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(A) :: Entrevista a Javier Corrales. "Trump é o único Presidente dos EUA a colocar no poder uma comunista. Delcy Rodríguez é anti-americana"

Entrevista a Javier Corrales. "Trump é o único Presidente dos EUA a colocar no poder uma comunista. Delcy Rodríguez é anti-americana"

Especialista na política venezuelana diz que transição democrática não é uma "prioridade" para Trump. Javier Corrales acredita que Corina Machado está "um pouco iludida" e que EUA não contam com ela.

José Carlos Duarte
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O que aconteceu após o dia 3 de janeiro foi “muito estranho” para Javier Corrales. O professor de Ciência Política na Universidade de Amherst e especialista em política latino-americana e venezuelana considera que a solução encontrada pelos Estados Unidos da América (EUA) após a captura do antigo Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, continua a motivar várias questões. A Casa Branca optou por manter no poder rostos do chavismo, claramente de esquerda, e deixou a principal opositora, María Corina Machado, de fora da participação política no país.

Em entrevista ao Observador, o porto-riquenho e filho de dissidentes cubanos Javier Corrales comenta o atual processo de democratização em curso, em que estão a participar desde 1 de agosto membros da Assembleia Nacional de 2015 e líderes do atual regime. O especialista doutorado em Harvard, que escreveu em 2023 o livro Autocracy Rising: how Venezuela Transitioned to Authoritarianism (sem edição em português), tem poucas dúvidas de que seja uma estratégia norte-americana para manter tudo praticamente na mesma: “O que os Estados Unidos estão a fazer é colocar intencionalmente dois atores muito fracos a negociar uma transição muito vaga para a democracia”.

A transição democrática, aliás, nem sequer é do “interesse” de muitos dirigentes norte-americanos. Ainda assim, o professor universitário faz uma exceção: considera que Marco Rubio não gosta da liderança chavista e que se fosse o secretário de Estado a mandar tê-la-ia descartado “desde o início”. “Eu não acho que Marco Rubio quisesse fazer um acordo com Delcy Rodríguez. Acho que ele teria preferido livrar-se deles logo ao início”, diz. No entanto, para Donald Trump e outros rostos da presidência, a solução atual continua a servir os propósitos: lucrar com o petróleo venezuelano.

O professor universitário acredita que, por causa do apoio norte-americano, o “chavismo nunca esteve tão vivo” como está agora. Delcy Rodríguez conseguiu manter ao seu lado alguns rostos do antigo regime, mas continua a ser uma “madurista”. No regime venezuelano, a “liderança de topo sabia que, se não tivesse havido este acordo entre os Estados Unidos e Delcy Rodríguez, teriam sido depostos e enviados para a prisão. Eles veem-na como alguém que os salvou”.

Já sobre a exclusão de María Corina Machado, Javier Corrales insiste que é “muito estranho”, mas aponta que terá sido causada por um acordo entre a administração Trump e Delcy Rodríguez, que teme a “popularidade” da opositora. Para o especialista, a mulher que venceu o Prémio Nobel da Paz continua “um pouco iludida” e deveria estar mais agradecida ao antigo Presidente norte-americano, Joe Biden — e não tanto a Donald Trump.

“Delcy e os chavistas não queriam María Corina Machado no país”

A Venezuela, desde 3 de janeiro, tem um novo regime. Recentemente, a 1 de agosto, começou um processo de democratização liderado pela médica Dinorah Figuera, juntamente com rostos do chavismo. O que pensa deste processo? O que pode alcançar para a Venezuela? 
Em muitos aspetos, o problema é saber por que razão é que isto está a ir tão devagar. A 3 de janeiro, o que os Estados Unidos fizeram foi, de muitas formas, relativamente banal, mas também muito estranho. É banal no sentido em que os Estados Unidos, no passado, já substituíram governos de que não gostavam. Era algo que costumavam fazer mais durante a Guerra Fria, mas o país não tem feito muito disso desde a Guerra Fria.

Como era esse processo?
Sempre que os Estados Unidos ficavam muito fartos de um Governo e esse Governo era muito fraco, havendo um grau significativo de oposição, os Estados Unidos quase sempre derrubavam-nos. E, por isso, fizeram isso na Venezuela. Mas o problema é que não houve um derrube do Governo. Essa é a coisa estranha, esse é o ponto estranho número um. Não foi bem o derrube de um Governo, foi o derrube de um Presidente, mas também foi meio que uma guerra, ainda que a Venezuela tenha capitulado imediatamente.

Então, o processo na Venezuela é diferente…
Muitas vezes, os Estados Unidos gostam de fabricar uma democracia ou, pelo menos, umas eleições, mas estão a tentar uma nova experiência na Venezuela. Vamos fazer isto e logo se vê. A questão é: por que é que está a durar tanto tempo? Essa pergunta nunca foi respondida.

https://observador.pt/especiais/sob-ordens-do-vice-rei-rubio-chavistas-e-oposicao-comecam-a-dialogar-sem-corina-machado-vai-a-venezuela-democratizar-se/

Existe muita especulação e as autoridades norte-americanas são muito vagas… Não existe um calendário para sequer haver eleições na Venezuela.
Exato. A minha especulação é que apenas alguns dirigentes estão interessados na transição democrática nos Estados Unidos. Não diria que ninguém está interessado. Mas muito poucos estão e outros não querem saber — nem sequer é uma prioridade. A coisa mais estranha disto tudo é a exclusão de María Corina Machado e do seu movimento. Imagine-se que se estava no Chile, no derrube do regime de Pinochet. Vai-se negociar uma transição para a democracia sem incluir os socialistas? O partido que Pinochet ilegalizou?

Por que é que então María Corina Machado foi excluída?
Porque Delcy Rodríguez e os chavistas não a queriam no país. Há muitas pessoas que estão a dizer que Trump é que não gosta dela. Isso não é bem assim. Foi o atual Governo da Venezuela que o exigiu.

Acha que eles têm receio da sua popularidade?
Exatamente.

“Estados Unidos estão a colocar intencionalmente dois atores muito fracos a negociar uma transição muito vaga para a democracia”

Por que é que os Estados Unidos elegeram esse movimento da Assembleia Nacional de 2015 para negociar a transição para a democracia?
O que os Estados Unidos fizeram foi colocar dois atores muito fracos a negociar uma transição para a democracia. O ator fraco número um é o Governo de Delcy Rodríguez, que não tem realmente autoridade legítima para o fazer. E depois quiseram negociar com esta figura estranha [Dinorah Figuera], que representa um movimento que estava meio morto. A Assembleia Nacional de 2015 era meio inexistente e perdeu toda a legitimidade nas primárias para as eleições presidenciais de 2024, que votaram estrondosamente a favor do Vente [partido de María Corina Machado]. Ainda assim, está a tornar-se muito evidente que a única razão pela qual María Corina Machado não foi para a Venezuela é porque Delcy Rodríguez não a queria lá.

María Corina Machado também se dissociou dessas negociações para a democracia, ainda que tenha garantido que ia ficar atenta…
Bem, sim e não. Ela não foi convidada. A questão é essa. Ela não recebeu um convite e disse: ‘Não vou’. O que quis dizer é que não ‘se ia forçar a entrar nessas negociações’. Os Estados Unidos nunca disseram: ‘Estas negociações têm de incluir a María Corina Machado’. Ela tem sido completamente afastada desde 3 de janeiro. Lembro-me agora de um tweet que publiquei sobre isso: ‘Temos de nos dar conta de que a administração Trump derrubou dois líderes na Venezuela: o Maduro e a María Corina Machado’.

"O que os Estados Unidos estão a fazer é colocar intencionalmente dois atores muito fracos a negociar uma transição muito vaga para a democracia, se é que lhe podemos chamar isso."
Javier Corrales

E por que é que acha que ela tem sido afastada?
Especulo, e é apenas a minha especulação, que houve algum tipo de negociações entre Delcy Rodríguez e a administração Trump antes de 3 de janeiro.

Há alguns relatos de que houve efetivamente uma equipa de negociações da CIA que foi a Caracas falar com Delcy Rodríguez antes de Nicolás Maduro ter sido capturado…
Não tenho qualquer prova de que isso tenha acontecido. Mas, para mim, parece-me ter sido a única razão. Por que é que do nada abandonaram María Corina Machado? Se Trump tivesse apoiado María Corina Machado, ele ter-se-ia alinhado com o governo mais popular da Venezuela desde que [Hugo] Chávez chegou ao poder. Não existe outra teoria que me pareça plausível a não ser que tenha sido uma exigência feita por Delcy Rodríguez.

Delcy não é popular, mas “chavismo nunca esteve tão seguro”

Delcy Rodríguez não é propriamente uma figura popular entre os venezuelanos, certo?
A resposta a essa pergunta está nas sondagens que têm sido publicadas. María Corina Machado está muito à frente dela.

https://twitter.com/VelasquezVictor/status/2085140686446141858

Acha que falta legitimidade a Delcy Rodríguez?
Bem, a esquerda radical não gosta dela, porque ela alinhou-se demasiado com os Estados Unidos. Os restantes venezuelanos que não são chavistas não gostam dela, porque ela é mais do mesmo. Por isso, a esquerda radical sente que ela traiu a causa, enquanto os restantes venezuelanos a veem a jogar o jogo do Maduro. O jogo do Maduro consistia em participar em mesas do diálogo falsificadas. O único motivo para o antigo Presidente fazer isso era dividir a oposição e tornar as coisas mais lentas. Ela está a fazer exatamente a mesma coisa agora. Os venezuelanos que conseguem ler os sinais percebem que ela é uma madurista, uma clássica madurista.

Mas Delcy Rodríguez ainda não reúne o apoio de algumas partes do regime de Maduro? Por exemplo, o número dois do regime de Maduro — Diosdado Cabello — continua a apoiá-la.
Ela ainda tem esse apoio, sim. Ela tem o apoio da liderança chavista. Porque ela os salvou. Ela manteve o chavismo no poder ao fazer este acordo com os norte-americanos. Os membros da liderança de topo sabiam que, se não tivesse havido este acordo entre os Estados Unidos e Delcy Rodríguez, teriam sido depostos e enviados para a prisão. Eles veem-na como alguém que os salvou. E está a ajudar o partido a sobreviver. As únicas pessoas no chavismo que não gostam dela são os ideólogos, as pessoas que dão mais valor à ideologia. Mas o chavismo era uma combinação entre ideólogos e figuras transacionais. E estas últimas figuras colaboram com ela.

Então Delcy Rodríguez teve a capacidade de os manter no poder e salvos…
Isso, e ela fez algo ainda melhor.

"Delcy Rodríguez tem o apoio da liderança chavista. Porque ela os salvou. Ela manteve o chavismo no poder a fazer este acordo com os norte-americanos. A liderança de topo sabia que, se não tivesse havido este acordo entre os Estados Unidos e Delcy Rodríguez, teriam sido depostos e enviados para a prisão. Eles veem-na como alguém os salvou."
Javier Corrales

O quê?
[Garantir] que os Estados Unidos vão continuar a ajudar a Venezuela a recuperar economicamente e recuperar o setor petrolífero. O chavismo nunca se sentiu tão seguro como agora.

“Trump achava que o dinheiro do petróleo era abundante” na Venezuela

Os Estados Unidos também têm interesse no setor petrolífero na Venezuela. Isso está interligado com o atual regime venezuelano?
Não há dúvida de que sim. Trump é um Presidente que pensa que tem de taxar pessoas pelos seus serviços e tem de as taxar bem. Ele não é o típico Presidente dos Estados Unidos que produz bens públicos e diz que os Estados Unidos têm de subsidiar alguma coisa. Para Trump, o atrativo de fazer o que fez na Venezuela era ter acesso ao dinheiro do petróleo. Ele achava que o dinheiro do petróleo era abundante, que era só uma questão de ir lá e que haveria muito petróleo no mundo. Ele não tinha entendido que a indústria precisava de recuperar. Não entendeu que não se vai para um país, abrem-se as refinarias e há muito petróleo. Ele nunca entendeu isso. Mas entendeu que esse petróleo seria algo pelo qual os Estados Unidos poderiam cobrar e receber dinheiro.

Essa foi a única motivação?
Essa é a motivação primária. A segunda motivação é que os Estados Unidos se querem ver livres de muitos venezuelanos que vivem nos Estados Unidos. E a administração Trump estava a entender que muitos dos venezuelanos que estavam a ser deportados interpunham processos judiciais e defendiam em tribunal que não poderiam voltar ao país porque não era seguro. Isso estava a criar problemas de deportação para os Estados Unidos, que não queriam ter mais a desculpa de que a Venezuela era um país terrível. Agora, com o novo regime, o Governo norte-americano pode argumentar que o regime é seguro.

Rubio “teria preferido livrar-se” do chavismo “logo ao início”

Na administração Trump, existe uma teoria a circular de que Marco Rubio é quem gere efetivamente a Venezuela. É mesmo assim? Que papel desempenha o secretário de Estado?
Acho que sim e não ao mesmo tempo. Por um lado, ele tem alguma autonomia, mais do que qualquer pessoa na presidência. Mas também tem de lidar com outros grupos.

Como assim?
Não acho que Marco Rubio quisesse fazer um acordo com Delcy Rodríguez. Acho que ele teria preferido livrar-se dos chavistas logo ao início.

É uma questão ideológica para ele, porque os seus familiares fugiram de Cuba, parceiro da Venezuela? Os dois países tinham um regime parecido…
Sim, ele defende a linha mais dura contra o [socialismo latino-americano]. Teve de fazer compromissos. É a pessoa que criou esta alternativa [da transição democrática] e diz que os Estados Unidos estão a ter muita prudência. Mas ele está a fingir prudência: ‘Vamos fazer isto de forma ordeira. Vamos fazer isto em várias fases. Entendemos que isto não pode acontecer rapidamente’. Parece um conservador moderado. Mas não é, ele defende a linha mais dura. A meu ver, Rubio teve de se moderar. A Casa Branca não está disposta a ir muito mais longe do que foi. Trump e outros membros da administração, como o secretário do Tesouro Scott Bessent, já fizeram comentários muito positivos sobre Delcy Rodríguez. Eles falam sobre o Governo [venezuelano] com termos muito favoráveis, como se fosse um dos maiores aliados dos Estados Unidos. E isto é algo de que provavelmente Marco Rubio não gosta. Mas Marco Rubio não é um líder na Casa Branca.

Que papel tem então Marco Rubio na Venezuela?
Marco Rubio recebe ordens da Casa Branca e tenta embalá-las de uma forma que seja defensável para si.

“María Corina Machado está um pouco iludida. E devia estar mais agradecida a Biden”

Também vemos que María Corina Machado ainda tenta manter uma boa relação com a administração Trump, apesar de estar a ser constantemente afastada. Ela ainda tem alguma esperança de que os Estados Unidos a possam escolher em vez de Delcy Rodríguez? Concorda com isto?
Sim, concordo. Penso que ela está um pouco iludida. Acho que ainda está no modo wishful thinking. Ela ainda continua a ter essa esperança. Muitos venezuelanos que pertencem ao MAGA [Make America Great Again, o movimento de Trump] ainda continuam a ter a esperança de que Trump vá produzir democracia.

E ainda existe alguma esperança também dentro da Venezuela de que María Corina Machado vai regressar e governar o país?
Sim. Penso que toda a gente, sei lá… Penso que ela definitivamente seria Presidente se houvesse eleições. Para mim, não há dúvidas. Agora, acho que também ela prejudicou um pouco a sua imagem, porque o seu alinhamento com Trump foi um erro. Mas isso é para a História decidir.

María Corina Machado parece ainda estar muito agradecida a Donald Trump por ter retirado Nicolás Maduro do poder.
É algo muito estranho, porque a única razão pela qual María Corina Machado se tornou uma estrela não foi por causa de Trump. Foi por causa do que fez Joe Biden. Durante o mandato do Presidente Biden, os Estados Unidos forçaram Maduro a convocar eleições que o antigo Presidente venezuelano não queria convocar. Os Estados Unidos forçaram Maduro, mesmo não o tendo convencido a deixar María Corina concorrer. Mas forçaram Maduro a respeitar a candidatura de [Edmundo] González em 2024. A partir dos resultados das eleições, María Corina Machado pôde afirmar-se como a verdadeira opositora. Se há alguém, na minha opinião, a que María Corina Machado deve agradecer seria Biden.

Mas María Corina Machado, mesmo antes de Donald Trump, sempre foi muito próxima do Partido Republicano…
É verdade. Acho que aí que a sua ideologia a bloqueia um pouco. E há sempre aquela ideia de que os presidentes republicanos são mais duros contra comunistas. É o que costuma acontecer, mas não é necessariamente sempre o caso. O único Presidente norte-americano que deu poder oficialmente a uma Presidente comunista foi Trump, ao nomear Delcy Rodríguez como Presidente interina. Ele tem esse título: o de ter sido o primeiro Presidente dos Estados Unidos a colocar no poder uma comunista. E uma bem antiamericana.

Continuam a existir rumores de que a Venezuela terá eleições presidenciais em 2027 e 2028…
Claro. Mas lembremo-nos: a questão é que ninguém quer falar de um calendário para que isso aconteça.

https://observador.pt/especiais/corina-machado-nao-encontrei-um-unico-venezuelano-ofendido-com-a-entrega-do-nobel-a-trump/

“EUA angariaram muitos amigos na América Latina após captura de Maduro”

Acredita que a captura de Nicolás Maduro e o atual regime venezuelano mudaram a América Latina e a trajetória de outros países vizinhos?
Acho que os Estados Unidos angariaram muitos amigos em resultado do que aconteceu e impressionaram três grupos na América Latina. Os Estados Unidos impressionaram primeiro os anticomunistas, porque Trump se livrou de Maduro. Em segundo, os Estados Unidos impressionaram os líderes populistas de direita, porque Trump está disposto a apoiá-los. Em terceiro, impressionaram as pessoas na América Latina que gostam do envolvimento norte-americano. Existe um elemento muito forte na política latino-americana: quando há uma crise, liga-se aos Estados Unidos. Há pessoas que não gostam de que os Estados Unidos estejam desligados. E os Estados Unidos, com o que fizeram na Venezuela, deram a impressão de estarem dispostos a envolverem-se. Se alguém ligar, eles atendem. Trump criou assim novos amigos: anticomunistas, líderes populistas como [o antigo Presidente brasileiro Jair] Bolsonaro, [o Presidente argentino Javier] Milei ou [o Presidente colombiano] Abelardo de la Espriella, e aquelas pessoas que acreditam que os Estados Unidos devem funcionar como uma ambulância ou um paramédico na América Latina.

Em concreto, que tipo de efeitos políticos é que teve?
O que estamos a ver na América Latina é que os Estados Unidos colocam a promoção da democracia, as questões da governança — assuntos relacionados com transparência e queda da corrupção —, assim como os Direitos Humanos no fim da lista de prioridades. Trump está a perpetuar a noção de que a América Latina é uma região que existe apenas para a exploração de recursos. É algo que a China fez na América desde o início dos anos 2000. Mas estamos a viver numa época em que, pela primeira vez desde os anos 70, temos um Presidente dos EUA que está a colocar a democracia, a boa governação e os direitos humanos no fundo da lista de prioridades. Portanto, isso vai ter um impacto na evolução da governação na região, não tenho dúvidas.

Vários candidatos apoiados por Trump venceram as eleições na América Latina, como na Colômbia, no Peru ou no Chile…
Sim. E não estou chocado com isso. Nos anos 90, houve um momento em que havia um sentimento pró-americano muito forte. Toda a gente queria usar o Washington Consensus [um pacote de medidas económicas neoliberais] e plataformas como o Summit of the Americas. Há sempre momentos em que os latino-americanos adoram o regresso dos Estados Unidos. Adoram a presença dos Estados Unidos. E estamos a viver essa época.

"O que estamos a ver na América Latina é que os Estados Unidos colocam a promoção da democracia, as questões da governança — assuntos relacionados com transparência e queda da corrupção — e Direitos Humanos no fim da lista de prioridades. Trump está a perpetuar a noção de que a de que a América Latina é uma região que existe apenas para a exploração de recursos."
Javier Corrales

E em Cuba, cujo regime está a ser ameaçado pela presidência Trump, o que poderá acontecer? Como é que a situação pode evoluir?
Considero que Trump quer evitar ações militares que causem problemas. Ele já não queria isso antes da Venezuela e certamente não quererá esse cenário depois do Irão, especialmente porque em Cuba poderiam surgir complicações militares. Os Estados Unidos venceriam mais cedo ou mais tarde, mas não seria assim tão fácil. Parece que os norte-americanos andam à procura de alguém como a Delcy Rodríguez, mas ainda não a encontraram. Recentemente, o New York Times publicou um artigo sobre o neto de Raúl Castro, que poderia ser essa pessoa. É esse o nome que circula por aí: o do El Cangrejo. Ele é uma figura muito desagradável. Existem suspeitas de envolvimento em tráfico humano e em vários negócios obscuros. Independentemente disso, é garantido que os Estados Unidos estão a falar com alguém do regime, mas ainda não conseguiram chegar a um acordo.