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A fragilidade do transactivismo português perante os factos

Os transactivistas que preferem a denúncia de rostos à confrontação com os factos estão a fazer exactamente o que a WPATH fez durante anos: proteger a narrativa à custa da verdade e das crianças.

Maria Helena Costa
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A nível internacional, a ideologia de género está a cair como um castelo de cartas, tornando evidente a fragilidade do transactivismo português perante os factos. Enquanto nos Estados Unidos a World Professional Association for Transgender Health (WPATH) se vê forçada a admitir, em tribunal, que as suas badaladas Standards of Care (SOC-8) não passam de “opiniões” — uma mera “expressão de liberdade de expressão” e “um lado de um debate marcado por incerteza médica e científica” —, e enquanto o vice-presidente JD Vance exige ao Departamento de Justiça a perseguição criminal de alegada fraude em tratamentos de transição em adolescentes, em Portugal os transactivistas continuam a fazer de conta que nada se passa. Preferem o insulto, a exposição pública de rostos e a retórica do “risco de vida” a confrontar a evidência que desmonta o modelo afirmativo.

A notícia do Washington Examiner é clara: no processo por alegadas práticas enganosas movido pela FTC e por vários estados, a WPATH recua e classifica as suas próprias directrizes (guidelines) como meras opiniões, isentando-se de responsabilidade e transferindo-a para os clínicos que as seguem. Durante anos, essas mesmas directrizes foram brandidas como o “padrão-ouro” científico para justificar bloqueadores de puberdade, hormonas de sexo cruzado e cirurgias em menores. Descobriu-se, através da partilha obrigatória de provas no tribunal, que a WPATH ignorou revisões sistemáticas, suprimiu dados desfavoráveis, sofreu pressões políticas e operou com conflitos de interesses massivos. As Normas de Orientação Clínica (SOC-8) foram desenhadas, em parte, para garantir o reembolso de seguros e proteger clínicos de responsabilidade, não para reflectir a ciência.

Paralelamente, o relatório do HHS “Wolves in White Coats” documenta padrões de facturação suspeitos: milhões de dólares em reclamações de seguros e Medicaid para bloqueadores de puberdade em adolescentes, muitas vezes com diagnósticos genéricos que não correspondem à realidade clínica. JD Vance foi directo: se houve codificação intencional para obter cobertura de intervenções que de outra forma não seriam pagas, trata-se de fraude. “Se o fizeram intencionalmente… devem ir para a prisão.”

A Europa já virou a página. O Cass Review e as restrições na Suécia, Finlândia, Noruega e França mostram que o modelo afirmativo não reduz o risco de suicídio de forma mensurável e causa danos iatrogénicos graves. A ‘urgência’ afirmativa revelou-se, em muitos casos, iatrogenia ideológica.

E em Portugal? 

Enquanto esta derrocada se desenrola, um transactivista no Instagram publica um carrossel que identifica os três deputados do PSD que assinaram o requerimento para ouvir entidades — Paulo Lopes Marcelo, António Rodrigues e Nuno Gonçalves — e ordena: “Não se esqueçam da cara… não se esqueçam de nenhuma destas caras. A nossa vida, a nossa dignidade e a nossa segurança estão em risco, graças a estes senhores.”

Analisemos as falácias: argumento ad hominem e exposição pública de rostos; apelo ao medo e à emoção; ignorância olímpica da evidência internacional; distorção do processo democrático; e colectivização de uma “comunidade” que não é unânime.

Mas o ponto mais grave é outro. Os transactivistas portugueses insistem em ignorar que a preocupação dos profissionais de saúde, dos investigadores independentes, dos destransicionadores e de todos aqueles que eles insultam e tentam cancelar são os menores de idade. Não se trata de “ódio a pessoas trans”. Trata-se de proteger crianças e adolescentes — muitos com autismo, trauma, depressão ou ansiedade — de um percurso de medicalização, hormonização e, em termos de consequências reprodutivas e sexuais, castração química e cirúrgica. Bloqueadores de puberdade, hormonas de sexo cruzado e cirurgias em corpos ainda em desenvolvimento produzem esterilidade permanente, perda de função sexual e dependência médica vitalícia. Esta é a linha vermelha que os activistas se recusam a reconhecer.

E então surge a pergunta que se impõe, e que eles evitam a todo o custo: qual é o interesse dos transactivistas na medicalização, hormonização e castração das crianças?

Não é protecção. A evidência mostra o contrário. O interesse parece ser a manutenção de uma narrativa ideológica intacta, a expansão da “comunidade” através da captura precoce de jovens vulneráveis (o contágio social está documentado), a protecção das estruturas de poder e o financiamento de clínicas e associações, bem como a recusa em admitir que muitas destas intervenções são experimentais e irreversíveis. Quando se grita “as nossas vidas estão em risco” contra quem apenas quer ouvir especialistas e proteger menores, inverte-se a realidade: quem está em risco real são as crianças.

A perspectiva crítica de género não nega o sofrimento do transtorno da identidade sexual (disforia de género). Nega que o sexo seja um espectro alterável por declaração ou por fármacos. Exige evidência de alta qualidade antes de medicalizar corpos saudáveis. E exige que os decisores políticos ouçam essa evidência — não apenas os activistas que gritam mais alto.

Os transactivistas que preferem a denúncia de rostos à confrontação com os factos estão a fazer exactamente o que a WPATH fez durante anos: proteger a narrativa à custa da verdade e das crianças. A derrocada internacional da “medicina de género afirmativa” já aconteceu. Continuar a ignorá-la não é resistência. É negacionismo. E o negacionismo, quando aplicado a menores, tem um preço humano mensurável.

Portugal tem o direito — e o dever — de ouvir todos. Quem transforma essa audição em “risco de vida” revela, mais do que qualquer manifesto, o quão frágil se tornou a sua posição quando a ciência deixou de ser cómoda.