: o Movimento Contamos Todos. Por enquanto, a festa fez-se em Olhão, com uma plateia bem composta e muita música popular. Tanta que o líder socialista deu vários pezinhos de dança.

“O rei vai mesmo nu”

A pontaria esteve apontada a Luís Montenegro e essencialmente ao discurso na Festa do Pontal, que mereceu inúmeras críticas, desde as referências a quem “faz o escrutínio do Governo” até à “insensibilidade” de quem “em 47 minutos de discurso não teve cinco para pedir desculpa” aos alunos, famílias e escolas que foram visados na crise dos exames nacionais. Na verdade, José Luís Carneiro usou a “insensibilidade” como crítica em várias ocasiões.

“Alguém tem de dizer ao primeiro-ministro que o rei vai mesmo nu. O Governo e o primeiro-ministro não deram até hoje prova de conseguir reagir, responder com capacidade, com sensibilidade e com competência às crises que têm assolado o país, que tem colocado em causa a segurança das pessoas e que têm posto em causa a previsibilidade da capacidade de resposta do Estado”, apontou o líder socialista, dando como exemplos o apagão (“todos se recordam do apagão e do improviso e impreparação”), os incêndios de 2025 (“estavam na Festa do Pontal, os incêndios ameaçavam a vida das pessoas, o seu património, e não tiveram a sensibilidade para adiar a festa”) e as tempestades (“Governo reagiu tarde e reagiu mal”).

Dedicado a enumerar, um por um, os erros do Governo, destacou mais do que uma vez a questão dos exames nacionais. Acusou o Executivo de ter optado por “avançar imponderadamente” e ter tomado uma “decisão irresponsável”, o que “criou uma crise e prejudicou jovens, famílias e escolas”. No final, sublinhou, “sacudiram responsabilidades” e “atiraram culpas para famílias, professores e escolas”. “A humildade democrática falha a este Governo e a este primeiro-ministro”, concluiu o líder do PS.

A economia — que Luís Montenegro descreveu como a que “mais cresceu” — foi outro motivo de discórdia, com José Luís Carneiro a tentar, assumidamente, “refrear o entusiasmo das palavras de Luís Montenegro”. Puxou da memória para dizer que, quando a economia “crescia a 3%”, a AD prometia a economia a “crescer a mais” e dizia que “Portugal estava a ser ultrapassado pelos países do leste europeu”. Agora, realçou, está a crescer “cerca de metade daquilo que crescia com os governos do PS”, o país “perdeu competitividade” e “isto coloca em causa o futuro do nosso país”. Além das acusações, Carneiro queixou-se de ter a vida complicada na Assembleia da República pelo facto de “o Governo ter bloqueado as propostas do PS” ao lado de Chega e Iniciativa Liberal.

De resto, Montenegro também teve resposta à medida que anunciou no Pontal: a compra de 13,7% do capital da REN. E, mais do que resposta, Carneiro deixou perguntas ao primeiro-ministro: qual a razão que leva à compra; qual o valor; e por que razão é que optou por comprar a um dos acionistas e não no mercado ou a outros acionistas. E acrescentou: “Está em condições de garantir aos portugueses que a posição que o Estado agora vai comprar permite ao Estado determinar e participar na definição estratégica da REN?”

Puxou depois da Saúde para dar continuidade ao rol de críticas que trouxe para o novo ano legislativo. “O país está sem rumo estratégico. Falar 47 minutos sem se ter referido à saúde mostra bem como o primeiro-ministro está desligado da realidade”, defendeu, recuperando propostas da campanha de 2025: médicos de família para todos os portugueses até dezembro de 2025, reduzir os tempos de espera para a primeira consulta, diminuir as listas de espera para cirurgias e diminuir as listas de espera também para as cirurgias oncológicas. “Foram quatro promessas e Luís Montenegro falhou a todas. Mais grave do que não assumirem os erros, é procurarem limpar das listas de espera as chamadas cirurgias menos urgentes”, reforçou.

Carneiro não terminou o discurso sem tocar no tema da habitação. Ao notar que “em dois anos o custo com a habitação em Portugal aumentou mais de 28%” e ao atribuir isso “às políticas erradas do Governo, que em vez de responder do lado da oferta, procurou responder do lado da procura”, o líder socialista prometeu lançar o “Serviço Nacional de Habitação, destinado a garantir a mobilização do Estado, das autarquias, das cooperativas, das associações, dos arquitetos, dos engenheiros e das empresas de construção civil, para mobilizar todo o país para esta resposta fundamental.”

A “estabilidade política” e (novamente) a revisão constitucional

Com o novo ano político mesmo à porta, José Luís Carneiro não perdeu a oportunidade de falar sobre o Orçamento do Estado, assegurando que “a estabilidade política é um valor importante”. Porém, não quer peso às costas do PS. “Quero que fique claro que o principal responsável pela instabilidade, imprevisibilidade e insegurança tem sido o governo da AD”, realçou, para logo prosseguir dizendo que o PS quer “dar um contributo para a estabilidade”, mas alertando que o documento não é uma “responsabilidade do PS”.

“A primeira responsabilidade para a construção da estabilidade política do nosso país é do Governo, que tem de apresentar um Orçamento competente e que sirva os interesses do nosso país. Mas quero também lembrar que há dimensões que para nós são vitais”, alertou.

Um desses valores, sublinhou, tem a ver com valores constitucionais, o que o levou a recuperar o tema da revisão constitucional. “Luís Montenegro, líder — como ele fez questão de dizer na sexta-feira — do PPD, tem responsabilidade histórica de, com o PS, defender os valores constitucionais”, começou por explicar Carneiro, para logo concluir que “qualquer revisão da Constituição deve assentar naqueles que têm sido os pilares da fundação da nossa democracia, do seu desenvolvimento e da sua consolidação”.

No final, Carneiro anunciou que o PS em setembro vai avançar com o “lançamento das propostas para os poderes locais de maior proximidade” e em outubro vai realizar o “primeiro encontro nacional do Movimento Contamos Todos” — o objetivo, garantiu, é afirmar “uma alternativa política e económica para os próximos 10 anos e no quadro do Horizonte de Portugal até 2050”.