Saímos da época do “o meu vizinho é doutor, eu pergunto-lhe” para a era do “eu me conheço melhor que qualquer profissional de saúde”. Bastam alguns vídeos no TikTok, um teste de internet ou uma lista de sintomas partilhada por influencers para que milhares de pessoas concluam, com convicção, que têm PHDA, autismo, borderline, POC ou depressão. O alívio inicial de “finalmente ter um nome” é real. Mas, do ponto de vista da neuropsicologia, esse alívio pode transformar-se rapidamente num mecanismo destrutivo que altera a forma como o cérebro interpreta a realidade, reforça sintomas e dificulta a recuperação verdadeira. Num passado não muito distante existia uma completa desvalorização da saúde mental/neuro(pisco)lógica, atualmente existe um fenómeno de quase banalização, onde é trendy ser se neurodivergente.
O diagnóstico clínico exige distanciamento, critérios clínicos, história longitudinal, observação, tal como testes padronizados. O autodiagnóstico, pelo contrário, ocorre no interior do próprio sistema de crenças que está a ser avaliado. O cérebro humano é um detetor de padrões extraordinariamente sensível, mas também profundamente enviesado. O viés de confirmação, ou seja, a tendência a privilegiar informação que confirma a hipótese já formada, é um processo cognitivo automático, mediado por redes atencionais e pré-frontais. Uma vez que a pessoa “decide” que tem determinada condição, passa a interpretar distrações normais, oscilações de humor ou dificuldades sociais exclusivamente através desse filtro. O que antes era cansaço torna-se “evidência” de PHDA; o que era preferência por rotina torna-se “sintomatologia” de autismo.
O cérebro muda com a experiência e com a forma como interpretamos essa experiência. Quando uma pessoa adota um rótulo diagnóstico como identidade central, começa a comportar-se de acordo com as expectativas associadas a esse rótulo. Evita situações sociais porque “é autista”, procrastina porque “tem PHDA”, interpreta conflitos relacionais como prova de “traços borderline”. Com o tempo, esses comportamentos reforçam vias neurais específicas e enfraquecem outras. O que começou como uma hipótese torna-se, parcialmente, uma realidade construída pela própria pessoa. “Afinal tenho perturbação do espectro do autismo ou sinto-me autista?”
A fusão excessiva com o diagnóstico reduz a flexibilidade psicológica, uma função executiva essencial que é mediada pelo córtex pré-frontal. Ao invés de “estou a ter dificuldade de concentração porque dormi mal e estou sob stress”, a narrativa torna-se “eu tenho PHDA, por isso não consigo”. Esta mudança de locus de controlo interno para externo diminui a percepção de agência e pode agravar desespero e desistência.
Os sintomas de muitas condições sobrepõem-se de forma significativa. Ansiedade social pode parecer autismo; trauma pode imitar PHDA; depressão pode parecer apatia autista; compulsões podem ser confundidas com traços de personalidade. Sem avaliação diferencial, a pessoa pode investir tempo, energia e identidade num caminho terapêutico inadequado, enquanto a verdadeira dificuldade continua sem intervenção. Atrasos no tratamento correto não são neutros: em jovens, especialmente, janelas de intervenção mais eficazes podem fechar-se.
Além disso, a banalização dos diagnósticos nas redes sociais dilui o significado clínico das condições. Quando “todo o mundo tem um pouco de PHDA”, o sofrimento real de quem tem a perturbação em grau funcionalmente incapacitante tende a ser desvalorizado. Paradoxalmente, o movimento que pretendeu dar voz a quem sofre pode acabar por silenciar quem mais precisa de reconhecimento e recursos.
Criticar o autodiagnóstico não é negar o sofrimento nem defender o elitismo profissional. É reconhecer os limites do autocumprimento. Informar-se é legítimo e, muitas vezes, o primeiro passo para procurar ajuda. A avaliação neuropsicológica e clínica séria existe precisamente porque o cérebro humano, sozinho, é um mau juiz de si mesmo: está demasiado envolvido, demasiado enviesado e demasiado influenciável por narrativas culturais e arrisco-me a dizer ideológicas do momento.
O autodiagnóstico tem um poder destrutivo real porque atua exatamente onde o cérebro é mais vulnerável: na construção da identidade, na atribuição de significado às experiências e na capacidade de mudar. Dar um nome ao sofrimento pode ser libertador. Dar o nome errado, e agarrar-se a ele com convicção, pode ser uma prisão neuropsicológica.