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O centenário de Fidel Castro e uma revolução que é uma marca

Cuba não é apenas uma experiência romântica de resistência ou a fotografia de Che Guevara. É uma história de prisões políticas, censura, perseguição de dissidentes e ausência de liberdade.

Miguel Braz
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Fidel Castro teria feito 100 anos no passado dia 13 de agosto (as más línguas diriam que na realidade faria 99). Fidel continua presente na política cubana, na memória da esquerda latino-americana, na história da Guerra Fria e, talvez mais do que tudo, na imagem que o mundo construiu de Cuba. É difícil falar da ilha sem falar de Fidel. E talvez essa seja uma das suas maiores vitórias políticas, ou seja, Fidel Castro não construiu apenas um regime, construiu uma narrativa. E essa narrativa transformou-se numa das marcas políticas mais bem-sucedidas do século XX.

Há qualquer coisa de profundamente irónico nisto. Um regime que passou décadas a denunciar os pecados do capitalismo, do consumismo e do imperialismo norte-americano acabou por produzir uma das marcas mais reconhecíveis da cultura global. A barba de Fidel, a boina, a fotografia de Che Guevara, os charutos, os carros americanos dos anos 50, a música, Havana romântica, as praias, a Sierra Maestra, a pequena ilha que desafia o gigante americano. Cuba não é apenas um país, para milhões de pessoas, tornou-se uma estética e um ideal.

A Revolução Cubana de 1959 não aconteceu num vazio. A Cuba de Fulgencio Batista não era uma democracia e seria absurdo romantizar o regime que Fidel derrubou. Existia corrupção, repressão política, desigualdade profunda e enormes problemas sociais, sobretudo fora dos centros urbanos. Mas também é importante não aceitar a narrativa segundo a qual Fidel encontrou uma espécie de país atrasado e miserável e o transformou numa sociedade moderna. Cuba era, antes da revolução, uma das economias relativamente mais desenvolvidas da América Latina em vários indicadores, com uma grande concentração urbana, uma economia fortemente integrada com os EUA e níveis de consumo e infraestruturas que a distinguiam de grande parte da região. A realidade era muito mais contraditória do que a história oficial da revolução posteriormente sugeriu.

A promessa de Fidel seria acabar com a corrupção, devolver a soberania ao povo cubano, destruir a influência americana e construir uma sociedade mais justa. Para uma parte significativa dos cubanos, sobretudo nos primeiros anos, era uma promessa genuinamente mobilizadora. Mas a revolução depressa deixou de ser apenas uma mudança de governo. Tornou-se numa transformação total da sociedade. Nacionalizou empresas, eliminou a propriedade privada em grande escala, concentrou o poder político e económico e construiu um sistema de partido único. E, ao mesmo tempo que dizia representar a libertação do povo, começou a tornar cada vez mais perigoso discordar da revolução.

É importante perceber isto, porque Cuba não foi simplesmente uma versão caribenha da União Soviética. Foi, em muitos aspectos, algo mais sofisticado do ponto de vista político. O comunismo forneceu o sistema económico e institucional, mas a revolução cubana forneceu a identidade. Fidel não era apenas o chefe de Estado, era o comandante, o fundador, o homem que personificava a própria revolução. A revolução não era apresentada como um acontecimento do passado, mas como um processo permanente, uma luta contínua contra os seus inimigos.

A geografia ajudou e a história também. Uma pequena ilha a poucos quilómetros da Florida, governada por revolucionários marxistas, tornou-se o adversário mais improvável da maior potência mundial. A Baía dos Porcos, a crise dos mísseis, o embargo e a Guerra Fria deram a Fidel todos os ingredientes para construir uma narrativa extraordinariamente simples, que Cuba era um pequeno país soberano que resistia ao império americano. Funcionou dentro de Cuba, onde a ameaça externa podia ser utilizada para justificar sacrifícios, controlo político e repressão. E funcionou fora de Cuba, sobretudo entre setores da esquerda ocidental, academia e entre movimentos anticoloniais e revolucionários do chamado Terceiro Mundo (Países em vias de desenvolvimento). A revolução cubana passou a representar muito mais do que Cuba, tornando-se num símbolo de resistência, soberania e anti-imperialismo.

Uma das nuances mais extraordinárias da história de Cuba é a desproporção entre o tamanho do país e a dimensão da sua intervenção internacional. Cuba enviou militares para conflitos em África e no Médio Oriente e apoiou movimentos revolucionários e governos aliados em várias partes do mundo. Angola é provavelmente o exemplo mais interessante, porque nos toca. Em 1975, no momento da independência, Cuba lançou a Operação Carlota e começou a enviar tropas para apoiar o MPLA. A intervenção cresceu rapidamente e acabaria por prolongar-se até 1991. Uma revolução que tinha começado numa ilha das Caraíbas acabaria por ter uma intervenção militar direta numa guerra africana que nasceu, em parte, do processo de descolonização português. Cuba tornou-se, assim, uma potência muito maior do que a sua geografia e recursos permitiriam imaginar.

Mas há uma nuance importante, Fidel não fez tudo isto sozinho. Durante décadas, a União Soviética foi essencial para sustentar economicamente e estrategicamente o regime cubano. Moscovo fornecia petróleo, crédito, comércio preferencial, armamento e apoio político. Cuba podia, por isso, ter uma política externa extraordinariamente ambiciosa porque existia uma grande potência no apoio. A queda do Muro de Berlim e, sobretudo, o colapso da União Soviética provocaram uma crise económica devastadora em Cuba. Foi o chamado “Período Especial”. De repente, desapareceu grande parte do sistema económico que tinha sustentado a ilha durante décadas. E talvez não exista melhor demonstração da dependência do modelo cubano do que aquilo que aconteceu quando o seu principal financiador deixou de existir. Uma das explicações mais repetidas para a pobreza cubana é simples, o embargo americano. E seria intelectualmente desonesto fingir que o embargo não tem consequências. As restrições americanas dificultaram o acesso de Cuba a financiamento, comércio e determinados bens, e continuam a afetar a economia cubana. Mas transformar o embargo na explicação para tudo é demasiado conveniente. Cuba não vive num planeta isolado dos EUA, sendo que mantém relações comerciais e diplomáticas com grande parte do mundo. O problema é que uma economia também depende das instituições que a organizam, e durante décadas, Cuba construiu uma economia extremamente centralizada, burocrática e pouco eficiente, na qual o Estado controla grande parte da atividade económica e onde a corrupção é endémica.

Aliás, o próprio regime começou a reconhecer, ainda que lentamente, que alguma coisa precisa de mudar. Nos últimos anos foram autorizadas milhares de pequenas empresas privadas, enquanto o governo tem introduzido medidas de maior flexibilidade económica e mecanismos de mercado. Em 2025, o próprio programa económico do Governo cubano previa novas alterações na gestão cambial, maior utilização de mecanismos de mercado e uma dolarização parcial da economia. Talvez isto diga mais sobre a situação de Cuba do que qualquer discurso político, porque existe uma parte desta história que não pode ser transformada em estética: as pessoas. Ao longo de décadas, milhões de cubanos deixaram Cuba (muitos em jangadas e barcos rústicos ou improvisados até à vizinha Florida).

É difícil olhar para esta história e continuar a falar de Cuba apenas como uma experiência romântica de resistência. O regime não é apenas uma fotografia de Che Guevara. É também uma história de prisões políticas, censura, perseguição de dissidentes e ausência de liberdade de imprensa e de expressão. A repressão não terminou com Fidel, e aqui está talvez a maior contradição da marca Cuba. O regime conseguiu vender ao mundo uma imagem de liberdade enquanto restringia profundamente às liberdades dentro do próprio país. Che Guevara tornou-se uma imagem global. A fotografia de Alberto Korda apareceu em t-shirts, posters, capas de livros e milhares de produtos comerciais. Uma fotografia destinada a representar uma revolução contra o capitalismo transformou-se num dos produtos mais facilmente comercializáveis da cultura capitalista. Há poucas ironias históricas tão perfeitas. O mesmo aconteceu com Havana, onde a decadência tornou-se estética. Os prédios envelhecidos tornaram-se fotogénicos, os carros antigos tornaram-se símbolos, o charuto tornou-se sinónimo de Cuba. A pobreza foi, em alguns contextos, transformada em autenticidade. E a revolução transformou-se numa espécie de produto cultural que podia ser consumido sem que fosse necessário conhecer muito sobre aquilo que acontecia dentro do país. Talvez seja essa a verdadeira genialidade política de Fidel, que é compreender que uma revolução também precisava de uma imagem. É por isso que Cuba é um caso tão fascinante. É uma pequena ilha que conseguiu influenciar países incomparavelmente maiores. Influenciou movimentos revolucionários na América Latina, interveio militarmente em África, tornou-se um ator importante da Guerra Fria e acabaria por exercer uma influência extraordinária sobre a Venezuela de Hugo Chávez, já nos anos 90. A comparação com a Venezuela é inevitável, embora as histórias sejam diferentes. Chávez encontrou também um país com problemas reais, desigualdade, corrupção e instituições desacreditadas. Conseguiu transformar essas frustrações numa narrativa política poderosa, prometendo devolver o poder ao povo e reconstruir a nação. Mas a influência de Chávez nunca alcançou a dimensão internacional de Fidel.

Hoje, não sabemos onde estas mudanças vão levar Cuba. Podem ser lentas, podem ser interrompidas, podem produzir uma abertura económica sem uma verdadeira abertura política. Podem, um dia, levar a uma transformação muito mais profunda. Mas há uma coisa que parece cada vez mais difícil, que é manter indefinidamente uma revolução baseada apenas na memória dessa revolução. Cuba é uma ilha extraordinária, tem uma cultura extraordinária, paisagens extraordinárias e, sobretudo, pessoas que não podem ser confundidas com o regime que as governa. Mas talvez seja tempo de deixar de romantizá-la. Podemos reconhecer os crimes e os excessos da Cuba de Batista sem transformar Fidel Castro num libertador. Podemos reconhecer as consequências reais do embargo americano sem transformar o embargo na explicação para todas as falhas do sistema cubano. Podemos reconhecer que a Revolução cubana teve conquistas sociais importantes sem fingir que essas conquistas exigiam necessariamente uma ditadura repressiva. E podemos reconhecer a importância histórica de Fidel sem transformar a sua história de forma romântica e benigna. Cá fora, não precisamos de mudar Cuba, porque isso cabe aos cubanos. Mas podemos fazer uma coisa muito mais simples, que é deixar de deturpar a história e memória dos cubanos que fugiram, foram silenciados, presos ou morreram às mãos do regime. Ou pelo menos, podemos deixar de comprar t-shirts do Che Guevara.