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(A) :: Às novas gerações sem Partido Único

Às novas gerações sem Partido Único

Nada parecia suficiente para desmanchar a reputação supostamente impoluta e desinteressada de cidadãos politicamente e ideologicamente febris. Ao fim de décadas, a máscara caiu.

Paulo Pinto
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To a New Generation. É assim, com esta dedicatória, que Churchill inicia os relatos da sua primeira parte da vida, da sua juventude, no livro My Early Life. Talvez, no fundo, seja essa a principal preocupação de um colunista, ou, provavelmente, de qualquer escritor, lançar uma luz sobre matérias que exijam uma atenção redobrada. Escreve-se para o futuro. A última geração, aquela a quem eu tenho lecionado, desconhecerá a sobranceria – e o pior de tudo, perante a conivência e a passividade da comunicação social – com que os comunistas diziam enormidades a respeito de tudo e de todos, emitindo diretivas que controlavam o discurso e a ordem do dia políticos. Estes jovens, a maioria à direita do espectro ideológico, ignoram que, por exemplo, anos atrás, era possível uma deputada comunista em horário nobre afirmar, com o típico desplante da extrema-esquerda, que o sinal de saúde e vitalidade de uma democracia era precisamente a aceitação e a tolerância com que se permitia e lidava com a existência de um Partido Comunista no seu seio. Se a bitola estava nesses parâmetros, então que dizer da URSS que somente tolerava a existência de um partido – o PCUS – não apenas nas suas fronteiras, mas também na sua esfera de influência. Enquanto no Ocidente, o detestado e arqui-inimigo dos agentes do Kremlin, admitia-se esse partido, na pátria mãe do Socialismo não tinha lugar qualquer outra ideologia ou organização partidária. Se em Portugal a saúde era débil, a Rússia jazia de podre.

Hoje, é claro para todos, graças aos esforços de verdadeiros heróis que nunca desistiram, muitas vezes sozinhos e expatriados, desde políticos a ativistas e comentadores, de analistas e intelectuais a novas publicações e organizações, que a única fé dos comunistas e marxistas afins, é e sempre foi a Revolução. Por Revolução deve entender-se a busca a todo o custo da transformação radical da sociedade ocidental e dos seus valores à custa da vida e do aprisionamento e tortura dos reacionários e restantes fascistas. Os Capitães de Abril, essa instituição nacional, os principais responsáveis pelo golpe de Estado de Abril e da contagem de armas que se lhe seguiu, não desejavam apenas o fim do Estado Novo – acima de tudo, procuravam instaurar outra ditadura, mais imperdoável e muito mais ativa e fanática, recorrendo a um termo da ciência política, um totalitarismo, em termos geopolíticos, um satélite de Moscovo, uma Cuba em pleno espaço europeu (Paulo Raimundo, no centenário do nascimento de Fidel, não hesitou em deslocar-se a Havana).

A fama e a aura recolhidas ao longo dos anos de combate à ditadura e o respeito inspirado em muitos corações por uma imagem fabricada destes lutadores pela liberdade, encontram-se em plena crise. Foi necessário um livro airoso e desbloqueador de Nuno Gonçalo Poças, citemos como exemplo, para alertar e tirar do sono epistemológico os adeptos indefetíveis de Otelo e camaradas: estes, Óscar e cúmplices, mostraram em democracia o que já eram em ditadura. Todavia, parecia que nem uma organização terrorista, condenados os seus atores em tribunal num Estado de Direito, era o suficiente para desmanchar a reputação supostamente impoluta e desinteressada de cidadãos politicamente e ideologicamente febris. Ao fim de décadas, a máscara caiu.

E se atualmente, ao contrário do que alguns pretendem dar a ideia, respira-se mais liberdade em Portugal, é porque, finalmente, há além da esquerda, uma direita política, uma direita que se assume com orgulho e sem complexos. A nova geração é a primeira da nossa História quase milenar que tem à disposição todo o espectro político. E não deixa de ter significado que quando a amplitude ganha protagonismo é a esquerda que perde e que se perde.