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(A) :: A vida falsa e a morte verdadeira de Jason Arday

A vida falsa e a morte verdadeira de Jason Arday

Em suma, Jason Arday era um aldrabão. Toda a história dele é uma sucessão de mentiras cujo descaramento cresceu em proporção directa à importância que lhe deram.

Alberto Gonçalves
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Comparada com a de Jason Arday, a vida de Ulisses, herói ficcional, foi a de um revisor oficial de contas, sem desprimor para os revisores oficiais de contas. Nascido em 1985, na infância Arday viu-se diagnosticado com atraso global do desenvolvimento e perturbação do espectro do autismo. Não conseguiu falar antes 11 anos de idade, comunicando apenas por linguagem gestual, e só aprendeu a ler e a escrever aos 18. Todas as previsões garantiam que Arday nunca conseguiria sequer ser uma pessoa autónoma, e a mera hipótese de um percurso académico só seria colocada por graçola de péssimo gosto.

Sucede que Arday, como todas as lengalengas de motivação que atafulham belos livros de auto-ajuda e comoventes telefilmes, não se resignou às limitações que o destino lhe definiu. Um dia, presumivelmente posterior à aprendizagem da escrita, Arday escreveu na parede do quarto uma lista de objectivos, entre eles o de chegar a professor em Oxford ou Cambridge. De seguida escreveu outras coisas, incluindo os trabalhos que lhe facultaram a licenciatura, o mestrado e o doutoramento. Com obras publicadas a partir de 2018 e passagens pela docência em universidades menores, Arday ganhou razoável fama enquanto autor e investigador. Está bem que a área de investigação era a da “igualdade étnico-racial” e da “inclusão”, mas mesmo assim. Em 2023, chegou enfim ao estrelato, com uma nomeação que o transformou no mais jovem professor catedrático negro de Cambridge, apesar de a distinção versar a Sociologia da Educação e apesar de enfrentar o que, segundo alguns, é a “a escassa representatividade e as barreiras estruturais impostas a professores negros nas universidades de elite britânicas”. As proezas do homem acumulavam-se.

E as proezas só se multiplicaram quando Arday, entretanto uma celebridade, contou aos “media”, e pelos vistos aos alunos, novas facetas da própria, e devastadora, grandeza. Numa ocasião, ou em diversas ocasiões, revelou ter corrido 30 maratonas em 35 dias, quase 500 km em três dias e perto de mil km numa passadeira em seis dias. Outras vezes, louvava sem falsa modéstia os seus esforços caritativos, que angariaram 5 milhões de libras. E isto sem ceder às ameaças de misteriosos perseguidores: a seguir à cátedra, os pais de Arday receberam em casa uma cabeça de porco, e o que poderia ser um gesto de felicitações e um pretexto para o churrasco de Domingo foi tomado por uma intimidação – que Arday valentemente suplantou.

Em suma, Jason Arday era um aldrabão. Toda a história dele é uma sucessão de mentiras cujo descaramento cresceu em proporção directa à importância que lhe deram. Não há vestígios dos diagnósticos de atraso e de autismo. Os ex-colegas da escola primária relatam que o pequeno Arday passava o tempo a dizer piadas e a imitar vozes alheias – não se calava, portanto, o que é um forte indício de que era “verbal” e um provável chato. A iniciação na leitura e na escrita terá acontecido em idade normal, embora com deficiências que se evidenciaram nas obras que assinou em adulto. Não houve maratonas ou outras correrias. Não houve cabeça de porco. Não houve “barreiras estruturais”. Não houve angariações beneficentes. Não houve a vertiginosa evolução intelectual e física que faria de Arday um caso talvez inédito nos anais da humanidade, da psiquiatria e do atletismo. Não houve, em Arday e nos que o alimentaram, pingo de vergonha.

O que houve foi a propensão de um indivíduo para a fraude, e a compensação da fraude a expensas de um “clima” social adequado. Desde logo, as dúvidas acerca da, digamos, produção literária e académica de Arday antecederam Cambridge em alguns anos. A título de exemplo, a tese de doutoramento, de 2015, continha centenas de erros básicos de gramática, pontuação e sintaxe, incongruências grosseiras, e cento e tal longos excertos plagiados de outrem. A tese passou, tanto no júri como nos orientadores, empenhados em privilegiar a “diversidade” em detrimento da competência. Já catedrático, ajudado por uma carta aberta em que centenas de estudantes de Cambridge exigiam a “descolonização” da universidade na sequência (?) da morte de George Floyd, a fraude de Arday começou a notabilizar-se tanto quanto ele. Alguns alunos queixavam-se de aulas absurdas e sem conteúdo, reduzidas à narração dos “obstáculos”, da “superação” e da geral excepcionalidade de Arday. Alguns jornalistas e académicos menos aflitos com o racismo “sistémico” deram em expor a sistémica trafulhice. Àqueles, Arday respondia com a penalização nas notas. Aos demais, Arday atiçou advogados, processos por calúnia e acusações de “stalking”. Com todos recorreu à carta racial e ao estatuto de vítima, protegido por Cambridge em peso, que até as provas serem impossíveis de continuar a negar chegou a falar em “campanha vil de difamação”.

Após uma breve carreira a prejudicar alunos e colegas de facto habilitados, a contribuir para destroçar o abalado prestígio do ensino superior e a fomentar sentimentos racistas, Arday demitiu-se no passado dia 5. Em comunicado, não pediu desculpas, reforçou o mito da “perseguição” e prometeu voltar “mais forte e mais sábio”.

O problema, naturalmente, não é a desonestidade e o escasso carácter de Arday, e sim as forças que, de modo a corroer os sempre frágeis equilíbrios sociais, produzem inúmeros Ardays. Essas forças mobilizaram-se num instante para explicar que o episódio em questão em nada representa nem compromete os princípios da D.E.I. (Diversidade, Equidade e Inclusão), quando o episódio representa com exactidão milimétrica os princípios e as consequências da D.E.I. – e devia comprometê-los.

Desgraçadamente, não compromete: para não ir longe, anteontem Cambridge “descobriu” que uma sua docente, Farah Ahmed, é ou era militante de uma organização terrorista islâmica, além de rabiscar arengas furiosas contra a democracia e a “educação ocidental”. E à hora a que escrevo Arday foi encontrado morto, um final triste que certamente será aproveitado para se acusar a divulgação da fraude, em vez da fraude.

Nota: O autor desta coluna vai de férias e regressa a 5 de Setembro.