Comparar Jesus e Maomé não é, por si só, um exercício de má-fé. É uma pergunta legítima: que relação tiveram os fundadores de duas das maiores religiões do mundo com a violência, o poder político e o uso da força?
A resposta exige rigor. Não para negar a violência praticada posteriormente em nome do cristianismo ou do Islão, mas precisamente para distinguir aquilo que fizeram os seus seguidores daquilo que fizeram os próprios fundadores.
E, quando olhamos para os registos que chegaram até nós, emerge uma diferença difícil de ignorar.
Jesus: a força sem a espada
Nos Evangelhos canónicos não encontramos qualquer episódio em que Jesus lidere um exército, ordene uma execução ou utilize a violência para conquistar poder político.
Jesus viveu sob ocupação romana. Pregou durante cerca de três anos e morreu executado pelo poder político do seu tempo.
Mas nunca respondeu à opressão com um exército.
No jardim de Getsémani, quando Pedro puxou de uma espada e feriu um dos homens que vinham prender Jesus, a resposta foi inequívoca: Jesus mandou guardar a espada e, segundo o Evangelho de Lucas, curou o homem ferido.
É talvez o momento mais revelador de toda a narrativa evangélica.
Quando um dos seus seguidores transforma a defesa da fé numa agressão física, Jesus não o encoraja. Repreende-o.
A mensagem é coerente com aquilo que já tinha ensinado: amar os inimigos, perdoar, oferecer a outra face e rezar por aqueles que perseguem.
Jesus não procurou conquistar Jerusalém pela força. Não criou uma milícia. Não tentou tomar o poder de Roma.
Quando interrogado por Pilatos, afirmou que o seu reino não era deste mundo.
E quando chegou o momento de escolher entre resistir pela espada ou aceitar o sacrifício, escolheu o sacrifício.
Isto não significa que os Evangelhos apresentem um Jesus passivo ou indiferente ao mal. No Templo de Jerusalém, expulsou os vendilhões com um chicote de cordas, num episódio de forte indignação profética. Mas não há nesse episódio uma ordem para matar, uma execução ou uma campanha militar.
Também a famosa frase “não vim trazer a paz, mas a espada” não aparece, no contexto dos Evangelhos, como um apelo à guerra. A leitura tradicional entende a “espada” como imagem da divisão que a adesão a uma nova fé poderia provocar entre familiares e comunidades.
E o episódio de Getsémani é revelador precisamente porque impede uma leitura literal da espada como instrumento de ação dos discípulos.
Jesus colocou no centro da sua mensagem uma ética radical de amor, perdão e renúncia à violência como instrumento de poder.
Maomé: profeta, governante e comandante
A experiência de Maomé foi diferente.
Depois de anos de pregação em Meca, Maomé tornou-se, em Medina, simultaneamente líder religioso, chefe político, legislador e comandante militar.
Ao longo da sua vida em Medina, as fontes islâmicas tradicionais descrevem batalhas, expedições, alianças e conflitos armados.
Não se trata de uma acusação inventada por adversários do Islão. Faz parte da própria tradição histórica islâmica.
Um dos episódios mais controversos é o de Banu Qurayza, em Medina, após a Batalha da Trincheira, em 627.
Segundo as fontes narrativas clássicas, a tribo foi acusada de traição e, depois da rendição, os homens foram condenados à morte e mulheres e crianças foram escravizadas.
As fontes divergem quanto ao número exato de executados. A tradição apresenta números que chegam a várias centenas, embora historiadores modernos tenham questionado a dimensão desses números e a forma como o episódio foi transmitido.
Essa cautela é importante.
Mas também é importante não fingir que o episódio simplesmente não existe.
Na conquista de Meca, em 630, encontramos igualmente um episódio que impede uma caricatura simples de Maomé.
Depois de anos de conflito, Maomé concedeu uma amnistia geral a grande parte dos habitantes da cidade. Ao mesmo tempo, algumas pessoas foram excluídas dessa amnistia e executadas.
Entre elas aparece Abdullah ibn Khatal, cuja morte é também registada na tradição hadítica sunita, incluindo o Sahih al-Bukhari.
Ou seja: a figura histórica de Maomé não cabe nem na caricatura do conquistador sanguinário nem na tentativa de apagar completamente a dimensão militar da sua liderança.
Ele foi profeta, mas foi também governante e comandante.
E essa diferença importa.
A questão da apostasia
A diferença torna-se ainda mais relevante quando passamos da biografia para a tradição jurídica.
O Alcorão não estabelece de forma simples e explícita uma pena terrena de morte para quem abandona o Islão. Mas a tradição jurídica islâmica clássica desenvolveu, durante séculos, a pena capital para determinados casos de apostasia, apoiando-se sobretudo em hadiths atribuídos a Maomé.
O exemplo mais conhecido é a formulação tradicional segundo a qual quem muda de religião deve ser morto.
Hoje, esta interpretação é contestada por académicos e muçulmanos reformistas. Muitos defendem que a regra pertence ao contexto político e militar do século VII e não deve ser aplicada como princípio universal.
Essa discussão contemporânea é legítima.
Mas não elimina um facto histórico: durante grande parte da história jurídica islâmica, a apostasia foi tratada por muitos juristas como uma questão que podia justificar uma punição extrema.
E aqui regressamos à diferença inicial.
Jesus não deixou uma tradição jurídica em que abandonar a sua fé implicasse uma pena de morte estabelecida pelos seus próprios ensinamentos.
E a violência cristã?
Seria intelectualmente desonesto ignorá-la.
A Bíblia hebraica, que os cristãos integram nas suas Escrituras, contém episódios de guerras e de violência extrema. A história posterior do cristianismo inclui Cruzadas, Inquisição, guerras religiosas, perseguições e inúmeras outras formas de violência.
Tudo isso deve ser estudado e reconhecido.
Mas há uma distinção que não deve desaparecer no meio dessa comparação.
As Cruzadas não foram comandadas por Jesus.
A Inquisição não foi instituída por Jesus.
As guerras religiosas europeias não foram travadas por Jesus.
Nenhum desses acontecimentos pode ser apresentado como uma campanha militar liderada pelo fundador do cristianismo.
E, sobretudo, quando um cristão utiliza a violência para impor a fé, encontra-se perante um problema difícil de resolver: o próprio fundador que invoca recusou a espada quando ela lhe foi colocada nas mãos dos seus seguidores.
O exemplo de Jesus funciona, portanto, também como uma acusação contra a violência cometida em seu nome.
Dois fundadores, duas relações com o poder
É aqui que a comparação se torna verdadeiramente interessante.
Jesus recusou o poder político e não construiu um Estado.
Maomé construiu uma comunidade política que se tornou um Estado.
Jesus não liderou um exército.
Maomé liderou forças militares.
Jesus foi executado pelo poder político.
Maomé terminou a sua vida como líder político e militar de uma comunidade que controlava grande parte da Arábia.
São contextos históricos diferentes. E precisamente por isso não devemos julgá-los como se fossem personagens colocadas perante as mesmas circunstâncias.
Mas também não devemos fingir que essa diferença não tem consequências para a natureza das duas tradições.
Jesus colocou a renúncia à violência, o amor ao inimigo e o perdão no centro da sua autoridade moral.
Maomé combinou autoridade religiosa, poder político e comando militar.
É uma diferença estrutural, não apenas biográfica.
A pergunta que permanece
Talvez seja por isso que a comparação continue a ser tão incómoda.
Não é necessário dizer que todos os cristãos são pacíficos.
Não é necessário dizer que todos os muçulmanos são violentos.
Ambas as afirmações seriam absurdas e historicamente indefensáveis.
A questão é outra.
Quando um cristão medieval ou moderno recorre à violência para impor a sua fé, pode encontrar precedentes na longa história dos próprios cristãos, mas entra também em contradição direta com o exemplo do seu fundador.
Quando um governante ou jurista islâmico recorre à guerra ou à coerção, encontra na história fundacional do Islão uma figura que foi simultaneamente profeta, legislador, governante e comandante militar.
É essa diferença que merece ser discutida sem medo e sem slogans.
Jesus não precisou de um exército para que a sua mensagem sobrevivesse.
Não conquistou territórios.
Não executou adversários.
Não construiu um Estado.
Aceitou a própria morte e transformou o perdão numa das maiores expressões da sua autoridade.
Talvez esteja aí a verdadeira força da sua mensagem.
Porque há uma forma de poder que conquista pela espada.
E há outra que aceita morrer sem a usar.
É essa segunda forma de poder que Jesus deixou como legado.
E talvez seja precisamente por isso que, dois mil anos depois, a imagem de um homem crucificado continue a falar mais alto do que a de qualquer conquistador.