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Aljubarrota: quando Portugal decidiu existir

É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir.

Bernardo Ribeiro da Cunha
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Há batalhas que ganham territórios. Outras ganham tempo. Aljubarrota ganhou uma coisa mais rara: a possibilidade de Portugal continuar a ser Portugal.

Em 14 de Agosto de 1385, há 641 anos, no campo de São Jorge, perto de Aljubarrota, não se enfrentaram apenas dois exércitos. Enfrentaram-se duas ideias de legitimidade. De um lado, Castela, com a força do número, da sucessão dinástica e da ambição peninsular. Do outro, um reino pequeno, politicamente ferido, socialmente dividido, mas ainda capaz de reconhecer que a legalidade sem liberdade pode tornar-se apenas a gramática elegante da submissão.

A crise começara com a morte de D. Fernando, em 1383. A sua filha, D. Beatriz, casada com o rei de Castela, abria a porta a uma solução dinástica aparentemente impecável e politicamente fatal: Portugal podia deixar de ser reino independente sem que ninguém precisasse de o conquistar formalmente. Bastava respeitar as regras até elas deixarem de proteger a casa comum. É uma lição antiga, mas sempre nova: há momentos em que a forma da lei pode ser usada contra o espírito da liberdade.

Foi então que emergiu D. João, Mestre de Avis. Não como figura romântica inventada depois pelos cronistas, mas como resposta política a uma necessidade histórica. As Cortes de Coimbra deram-lhe a coroa; João das Regras deu-lhe o argumento; Nuno Álvares Pereira deu-lhe a espada e, mais do que a espada, a disciplina.

Aljubarrota foi uma vitória da inteligência sobre a massa. O exército castelhano era superior em número. Portugal não tinha o luxo da imprudência. Escolheu o terreno, preparou obstáculos, estreitou o espaço, obrigou a cavalaria inimiga a lutar onde a sua força se convertia em embaraço. A grandeza castelhana entrou no campo como quem entra numa avenida; descobriu tarde de mais que estava num corredor.

Nuno Álvares não venceu por entusiasmo. Venceu por ordem. A coragem portuguesa, nesse dia, não foi grito: foi formação. Não foi impulso: foi obediência. Cada homem no seu lugar; cada lança apontada; cada passo calculado. A desproporção, que em teoria anunciava a derrota, tornou-se argumento a favor da prudência. A pequena nação só podia sobreviver se pensasse melhor do que o império que vinha esmagá-la.

Convém, porém, evitar a simplificação patriótica. Aljubarrota não prova que os portugueses sejam invencíveis. Prova coisa mais séria: que uma comunidade política só resiste quando sabe o que quer preservar. A independência não é um ornamento sentimental. É uma responsabilidade. Exige elites que não vendam o país por conveniência, povo que não confunda paz com rendição, e chefes que saibam que a autoridade existe para servir uma continuidade superior ao próprio interesse.

A presença de D. Nuno Álvares Pereira dá ainda à batalha uma dimensão que Portugal moderno raramente sabe ler sem embaraço: a dimensão espiritual. O Condestável não foi canonizado por ter sido bom general, mas é impossível separar nele a disciplina militar da ascese cristã. A sua grandeza não está apenas na vitória; está na forma como a vitória não o devorou. Num tempo em que tantos confundem poder com destino pessoal, Nuno Álvares lembra que a verdadeira autoridade começa no domínio de si.

Depois de Aljubarrota veio a dinastia de Avis, o Mosteiro da Batalha, a aliança inglesa consolidada pelo Tratado de Windsor, e a abertura de um ciclo que levaria Portugal ao mar. Mas nada disso estava garantido naquela tarde de Agosto. A história gosta de parecer inevitável depois de acontecer. Antes, é sempre risco, fadiga, pó, medo e decisão.
Portugal não nasceu em Aljubarrota. Já existia. Mas confirmou ali que queria continuar a existir. E talvez seja essa a lição mais actual da batalha: as nações não morrem apenas quando são vencidas por fora. Morrem antes quando deixam de acreditar, por dentro, que vale a pena defendê-las.

Aljubarrota foi, por isso, mais do que uma vitória militar. Foi uma declaração de permanência. Uma pequena clareira aberta na História por homens que não tinham garantias, mas tinham dever. E quando um povo ainda sabe distinguir o dever da conveniência, até a inferioridade numérica pode tornar-se uma forma de soberania.

É por isso que Aljubarrota não pertence apenas à história militar. Pertence à história da soberania. Foi o momento em que Portugal disse que a geografia não bastava para o definir, mas que sem independência política a geografia se tornaria propriedade alheia.

Os grandes reinos gostam de chamar inevitável ao que lhes convém. Os pequenos, quando ainda têm alma, respondem que a inevitabilidade também pode cair numa vala.

Em Aljubarrota, caiu.