Um filósofo observou que “há um cheiro que se encontra em todos os refeitórios.” Quem já almoçou na escola concordará sem dificuldade, embora provavelmente o cheiro do refeitório da escola que imagina seja diferente. No entanto essa diferença não é bem como a diferença entre duas pessoas que, ao dizer que estão a pensar em cães, estão a pensar em cães diferentes; ou entre duas pessoas para quem a designação ‘côr de laranja’ designa cores diferentes.
Com cães e cores podemos esclarecer as diferenças e tirar as teimas através de cartas de cores ou conjuntos de imagens de bichos. Nas lojas de tintas e nas exposições de animais existem catálogos. Nesses catálogos são às vezes usados termos gerais (‘cães de pelo curto’, ‘cores alegres’) para encontrarmos melhor aquilo que procuramos. Apesar de haver catálogos de alguns cheiros, por exemplo nas lojas de perfumes, e haver termos gerais para esses cheiros (‘família amadeirada’), para a maioria dos cheiros não existem catálogos.
Um catálogo serve para as pessoas identificarem as coisas que correspondem às amostras nesse catálogo; depende de intenções de comércio ou de polícia; e é nessa medida que os catálogos ajudam às nossas dificuldades. Como ninguém escolhe ou compra a maior parte dos cheiros que conhece, não há catálogos para a maior parte dos cheiros que existem. Não é por isso possível esclarecer dificuldades sobre esses cheiros como se estivéssemos numa loja de tintas.
Reconhecer uma côr ou um cão num catálogo é como reconhecer uma pessoa numa fotografia de grupo, ou num alinhamento de suspeitos. Ninguém mostra uma fotografia para ajudar a reconhecer alguém fora da fotografia; ou uma carta de cores sem côr-de-laranja para identificar o côr de laranja. Mas não é assim que reconhecemos a maior parte dos cheiros. Não os reconhecemos entre amostras e por catálogo; reconhecemo-los como reconhecemos uma pessoa que encontramos num sítio inesperado.
Tirando o refeitório da escola onde almoçávamos, não há lugares a que possamos ir de propósito para cheirar o cheiro a refeitório. É por isso que quando reconhecemos esse cheiro num sítio inesperado ficamos espantados. Como é que é possível que cheire ao refeitório da minha escola fora do refeitório da minha escola? É como encontrar o nosso professor de geografia no notário; ou como perceber que duas pessoas em dois continentes fazem um mesmo gesto amadeirado.
Dizemos das pessoas que sem explicação conhecida são muito parecidas que é como se tivessem sido separadas à nascença. O cheiro a refeitório que reconhecemos noutros sítios parece ter sido separado à nascença do cheiro a refeitório da nossa escola: mas não acreditamos que tenha sido retirado aos pais em pequeno e criado num cartório notarial. Alguém que nunca tenha almoçado numa escola pode estar completamente convencido de que há um cheiro característico dos cartórios notariais, e ficar espantado por reconhecê-lo num refeitório.