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Os 300 de São Domingos

Há 67 anos, na noite de 13 de agosto de 1959, um dos mais importantes templos de Lisboa foi devastado por um incêndio que mobilizou cerca de 300 bombeiros. Dois sapadores morreram.

André Gomes Luís
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Quem hoje entra na Igreja de São Domingos, a poucos passos do Rossio, percebe imediatamente que aquele não é um templo como os outros. As colunas permanecem marcadas, a pedra conserva manchas escuras e o interior guarda uma aparência quase ferida, como se o edifício tivesse decidido não esconder totalmente aquilo por que passou. E, de certa forma, foi isso mesmo que aconteceu: as cicatrizes do grande incêndio de 13 de agosto de 1959 ficaram visíveis e transformaram-se numa parte inseparável da identidade da igreja.

Naquela noite de verão, Lisboa continuava a viver ao ritmo habitual da Baixa. Havia gente no Rossio, os cafés estavam abertos, os elétricos atravessavam a cidade e pouco fazia prever que, dentro de São Domingos, o fogo começava a destruir séculos de história. Às 20h40, o pedido de socorro chegou aos Sapadores Bombeiros de Lisboa e, a partir desse momento, o centro da cidade transformou-se num enorme cenário de emergência.

Os bombeiros chegaram e continuaram a chegar durante as horas seguintes. Enquanto centenas de pessoas se concentravam nas imediações para observar o clarão que se levantava sobre os telhados, sapadores e bombeiros voluntários preparavam linhas de água, faziam chegar escadas e procuravam impedir que as chamas se propagassem aos edifícios vizinhos, numa zona onde a proximidade das construções tornava o risco particularmente grave.

No total, cerca de 300 bombeiros participaram no combate ao incêndio.

É impossível escrever o número sem que a memória histórica nos conduza, ainda que apenas por um instante, aos outros 300, os de Esparta. A comparação vale apenas como imagem, porque os acontecimentos não têm evidentemente a mesma natureza, e também porque os famosos espartanos das Termópilas estavam acompanhados por outros contingentes gregos. Ainda assim, há qualquer coisa de sugestivo na coincidência.

Lisboa teve, naquela noite, os seus 300.

Não tinham lanças nem escudos, não defendiam um desfiladeiro e não enfrentavam o exército de Xerxes. Tinham capacetes, mangueiras, escadas e meios de proteção que hoje nos pareceriam extraordinariamente limitados. Diante deles estava apenas o fogo, mas um fogo suficientemente violento para consumir madeira, talha, pinturas e estruturas de um edifício com séculos de história, ao mesmo tempo que ameaçava estender-se ao coração da Baixa.

E talvez seja precisamente aqui que a comparação deva terminar. Aqueles homens não procuravam glória, não sabiam que décadas depois alguém escreveria sobre eles e certamente não imaginavam qualquer epopeia. Estavam ali porque tinham sido chamados e porque era esse o seu trabalho: aproximarem-se do perigo quando o movimento natural de todos os outros era afastarem-se dele.

O incêndio tornou-se devastador. A cobertura da igreja acabou por ruir, perderam-se importantes elementos artísticos e decorativos e São Domingos ficou profundamente mutilada. O combate teria também um custo humano. Dois elementos do Corpo de Sapadores Bombeiros, os Cabos de 1.ª Classe Francisco da Silva Gomes e José Francisco, morreram naquela noite.

É talvez esse o detalhe que as fotografias antigas não conseguem transmitir. Quando olhamos para imagens de grandes incêndios históricos, vemos capacetes, mangueiras, escadas, fumo e ruínas, mas raramente pensamos nas famílias que esperavam em casa ou no instante em que uma ocorrência profissional se transformou, para duas delas, numa perda definitiva.

São Domingos, contudo, não desapareceu. A igreja atravessara já terramotos, reconstruções e séculos de transformação da própria cidade e voltaria, uma vez mais, a sobreviver. As obras prolongaram-se durante décadas e o templo reabriu plenamente em 1994, conservando deliberadamente muitas das marcas deixadas pelas chamas.

Foi provavelmente a melhor homenagem possível à sua própria história.

Porque restaurar um monumento não significa necessariamente devolvê-lo à aparência de que nada aconteceu. Há ocasiões em que a verdadeira preservação consiste precisamente em deixar alguma coisa por apagar, permitindo que a pedra continue a contar aquilo que os documentos e as fotografias apenas conseguem descrever.

Hoje, 67 anos depois, o Rossio continua cheio, os lisboetas passam apressados pela porta de São Domingos e milhares de turistas entram no templo sem conhecer necessariamente a história das paredes que estão a observar. Mas as marcas continuam ali, silenciosas e suficientemente claras para lembrar que, numa noite de agosto de 1959, uma igreja esteve perto de desaparecer e cerca de 300 bombeiros se colocaram entre o incêndio e a cidade.

Dois deles não voltaram.

Francisco da Silva Gomes e José Francisco.

Talvez seja por isso que São Domingos impressiona tanto. Não porque tenha sobrevivido intacta, mas precisamente porque não sobreviveu intacta.

Há cicatrizes que não diminuem um monumento.

Transformam-no em memória.