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(A) :: O Chega não tem nojo de mim

O Chega não tem nojo de mim

A força dos evangélicos é não internalizarmos, como agora se diz em linguagem psico-emotiva, o nojo que sentem de nós. Venha esse nojo dos partidos políticos, da imprensa ou de qualquer outro lugar

Tiago de Oliveira Cavaco
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O Expresso e o Público denunciam um novo “movimento de mulheres conservadoras [que] aproxima [o] Chega da agenda evangélica brasileira”. É suposto a pessoa quando sabe disto tudo ficar assustada: com as mulheres conservadoras, com o Chega e com a agenda evangélica brasileira. É uma maratona de medo. Nem sei bem por onde começar. Na prática, ainda me falta ser mulher (como cantava o Fachada), votar Chega e ser brasileiro. Mas não resisto.

O Expresso, que desenvolve a história em papel, sabe quem é: “é o jornal mais lido no país, liderando a informação de atualidade e análise em áreas como política, economia, sociedade e cultura, dando igualmente muita atenção à opinião plural de diversos comentadores”. É pena esta história da pluralidade não ser desenvolvida pelo Expresso. Vejamos: antes da pandemia os evangélicos já eram 5% da população da área metropolitana de Lisboa (estes dados são da Fundação Francisco Manuel dos Santos e são públicos). O número cresceu desde então sobretudo graças à imigração brasileira e não me espantava que andasse actualmente perto dos 10%. Mas não existe no Expresso uma vozinha que seja que reflicta essa gente toda. O Expresso enche-se de toda a “opinião plural” mas a dos evangélicos é uma formidável excepção: quando lá aparecem impressos não é para meter mensagem, é para meter medo.

Não é só com o Expresso, reconheçamos. Que eu saiba o único órgão de comunicação social que publica regularmente uma voz evangélica conservadora é aqui o nosso querido Observador com este triste cronista que vos escreve. Se pensarmos que a Reforma Protestante mudou o mundo há mais de meio milénio, é apreciável o tempo que esta novidade tem levado a chegar às redacções portuguesas. Por muito que os evangélicos portugueses mudem a sociedade, a imprensa local permanece em 1516.

O que me leva ao Chega. Como sou Baptista e os Baptistas defenderam a separação entre a Igreja e o Estado 300 anos antes da Igreja Católica, tendo a ser cauteloso com as minhas posições políticas. Tenho um cadastro público de falar com todas as orientações sem esconder algumas preferências. É interessante porque nunca opinei acerca do Chega e hoje vou fazê-lo. Admito que sou demasiado conservador para votar nele. Nunca o fiz e acho que provavelmente nunca o farei. Mas tenho de admitir que o Chega é o único partido com presença parlamentar que não tem nojo dos evangélicos. O único. Foi também isto que fez o Bolsonaro ser eleito no Brasil e que explica o jeitinho que o Lula está a usar com eles porque sem evangélicos lá ninguém ganha eleições. Esse tempo inevitavelmente vai chegar a Portugal, ainda que tantos lamentem.

Que eu saiba, o PSD nunca falou publicamente bem dos evangélicos; o PS nunca falou publicamente bem dos evangélicos (sendo que Mário Soares teve uma carreira recheada de nos difamar publicamente e acabou coroado como Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa); o CDS nunca falou publicamente bem dos evangélicos; o BE nunca falou publicamente bem dos evangélicos; o Livre nunca falou publicamente bem dos evangélicos; o PCP nunca falou publicamente bem dos evangélicos; o PAN nunca falou publicamente bem dos evangélicos. Já ficaram com a ideia. Estes partidos nunca falaram bem de uma uma população portuguesa que, se ainda não está já, estará em breve entre os 5 e os 10%. Ao menos o Chega não tem nojo desta gente. O Chega não tem nojo de mim, mesmo que eu não vote nele. Os outros partidos têm nojo de mim. Conheço evangélicos em todos os partidos mas só o Chega não tem vergonha deles.

Na fotografia que o Expresso e o Público publicaram na internet conheço mais do que uma dessas temíveis mulheres conservadoras. Se elas me pedissem a opinião provavelmente desaconselhava o movimento como elas o estão a fazer. Como argumento base diria que não acho recomendável associar o cristianismo à direita ou à esquerda, ainda que tomemos posições políticas públicas. Mas isto sou eu. Quem manda nessas mulheres são elas. Vamos obrigá-las a serem feministas?

Quero terminar com contentamento porque uma das cruzes dos evangélicos em Portugal é esta dieta regular de má imprensa e não quero sair mais amargo deste texto. Sabem porque vamos sobreviver crescendo? A força dos evangélicos é nós não internalizarmos, como agora se diz em linguagem psico-emotiva, o nojo que sentem de nós. Venha esse nojo dos partidos políticos, da imprensa ou de qualquer outro lugar. Aparecemos como conservadores e resistimos, aparecemos como brasileiros ou de outro país pobre e resistimos, aparecemos como pindéricos e resistimos. A resistência é nossa. Não é resiliência porque resiliência é uma qualidade burguesa que deixamos para os nossos opressores. Venha o próximo texto anti-evangélico que o comemos ao pequeno almoço.