Há dois anos, quase ninguém sabia o que era um agonista do recetor de GLP-1. Hoje, é difícil não conhecer alguém a tomar um destes medicamentos — cujas substâncias ativas se chamam semaglutido e tirzepatido, comercializados sob diferentes marcas consoante a indicação (diabetes ou obesidade) e o fabricante — para a diabetes, para emagrecer, ou pelas duas razões ao mesmo tempo. São medicamentos genuinamente notáveis: reduzem o peso corporal em proporções que, até há pouco tempo, só a cirurgia bariátrica conseguia atingir. Mas há uma questão que habitualmente não se coloca na conversa entre indivíduos, sobretudo os mais idosos, e que urge esclarecer: o peso que se perde é só gordura ou é também músculo?
A resposta a este quesito está muito bem sustentada em vários estudos publicados nos últimos anos. E é incómoda: uma fração relevante do peso perdido com estes medicamentos é massa muscular — nalguns casos, cerca de 35% a 40% do total. Isto não seria grave num adulto jovem e saudável, mas em indivíduos com mais de 65 ou 70 anos, que já perdem massa muscular naturalmente com a idade, essa perda extra pode condicionar o indivíduo para uma entidade clínica que tem nome próprio na literatura médica, mas que quase ninguém conhece fora dos hospitais: obesidade sarcopénica.
Chama-se assim à combinação de excesso de gordura com perda de força e de massa muscular na mesma pessoa. Não é apenas “estar gordo e fraco” — é uma síndrome com consequências mensuráveis: está associada a mais quedas, mais fraturas, mais doença cardiovascular, mais mortalidade do que qualquer uma das duas condições isoladas. Um estudo com mais de 160 mil pessoas mostrou quase o dobro do risco de eventos cardiovasculares em quem tem esta combinação, em comparação com quem não tem nenhuma das duas. E, ainda assim, é uma condição para a qual a maioria dos médicos de medicina geral e familiar não está sensibilizada e sobre a qual a maioria dos doentes nunca ouviu falar em consulta.
Isto importa agora, mais do que nunca, precisamente pela relevância e popularidade destes fármacos. Uma meta-análise publicada este ano, que reuniu dados de 20 ensaios clínicos e mais de 15 mil pessoas, mostrou algo interessante: a proporção de músculo perdida com estes fármacos não é, no fundo, muito diferente da que se perde com uma dieta tradicional bem-sucedida. O problema não é exclusivo do medicamento — é consequência de qualquer emagrecimento significativo, efetuado da forma como normalmente é feito: sem exercício de força associado. E há uma conclusão muito relevante nessa mesma meta-análise, que deveria ser enfatizada ao efetuar a prescrição destes fármacos: quando se junta treino de força ao tratamento, a perda de músculo reduz-se a quase metade.
Ou seja: não se trata de escolher entre emagrecer e manter a massa muscular. Trata-se de o fazer assegurando ambas ao mesmo tempo — e isso, hoje, raramente acontece na prática clínica. Os ensaios clínicos que sustentaram a aprovação destes medicamentos foram desenhados para medir quilos perdidos e valores de açúcar no sangue, não a força nas pernas ou a capacidade de se levantar de uma cadeira sem auxílio. Ninguém verifica sistematicamente se o indivíduo de 72 anos, que está a perder peso rapidamente com um destes fármacos, continua a ter a capacidade de subir escadas e com a mesma facilidade de há seis meses.
No entanto, e com base em estudos robustos, há quem sustente que esta preocupação está a ser exagerada — o argumento é que o que importa não são os quilos de músculo perdidos, mas a força que resta, e que essa força, em relação à capacidade prévia, pode até melhorar com estes tratamentos, porque há menos peso para o corpo sustentar. É um argumento razoável, e vale a pena que fique registado, pois ainda não há consenso sobre este tema.
Mas mesmo essa conclusão mais simplista e otimista concorda num ponto essencial: o que deveria ser medido, e quase nunca é, é a força e a capacidade funcional da pessoa — não apenas o ponteiro da balança.
Esta evidência, bem sustentada em estudos robustos, deveria condicionar no imediato duas medidas. A primeira é simples e linear na sua implementação: qualquer pessoa mais idosa a iniciar um destes medicamentos deveria sair da farmácia com uma indicação clara — comer proteína suficiente em cada refeição e, dependendo da sua capacidade, fazer exercícios de força duas a três vezes por semana. Não é um extra opcional. É parte do tratamento, tanto quanto a própria “injeção”. A segunda é uma mudança da prática clínica, seguramente de implementação mais lenta, mas importante: os médicos de medicina geral e familiar e os Internistas e geriatras precisam de dispor de questionários simples e rápidos para avaliar e monitorizar isto em consulta — quanto tempo demora a pessoa a levantar-se de uma cadeira, se tem tido quedas, se sente as pernas mais fracas — sem depender de exames complexos e dispendiosos que a maioria dos centros de saúde não dispõe. Estas ferramentas já existem, são gratuitas e demoram menos de dois minutos a aplicar. O que falta é aplicá-las sistematicamente.
Os medicamentos para a obesidade são, sem qualquer dúvida, um dos mais notáveis avanços da medicina nos últimos anos. Mas um tratamento que faz uma pessoa de 75 anos perder peso à custa da perda de força que lhe permite ser independente não é, na prática, um sucesso — é um problema disfarçado de solução. E esse é um debate e temática que ainda não está a acontecer nem nos consultórios, nem nas conversas de café, e que urge clarificar.