Ver um eclipse é um paradoxo, porque é ver … o que não se vê! Até há pessoas que compram uns óculos, não para ver, mas para não ver o Sol, pois o eclipse solar é isso mesmo, ou seja, o seu momentâneo desaparecimento por interposição da Lua.
É espantoso que um pequeno satélite seja capaz de tapar a estrela 400 vezes maior que preside ao sistema solar, quando ambas ficam, por uns 20 a 26 segundos, em linha com a Terra, de tal forma que a Lua oculta, total ou parcialmente, o Sol, que está umas 400 vezes mais distante. São raras as vezes em que este fenómeno astronómico acontece no nosso país – a última foi em 1912 e a próxima será em 2144 –, mas no passado dia 12 foi possível vislumbrar o fugaz desaparecimento do Sol, que foi total em Trás-os-Montes, mas parcial no resto do continente.
O eclipse tem uma fácil explicação científica, mas também é susceptível de uma interpretação teológica. Algumas religiões veneraram o Sol, como imagem e semelhança de Deus, e outras foram até mais longe, ao divinizá-lo: Rá, o Deus-Sol. Tendo em conta esta idolatria egípcia, não teria sido prudente que os cristãos tivessem usado o Sol para simbolizar Deus. A recorrente tendência para confundir o representante com o representado – Paulo chegou a ser tido por um deus (At 28, 1-6) – fazia provável que a veneração pelo Sol, como imagem de Deus, evoluísse para a sua adoração.
Deus não se identifica com o Sol, mas é “a luz do mundo” (Jo 8, 12) que ilumina toda a realidade criada, que só em Deus encontra resposta para o mistério da sua origem, existência e fim, pois sem luz não há visão. Na transfiguração, a antecipada manifestação da glória divina de Jesus de Nazaré, os relatos evangélicos sublinharam a luminosidade de forma tão expressiva – “as suas vestes tornaram-se tão resplandecentes, de uma brancura tal, que nenhum lavadeiro sobre a terra os poderia tornar tão brancos” (Mc 9, 3) – que poderia servir de slogan publicitário de um detergente (‘Porque branco, mais branco, não há, Sabão Transfiguração é a solução!’).
E a Lua? A sua condição de satélite e as suas diminutas dimensões, se comparadas com o nosso planeta, ou, mais ainda, com o Sol, tornavam à partida inviável a sua divinização. A Lua descreve uma órbita determinada pelo planeta à volta do qual gira e, como não é uma estrela, apenas reflecte a luz que recebe do Sol.
Por razão desta sua dupla condição, é pertinente a analogia com Maria que, enquanto criatura humana, não é comparável com o Criador. Jesus Cristo é o autor da nossa redenção, enquanto a missão de Maria é instrumental: é meio e não fim, transmite uma luz que recebe, mas que não emite. Por isso, também não ‘ascende’ ao Céu, como Jesus, por virtude própria, mas é para lá conduzida por Deus, ou ‘assunta’, em corpo e alma. Como se recordou na Nota doutrinal Mater Populi fidelis, de 4-11-2025, do Dicastério para a Doutrina da Fé, Maria não é, como Cristo, redentora, embora colabore de forma eminente no mistério da redenção, num sentido análogo ao que São Paulo atribui ao seu ministério apostólico (Cl 1, 24), afirmando a absoluta primazia divina na acção evangelizadora, de que era protagonista “a graça de Deus” (1Cor 15, 10) e não ele.
Do Sol, da Lua e de Maria fala o último livro da Bíblia: “apareceu no Céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.” (Ap 12, 1). É significativo que o texto sagrado não apresente Nossa Senhora como sendo a própria luz, mas alguém que é por ela iluminada, ou “vestida”, do mesmo modo como os anjos e santos não são a fonte da graça que deles irradia. Por outro lado, a Lua “está debaixo dos seus pés”, o que realça a realeza de Maria. As doze estrelas sobre a sua cabeça, em jeito de coroa, reforçam a sua condição régia e o seu domínio sobre a realidade criada, mas de forma secundária e subordinada a Deus. Não em vão, na oitava da Assunção de Maria ocorre, no calendário litúrgico, a festa de Nossa Senhora Rainha.
Em termos astronómicos, a imagem apocalíptica de Maria não podia ser mais completa, pois refere o Sol, que a reveste; a Lua, sobre a qual assentam os seus pés; e as estrelas, que são a sua coroa. No eclipse solar, uma estrela, o Sol, é ocultada por um satélite, a Lua, cuja sombra se projecta sobre um planeta, a Terra.
Se é em virtude da interposição da Lua que os raios de Sol não incidem sobre a Terra, esse satélite, dada a sua opacidade, obstrói a acção do astro-rei. Também há quem tema que a devoção a Maria possa ofuscar o verdadeiro culto a Deus, mas é esta uma falsa questão, até em termos astronómicos. A Lua, mesmo quando ocorre um eclipse, não pode ser vista senão por acção do Sol, o mesmo que a ilumina e nela se reflecte nas noites de luar. Portanto, quando o Sol se oculta por detrás desse satélite, de facto está a esconder-se para o iluminar e chamar a atenção para a sua existência que, sem essa coroa de luz, não seria visível, como o não é em dias soalheiros. O eclipse solar não é, então, a Lua que oculta o Sol, mas este que empresta, por breves momentos, o seu brilho àquele satélite, para que resplandeça sobre a Terra.
A devoção mariana é algo querido por Deus como meio e instrumento da sua acção, de forma secundária e instrumental, subordinada à redenção por Cristo. Excluir Maria da equação da economia da salvação resultaria tão absurdo como menosprezar a natureza humana do Salvador, pois “Deus nosso Salvador, que quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2, 3), quer fazê-lo através de Deus feito homem em Jesus Cristo, o filho de Maria.
Se o Sol se aproximasse mais da Terra, abrasar-nos-ia com o seu calor e a intensidade da sua luz nos cegaria. Mas, se esse esplendor for filtrado por um satélite que se interponha entre essa estrela e o nosso planeta, somos capazes de erguer o nosso olhar para o alto e ver, no eclipse de Deus, a natureza humana por Ele iluminada e redimida. Assim aconteceu na Ascensão de Cristo, quando a sua natureza humana, unida na única pessoa do Verbo, à natureza divina do Filho de Deus, se manifestou em toda a sua glória (Mc 16, 19; Lc 24, 50-51; At 1, 9). Assim aconteceu também na Assunção de Nossa Senhora, em que a sua natureza humana se deixou iluminar totalmente pela graça de Deus, que nela habita em plenitude (Lc 1,28), para fazer incidir sobre nós um reflexo maternal do Amor que Deus é (1Jo 4, 8.16).