Uma vida de altos e baixos, com muitos obstáculos por ultrapassar por quem estava destinado a não vencer. Nasceu em Santiago de Cuba a 30 de junho de 1993 e foi no meio do “caos” que começou a dar os primeiros vislumbres no mundo do atletismo. Com uma envergadura de fazer inveja (1,86 metros no presente), Pedro Pablo Pichardo inspirou-se no pai, Jorge, que foi atleta, e foi pela mão da irmã que chegou ao atletismo. Foi na adolescência que decidiu dedicar-se em definitivo ao triplo salto, depois de completar 16 anos e ter tentado conjugar a nova versão com o salto em comprimento. Destacou-se de tal forma que conquistou um lugar na seleção cubana e foi obrigado a mudar-se para Havana, onde viveu até 2017, ano em que desertou de um estágio da sua seleção em Cuba.
Nessa altura encontrou uma casa em Portugal, pela mão do Benfica e da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA), que lhe permitiram prosseguir a sua carreira. Assinou contrato com o clube encarnado em abril de 2018, obteve a nacionalidade portuguesa com o estatuto de refugiado e, a partir de agosto de 2019, foi autorizado a representar o país em diversas provas internacionais. A relação que teve diversas medalhas, títulos e recordes viria a terminar mal, com Pichardo a abandonar o clube da Luz em janeiro de 2025, por “divergências irreconciliáveis” que levaram o caso para os tribunais. Apesar de ter sido proibido de entrar em Cuba por um período de oito anos, o seu recorde pessoal continua a remeter ao tempo em que representava a seleção do continente americano, quando alcançou os 18,08 metros em 2015.
https://observador.pt/2025/09/19/nao-estava-a-contar-saltar-mais-mas-com-o-ensaio-do-italiano-fiquei-cego-pichardo-da-drama-do-pai-a-fratura-antes-da-gloria/
Enquanto a disputa judicial continua, Pedro Pablo Pichardo chegou a Inglaterra determinado a conquistar mais uma medalha, num ano de 2026 em que tinha como melhor resultado os 17,71 metros alcançados no Meeting de Doha, em junho, prova que viria a vencer. O bicampeão do mundo chegou a Birmingham na liderança do ranking europeu e à procura de se redimir e chegar ao ouro pela segunda vez nos seus terceiros Campeonatos da Europa ao ar livre. Depois de ter vencido em Munique-2022 (17,50), Roma-2024 acabou por correr ainda melhor ao português, que se tornou no primeiro português a superar os 18 metros e fixou o recorde nacional nos 18,04. Contudo, o espanhol Jordan Díaz fez das suas e venceu a prova com um notável registo de 18,18, que continua a ser a terceira melhor marca de sempre, só atrás de Jonathan Edwards (18,29 em 1995) e Christian Taylor (18,21 em 2015).
“Eu tinha dito que este ano não ia competir, que ia descansar, mas vi o rapaz de Itália [Andy Díaz Hernández] dizer que é o melhor, então tive de vir da minha casa e voltar a treinar para mostrar quem é o melhor. Liguei ao meu pai e disse que tinha de estar aqui. Sinto-me bem. Conseguimos o objetivo. Era um salto fácil para a qualificação direta. Graças a Deus saiu bem no primeiro salto. Vamos ver… Sábado é o dia”, partilhou o triplista que agora representa os italianos do ATL-Etica depois de uma qualificação em que só precisou de uma primeira tentativa para superar os “obrigatórios” 16,60 metros e apurar-se com o melhor salto entre os 23 saltadores (17,16). Estava tudo pronto para o reencontro com Díaz, que saltou em 17,05 e partia com o melhor registo do ano (17,87 em Florença), alcançado há menos de um mês.
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E não havia melhor início possível: Pedro Pablo Pichardo começou a final a dominar, como tanto gosta, chegando aos 17,76 logo a abrir, marca que lhe permitiu saltar de imediato para o primeiro lugar, bater a sua melhor marca da época e quebrar o melhor registo europeu de 2026, aproveitando o nulo de Andy Díaz Hernández. Se o primeiro salto deixou água na boca, o segundo ficou perto do primeiro (17,50) e, na resposta, o italiano partiu a louça toda, com um fantástico salto de 18,15 que pulverizou o recorde de Itália e a melhor marca mundial do ano, e ficou a 14 centímetros do recorde do mundo, perfilando-se como o quarto melhor salto da história do triplo. A fechar a primeira fase da prova, o português ficou abaixo dos 17 metros (16,99), ao passo que o italiano fez o segundo melhor salto até então, com 17,78.
Já sem Simone Biasutti (sem marca), Necati Er (15,77), Dániel Szenderffy (15,88) e Mesut Bülbül (15,93), Pedro Pichardo continuou a saltar antes do amigo, que também nasceu em Cuba, embora ambos tenham abdicado do quarto ensaio. O luso-cubano também prescindiu da quinta tentativa, apostando tudo no último ensaio, ao passo que, depois de algumas dúvidas, Díaz quis saltar e voltou a aproximar-se dos 18 metros, mas falhou a tábua de chamada e teve o salto anulado. No duelo final, já com a prata garantida, Pedro Pablo Pichardo voltou a prescindir do último salto e terminou a final com os 17,76 iniciais. No salto da consagração, Andy Díaz desequilibrou-se e despediu-se com uns 18,15 com sabor a ouro. Andrea Dallavalle ficou com o bronze (17,37).
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Este resultado coloca Pichardo na história do atletismo português, com o luso-cubano a alcançar em Birmingham o décimo pódio ao serviço de Portugal (6 ouros e 4 pratas). Desta forma, o atleta do triplo salto igualou Rui Silva (4 ouros, 3 pratas e 3 bronzes nos 1.500 e 3.000 metros) no quarto lugar do álbum de ouro do atletismo nacional, atrás de Naide Gomes (4 ouros, 6 pratas e 1 bronze no pentatlo e no salto em comprimento), Nelson Évora (5 ouros, 2 pratas e 3 bronzes no triplo salto) e Fernanda Ribeiro, a única com 12 medalhas (5 ouros, 4 pratas e 3 bronzes).