Recentemente, tenho dado por mim a refletir sobre o papel e a importância de Portugal no mundo. País europeu, geograficamente periférico e de dimensão reduzida, nas últimas décadas tem sido essa a ideia com a qual nos habituámos a definir Portugal. Geograficamente, é uma realidade. Mas talvez seja uma forma demasiado limitada de pensar o nosso lugar no mundo.
Durante os primeiros séculos da nossa história, Portugal viveu essencialmente condicionado pela realidade peninsular. A sua posição geográfica e os (des)equilíbrios de poder existentes na Península contribuíram para que procurássemos no Atlântico a profundidade que dificilmente poderíamos encontrar em terra. Virámo-nos para o mar e, durante cinco séculos, construímos uma presença que atravessou África, América e Ásia.
Não sendo o Império o ponto principal desta reflexão, também não pode ser ignorado. É um marco incontornável na nossa história e fundamental para compreender o Portugal contemporâneo. O Império desapareceu, os povos tornaram-se independentes e o mundo transformou-se. Permaneceram, contudo, relações humanas e culturais profundas e, acima de tudo, uma língua hoje partilhada por centenas de milhões de pessoas ao longo do globo.
A democratização e o projeto europeu representaram uma nova transformação. Portugal encontrou na Europa um projeto político, económico e institucional ao qual hoje pertence de forma inequívoca. No entanto, será que tornar Portugal um país mais europeu exigiu que abandonássemos a nossa vertente atlântica? Não estará a grande oportunidade portuguesa precisamente na capacidade de conseguirmos ser as duas coisas?
Seria injusto, é claro, afirmar que esta multidimensionalidade tenha sido ignorada. A participação portuguesa na União Europeia e na NATO, a criação da CPLP e a extensa presença diplomática portuguesa demonstram uma política externa que há muito reconhece as diferentes dimensões do país. A questão não reside, assim, na ausência de instrumentos, mas na possibilidade de explorar ainda mais a complementaridade entre eles e de transformar espaços de proximidade em verdadeira capacidade de influência.
Do outro lado do Atlântico, Portugal encontra o maior país da América do Sul, uma das maiores economias do mundo e mais de duzentos milhões de pessoas com as quais partilhamos a mesma língua. No Brasil, Portugal não é apenas mais um Estado europeu. Existe uma proximidade humana, cultural e histórica que nos coloca numa posição diferente da maioria dos nossos parceiros europeus. A profundidade dos laços entre os dois países não pode ser ignorada.
Portugal não se deve assumir como um simples intermediário entre o Brasil e a Europa. Ser ponte só possui verdadeiro valor estratégico quando essa capacidade de aproximação reforça também quem a exerce. Devemos utilizar esta posição para aprofundar as relações económicas, políticas, culturais e científicas com o Brasil, reforçando o nosso papel e presença no país e contribuindo, simultaneamente, para uma aproximação entre este e a Europa.
Em África encontra-se outra dimensão da mesma realidade. O português é língua oficial desde o extremo ocidental africano até à África Austral. Portugal mantém com os PALOP relações históricas e culturais que, apesar das complexidades inerentes ao passado, criaram espaços de proximidade que não existem da mesma forma para a maioria dos Estados europeus.
Estas relações não são, naturalmente, uniformes. Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe apresentam realidades, interesses e desafios distintos. A língua comum, o conhecimento mútuo e as relações construídas ao longo de décadas podem constituir instrumentos particularmente relevantes para aprofundar a cooperação económica, política, académica e cultural, reforçar a presença portuguesa no continente e valorizar, no próprio contexto europeu, o conhecimento e as relações que Portugal mantém com estes países.
A história não nos concede, porém, qualquer direito especial. Precisamente por isso, estas relações devem ser encaradas não apenas como uma memória do passado, mas como uma oportunidade de construir o futuro.
Importa ainda compreender que a dimensão atlântica de Portugal não é exclusivamente uma herança histórica. A nossa posição geográfica, juntamente com os Açores e a Madeira, confere-nos uma presença no Atlântico que continua a ter importância estratégica. Num contexto internacional em que questões de segurança, energia, comunicações e rotas marítimas assumem uma relevância crescente, a geografia portuguesa permanece também ela um ativo.
Num mundo cada vez mais multipolar, esta capacidade de Portugal dialogar com diferentes espaços será ainda mais importante. À medida que novos centros de poder se afirmam e os equilíbrios internacionais se tornam mais complexos, aumenta também o valor dos Estados capazes de estabelecer relações, compreender diferentes realidades e construir consensos.
Portugal pode estar em Bruxelas como país plenamente europeu e, ao mesmo tempo, dialogar com particular proximidade com Brasília, Luanda, Maputo, Praia ou Díli. Pode encontrar na União Europeia uma plataforma para valorizar as suas relações atlânticas e lusófonas e, nessas mesmas relações, uma forma de reforçar a sua relevância dentro da Europa. Uma dimensão não diminui a outra. Pelo contrário, é na sua conjugação que poderá residir uma parte importante da força da política externa portuguesa.
A história deixou-nos uma rede de relações muito superior à dimensão do nosso território. Não nos garante influência, nem nos confere qualquer estatuto especial. A influência não se herda, constrói-se. O desafio está em transformar essa posição histórica singular numa estratégia contemporânea capaz de defender os nossos interesses, reforçar a nossa soberania e afirmar uma voz própria no sistema internacional.