(c) 2023 am|dev

(A) :: Vítimas de Epstein pedem a Andry Burnham abertura de inquérito público ao ex-príncipe André e à elite britânica

Vítimas de Epstein pedem a Andry Burnham abertura de inquérito público ao ex-príncipe André e à elite britânica

Reuniões com o líder britânico e o homólogo irlandês ocorrerão nos próximos meses. Grupo exige que se apure a cumplicidade do poder britânico com Jeffrey Epstein e o fim do impasse nas investigações.

Mariana Furtado
text

Depois das detenções do ex-príncipe André e do antigo ministro e embaixador nos Estados Unidos, Peter Mandelson, e enquanto os ficheiros desclassificados pelo Departamento de Justiça norte-americano continuam a expor os meandros do caso Epstein, a pressão política instalou-se em Downing Street. Desta vez, a iniciativa parte diretamente de quem sobreviveu à teia do predador sexual: as vítimas preparam-se para exigir ao primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, a abertura de um inquérito público nacional sobre as ligações de figuras do establishment britânico a Jeffrey Epstein — com particular foco em Andrew Mountbatten-Windsor.

Nos próximos meses, elementos da UK Epstein Survivors Campaign, que representa cerca de uma dezena de sobreviventes (entre as quais a ativista Lisa Phillips), vão sentar-se à mesa com o chefe do Governo britânico em busca de “verdade e justiça”, revela o jornal The Telegraph este sábado. O mesmo encontro está já agendado com o homólogo irlandês, Micheál Martin.

“Se alguma vez houve uma oportunidade de garantir finalmente a verdade e a justiça que foram negadas às sobreviventes durante tanto tempo, acreditamos que essa oportunidade existe agora sob a liderança do primeiro-ministro Andy Burnham”, afirma o grupo num comunicado citado pelo jornal.

Ele [o primeiro-ministro britânico] já demonstrou aos sobreviventes uma enorme coragem, compaixão e vontade de os ouvir. Esperamos sinceramente que a sua liderança possa ajudar a concretizar aquilo por que os sobreviventes esperaram há demasiado tempo: verdade, responsabilização e justiça”, refere ainda o comunicado.

Um porta-voz oficial do Governo britânico destacou ao The Telegraph que as vítimas “foram sujeitas a crimes terríveis” e “deixadas praticamente sozinhas” no rescaldo dos abusos. Recordando que o primeiro-ministro “teve o prazer” de se reunir com a ativista Lisa Phillips no início do ano, Downing Street reiterou o compromisso de “garantir que as vozes das sobreviventes sejam sempre ouvidas”.

A iniciativa surge depois de ter sido noticiado, na semana passada, que Andy Burnham estaria prestes a autorizar uma investigação britânica ao caso Epstein — uma intenção que Downing Street se apressou a desmentir. Ainda assim, fontes citadas pelo The Telegraph garantem que o primeiro-ministro continua mais empenhado na questão do que o seu antecessor, Keir Starmer, tendo inclusive alargado o âmbito da pasta do deputado trabalhista, Alex Davies-Jones, responsável pelas vítimas.

Para o grupo, as revelações mais recentes levantam “questões sérias que não podem ser simplesmente ignoradas”, sobretudo perante a perceção de que as investigações policiais em solo britânico entraram numa fase de desaceleração. “Registos e correspondências referentes a Jeffrey Epstein, Peter Mandelson e Andrew Mountbatten-Windsor — incluindo discussões sobre dinheiro, finanças e as suas relações com Epstein — demonstram precisamente por que razão o público merece total transparência”, defendeu a organização no mesmo comunicado.

Até agora, a pressão por parte da polícia britânica para obter junto das autoridades norte-americanas o acesso integral aos arquivos do caso Epstein não tem surtido efeito.

No centro das exigências está o esclarecimento da origem dos fundos do acordo extrajudicial com Virginia Giuffre — que terá custado aos cofres da Casa Real cerca de 12 milhões de libras (mais de 14 milhões de euros) em 2022 para travar o processo por abuso sexual interposto em Nova Iorque, cuja verba exata e contornos nunca foram tornados públicos.

Em 2015, Virginia Giuffre acusou Epstein e a sua cúmplice, Ghislaine Maxwell, de a terem levado para Londres em 2001 e de a terem obrigado a ter relações sexuais com o príncipe André.

https://observador.pt/2026/06/02/vitima-de-abuso-sexual-de-jeffrey-epstein-acusa-palacio-de-buckingham-de-proteger-ex-principe-andre/

As vítimas querem que uma comissão independente vá mais longe e determine até que ponto figuras do topo do poder britânico foram cúmplices, facilitando — ou fechando os olhos — à rede internacional de exploração sexual montada por Jeffrey Epstein.

Apesar da insistência dos sobreviventes, o ex-príncipe André, segundo filho da Rainha Isabel II, mantém a recusa categórica de qualquer conduta ilícita, enquanto Peter Mandelson, embora reconhecendo ter prolongado a relação com o financista “por demasiado tempo”, assegura nunca ter presenciado qualquer indício de crime.