Marius Călimănescu (papel de Adrian Văncică), médico romeno na casa dos 50 anos, dirige o hospital da cidade de Reșița, na província em que nasceu e, depois de enviuvar, continua a educar sozinho Ioan (Teodor Butanescu), o seu filho adolescente, ainda menor de idade. Profissional competente, homem respeitado na terra e amigo pessoal do chefe da polícia, Marius não faz a menor ideia que Ioan está a frequentar um grupo de extremistas racistas e xenófobos que se dedica, em raides de bicicleta pela calada da noite, a atacar pessoas de outras etnias e a vandalizar carros, deixando mensagens como a que dá título a este novo filme de Florin Serban (n. 1975): You Don’t Belong Here. O título venceu este sábado o Leopardo de Ouro, no 79.º Festival de Cinema de Locarno, na Suíça.
Certa noite, o cadáver de um cigano idoso com o crânio esmagado por um taco de basebol chega à morgue do hospital que Marius dirige. Aquele médico, que às tantas dirá que “não há corvo que não ache o seu filho um cisne”, dá-se então conta do fiasco moral que o constitui enquanto pai e cidadão quando a polícia começa a suspeitar que Ioan é o assassino.
You Don’t Belong Here não é apenas um espelho da Europa deste tempo e do descontentamento social (face à questão da imigração, por exemplo) a evoluir, sem controlo, para um ódio tinhoso por tudo o que tem cor de pele diferente. O filme de Serban — que se encaixa nos modelos habituais da cinematografia romena, com longas cenas filmadas em plano-sequência — quer também ser visto como retrato geracional mais profundo, sublinhando o fracasso ético e moral dos “filhos da revolução” que ganharam uma democracia quando se livraram do jugo da ditadura comunista de Ceausescu.
Os romenos que têm hoje 50 anos e ocupam posições de poder prosperaram em liberdade, julgando ter a razão do seu lado. Egoístas, negligenciaram contudo a geração dos filhos, herdeira de um conforto que os tornou apáticos e facilmente manipuláveis pelas redes sociais. Pela duração excessiva de certas cenas, e pela fragilidade de certos intérpretes, You Don’t Belong Here não está à altura da também romena (embora rodada na Noruega) Palma de Ouro actual — Fjord, de Cristian Mungiu. Em Locarno, contudo, é um filme com argumentos de sobra para figurar no palmarés do júri presidido pelo realizador belga Fabrice Du Welz.
Violence du corps de l’autre, de Denis Côté
Há 20 anos, tinha ele começado há pouco um percurso de cineasta que o destacou de imediato no panorama do cinema canadiano, Denis Côté (New Brunswick, 1973) foi diagnosticado com uma doença renal crónica que foi evoluindo com o tempo e resistindo a tratamentos, facto que o levou a optar recentemente por um transplante, quando a insuficiência chegou a um estado crítico. O êxito da operação, sem a qual o prolífico realizador do Quebeque não teria sobrevivido, conduziu-o a uma nova vida após ter atravessado momentos de angústia em que viu a vida por um fio. Violence du corps de l’autre, embora seja ficção por inteiro, é indissociável desta introdução biográfica (e é importante sublinhar este facto, pois Côté, que oscila frequentemente entre géneros e formatos, é igualmente documentarista). Portugal conhece parcialmente a sua obra, acarinhada na capital — mas sem a regularidade devida — pelos festivais IndieLisboa e Doclisboa; nas salas, comercialmente, só se estreou uma das 17 longas-metragens que Côté tem no currículo, Vic e Flo Viram um Urso, lançada pela Leopardo Filmes, em 2014.

Dizer que Violence du corps de l’autre foi escrito antes da operação que salvou Côté e rodado após o êxito daquela diz muito da surpresa que o filme causou, das suas duas partes nitidamente distintas e da sua natureza fora de normas: é um thriller estranhíssimo. O filme começa por parecer a história de uma mulher que “mata pessoas”, ou melhor, que as ajuda a morrer, por vontade destas, pois são doentes terminais com vontade de terminar sem sofrimento o seu suplício. É nesta primeira parte que somos apresentados a Mira (Larissa Corriveau, actriz recorrente do cineasta), que ajuda e assiste quem quer suicidar-se. De onde vem este anjo da morte, ninguém sabe, nem a que propósito. Mas Côté não fez um filme sobre a morte medicamente assistida. Não quer explicar a eutanásia, defendê-la, condená-la, muito menos fazer dela o assunto dominante. “Não tenho vontade de acrescentar mais um tijolo a esse muro: filmes sociais, é coisa que não falta por aí nestes dias”, contou em Locarno.
Na segunda parte de Violence du corps de l’autre, ao invés da mulher que leva a morte e distribui aquela eutanásia doméstica, provavelmente clandestina (num tempo que não corresponde exactamente ao dos nossos dias mas ao de um futuro próximo), descobrimos em Mira, afinal, uma mulher que só quer virar a página e viver. Na primeira parte, ela executa uma tarefa que se tornou mecânica. Não estabelece relações com as pessoas a quem leva a morte: limita-se a juntar a ampola e a água no mesmo copo, escutando as últimas palavras de quem está prestes a bebê-lo. A distância é uma condição necessária para ela não ceder. Na segunda parte, Mira conhece um rapaz caloroso, desperta para uma transformação, à medida que o filme muda radicalmente de registo, com cenas mais improvisadas e recurso a personagens interpretadas por actores que vêm do teatro.

Na sua sedutora estranheza, Violence du corps de l’Autre não é exactamente um filme sobre a morte. Nem sobre a eutanásia. Nem sobre uma mulher que mata. É um filme sobre corpos que se encontram e se ferem, sobre pessoas que aparecem umas perante as outras sem saber muito bem o que fazer dessa presença. É um filme sobre a possibilidade, sempre precária, de ainda acreditar nos outros e um dos melhores de Denis Côté, que tem um percurso irregular, com muito mais acertos que falhas. “Quando acabámos o filme, eu tinha feito o transplante e ganho uma vida nova. O resultado foi muito positivo e luminoso. E queria o mesmo para a personagem”, disse-nos o realizador em entrevista, depois de frisar que a morte assistida no Canadá adquiriu uma expressão particularmente significativa. Segundo o realizador, a legislação do seu país transformou o Canadá no lugar do mundo com maior recurso a este procedimento. Saber viver bem é um objectivo pelo qual se luta a vida inteira, mas quem tem a frieza de planear morrer bem? Foi a partir dessa realidade canadiana que Côté imaginou aquela organização clandestina do filme, “um serviço de deep dark web para pessoas demasiado desesperadas”, diz o realizador. “Contudo, continuo a confiar nos seres humanos. A humanidade é aquilo que ainda nos resta.”
Nowhere to Lay My Eyes, de Hong Sangsoo
Não se espere do sul-coreano Hong Sangsoo uma revolução no seu cinema, antes uma nova variação temática na sua já abundante (e multi-premiada) filmografia. O resultado de Nowhere to Lay My Eyes (que valeu prémio para a Melhor Realização), rodado na ilha de Jeju (a mesma ilha em que Hong rodou In Water, em 2023), é um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos. Kim Minhee, actriz recorrente e companheira do cineasta na vida, chama-se Sanghee, mulher de meia-idade que reencontra a sua mãe na ilha citada, onde aquela abriu um restaurante que lhe trouxe conforto financeiro. Os pais separaram-se há muito, a protagonista foi criada por outro ramo da família. Sanghee, que viaja com o irmão, aproveita a visita para conhecer o novo companheiro da mãe, papel de Kwon Haehyo, rosto familiar em tantos outros filmes do sul-coreano.
A tensão principal deste filme (mais cruel do que parece) deve-se muito ao constrangimento criado nos diálogos entre as duas mulheres que, apesar de mãe e filha, não se viam há 10 anos e pouco sabem uma da outra. No início do filme, aliás, Sanghee pergunta-se (ou melhor, confessa-nos na voice over) se a sua visita à ilha não acabará por resvalar para um erro que lhe causará arrependimento.

Lançando pistas inesperadas a cada cena, Nowhere to Lay My Eyes, pese embora a sua aparente leveza, é um filme profundo sobre relações humanas, o valor da filiação e a solidão. Ao contrário da maior parte do que foi visto em Locarno, não há aqui, em momento algum, o desejo de mostrar-se “preocupado” com o seu tempo, ou em desenvolver um fio temático particular. Sanghee — conta a personagem — ganha a vida numa multinacional de snacks, dedicando-se, quando tem tempo livre, ao que realmente gosta: os pequenos ensaios de cinema experimental que ela vai fazendo com a sua câmara portátil e que expressam as suas emoções, aquilo que as palavras não sabem dizer. Hong Sangsoo é o artista das coisas simples e elementares da vida. Não precisa de muito para conquistar os seus espectadores. Deixa o coração quente e a cabeça fria.
Desde 2023 que são atribuídos dois prémios de interpretação sem distinção de género. Este ano, além de Kim Minhee, o júri premiou ainda Monica Bellucci por “Kettice”, de Giovanni Tortorici, um filme sobre a busca de identidade e o desejo de liberdade entre adolescentes.
Embora só seguido parcialmente, Locarno 2026 não foi uma edição extraordinária. Objet A (da alemã Ann Oren) ou Brave New Love (da sueca Maria Bäch) roçaram a pretensão, já A Margem do Rio, um thriller erótico e queer (da dupla brasileira Matheus Farias/Enock Carvalho), insurge-se contra a violência e o fanatismo religioso a partir da cidade de Recife, Pernambuco, mas carece de desenvolvimento mais consistente para se sustentar como metáfora do Brasil de hoje.
Aliás, nem é preciso ir longe para balizar esta edição, basta comparar com Locarno 2025 e constatar que, na colheita deste ano, nenhum filme (entre os que pudemos ver) equivaleu a Mektoub, My Love: Canto Due, o fim do verão idílico de Abdellatif Kechiche, nenhum teve a insolência de um Radu Jude, ou a contundência política de um Kamal Aljafari — recorde-se que With Hasan in Gaza, depois de passar no Ticino, abriu o DocLisboa do ano passado.
Na memória ficarão o encontro com Isabella Rossellini, o segundo take de uma longa entrevista com James Gray em torno de Paper Tiger e, muito merecidamente, a retrospectiva que o programador e crítico Ehsan Khoshbakht montou em torno do cinema americano banido nos anos do macarthismo, Red & Black: Hollywood Left and the Blacklist.
O autor escreve segundo a antiga ortografia