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Montenegro faz do Pontal prova de vida, promete década à Cavaco e queixa-se da "censura moderna"

Sem novidades no IRS ou nas pensões, sem disparar contra adversários políticos e fugindo às polémicas, Montenegro denunciou a "censura moderna" e tentou apresentar as grandes conquistas do Governo.

Miguel Santos Carrapatoso
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Diogo Ventura
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Desta vez, não houve anúncios, nem grandes novidades, muito menos ataques diretos aos adversários políticos. Mas houve muita prestação de contas. No Pontal mais difícil que enfrentou desde que é primeiro-ministro, Luís Montenegro aproveitou o encontro de militantes sociais-democratas no Algarve para criticar a “maledicência” daqueles que são incapazes de ver os aspetos positivos da governação da AD e só preferem ver o lado lunar destes dois anos e meio de poder. E deixou uma promessa que tem vindo a repetir nas últimas grandes intervenções de fundo: repetir aquilo que Aníbal Cavaco Silva fez entre 1985 e 1995.

Ao longo de um discurso com mais de 40 minutos, que começou já depois das dez da noite, Luís Montenegro acabou por reconhecer, como era previsível, que, ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, desta vez não poderia prometer mais descidas no IRS ou um bónus para os pensionistas. O primeiro-ministro limitou-se a dizer que o Governo continuará a aumentar as pensões mais baixas e a reduzir os impostos sobre rendimentos, “mal tenha a garantia” de que as finanças públicas aguentam.

Quanto ao mais — e além das referências à TAP e da já conhecida (re)entrada do Estado na REN, anunciada horas antes — houve pouco mais do que a defesa da honra de um Governo acossado pelas críticas de quem tem sido alvo à boleia do caos nos exames nacionais e do drama político em que se embrulhou Luís Neves. Montenegro, no entanto, preferiu atirar tudo isso para o plano da “maledicência” e, numa referência muito pouco indireta à comunicação social e àqueles que encaram como um “frete” destacar o que de positivo há na governação, falou contra uma “censura moderna” que prefere omitir as principais conquistas do Governo.

“Estamos concentrados em fazer de Portugal um país maior. Fazer mais e não falar assim tanto. Também isso irrita muita gente. Estamos a governar o país sempre a pensar nas pessoas. O país tem de ter coragem de falar sobre as coisas que estamos a fazer mais e falar menos das coisas que, porventura, estamos a fazer menos. Não podemos viver uma espécie de censura moderna, em que as pessoas só sabem e só debatem os assuntos mais polémicos, os pequenos episódios”, foi atirando Luís Montenegro.

Esta é, há uns largos meses, uma das queixas que se vai repetindo no interior do Governo. Como explicava o Observador na antecâmara do 43.º Congresso do PSD, ainda em junho, os sociais-democratas lamentam que o país não esteja a receber bem as ‘boas notícias’ que Luís Montenegro se tem esforçado por apresentar. Pelo contrário: o foco da opinião pública e publicada está agora nos problemas que existem e não nas expectativas que o Governo alimenta.

De resto, Luís Montenegro procurou a todo o custo enredar-se no bate-boca político e no combate partidário. A única referência que fez à polémica estival sobre as suas férias-não-férias foi para dizer aos militantes e simpatizantes presentes na Festa do Pontal para aproveitar “os finais de tarde como qualquer cidadão” e “retemperar forças para as tarefas que têm pela frente”.

Montenegro aproveitou este Pontal para tentar contrariar precisamente o ciclo de casos e casinhos em que mergulhou o Executivo. O primeiro-ministro esforçou-se por sublinhar que “o emprego em Portugal está hoje com um nível histórico”, que a economia portuguesa foi a que “mais cresceu” no último trimestre, destacou o facto de os salários líquidos terem aumentado 15% nos anos de governação da AD, recordou que este Executivo já desceu por quatro vezes o IRS (com especial atenção para os mais jovens), aumentou o salário mínimo, valorizou as pensões, valorizou carreiras da Administração Pública e já entregou 28.300 casas ao abrigo do financiamento do PRR.

Montenegro não deixou de reconhecer que o ano que passou foi particularmente duro, em grande medida graças ao comboio de tempestades, que obrigou o Executivo a despender foco, tempo e energia para responder à emergência e aos efeitos prolongados do cataclismo, e ao estalar da guerra do Médio Oriente, que aumentou o preço dos combustíveis e ajudou a esvaziar muitas despensas. O efeito conjugado destes dois fenómenos atirou a economia para um crescimento aquém daquele sempre prometido pelo Governo. Mas, neste Pontal, Luís Montenegro prometeu que, em breve, será capaz de deixar o país a crescer a 3% e, depois disso, a 4%.

Já perto do fim, o primeiro-ministro voltou ao combate político — sempre com referências muito subtis — para falar da maioria absoluta. “Dava jeito, mas não é nenhum drama“, despachou apenas Luís Montenegro. O caminho faz-se caminhando. “Vamos mesmo continuar a reformar o país. Muitas vezes, a mudança incomoda muito. Já sabemos que o país esperou muito tempo por estas mudanças. Um país não avança quando fica à espera. As transformações não se medem por gritaria. Medem-se por resultados. Os portugueses não querem barulho, nem gritaria. Querem decisão e resultado. Estamos do lado da política que importa. Da política que se sente no dia a dia.”

Os 50 anos de Pontal acontecem imediatamente antes de um período que será decisivo para a sobrevivência do II Governo de Montenegro — afinal, André Ventura e José Luís Carneiro terão de decidir se viabilizam o Orçamento do Estado para 2027 ou se arriscam atirar o Governo para os braços dos duodécimos. Setembro está aí ao virar da esquina e, com ele, todo o habitual psicodrama orçamental.

Está muito em jogo para os sociais-democratas — aliás, está muito em jogo para os três líderes que, inevitavelmente, terão de decidir quando e como querem ir a votos. Luís Montenegro, esse, não tem dúvidas: já depois de ter prometido, em maio, fazer mais e melhor do que Aníbal Cavaco Silva, o santo padroeiro deste PSD, o primeiro-ministro e líder social-democrata voltou a dizer que, quando se assinalarem os 60 anos do Pontal, em 2036, os sociais-democratas terão oportunidade de celebrar as duas décadas (85-95; 24-34) que transformaram verdadeiramente o país.