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(A) :: A intervenção em contexto nas transições dos filhos entre os pais em situações de alienação parental (VIII))

A intervenção em contexto nas transições dos filhos entre os pais em situações de alienação parental (VIII))

Neste oitavo artigo, analisamos uma nova dimensão do testemunho de José: as dificuldades vividas nos momentos de transição das filhas entre os dois pais.

Eva Delgado-Martins
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No primeiro artigo, “Alienação Parental Antes do Divórcio: Os Sinais que José Não Reconheceu (I)”, acompanhámos o testemunho de José sobre os primeiros sinais que hoje identifica como tendo surgido ainda durante o casamento. No segundo, “Alienação Parental: Quando o Casamento Chegou ao Limite (II)”, explorámos a degradação da relação conjugal e o seu impacto na dinâmica familiar. No terceiro, “Violência Doméstica e Alienação Parental: Quando o Medo Substitui o Diálogo (III)”, analisámos a forma como os processos judiciais marcaram o início do afastamento entre pai e filha. No quarto, “Duas Filhas, Duas Relações, a Mesma História: O Testemunho de José, um Pai Alienado (IV)”, regressámos aos anos anteriores à separação para compreender a evolução da relação de José com as filhas. No quinto, “Alienação Parental: A Saída de Casa e o Vazio de Regras Após a Separação (V)”, acompanhámos os primeiros meses após a rutura conjugal e as dificuldades vividas por José na ausência de uma regulação das responsabilidades parentais. No sexto, “Alienação Parental: A Luta pela Regulação das Responsabilidades Parentais (VI)”, acompanhámos o percurso que nos descreveu até à obtenção dessa primeira decisão judicial e a importância que lhe atribuiu para garantir uma relação regular com as filhas. No sétimo, “Quando as Decisões dos Tribunais Deixam de Ser Cumpridas e Nada Acontece (VII)”, abordámos as dificuldades que José afirma terem persistido mesmo depois de existirem regras judicialmente definidas.

Neste oitavo artigo, analisamos uma nova dimensão do testemunho de José: as dificuldades vividas nos momentos de transição das filhas entre os dois pais e a importância do recurso à ajuda profissional neste contexto. Através do seu relato e da observação direta de situações de transição entre pais, por ocasião do acompanhamento desta família, procuramos explicar por que razão não basta olhar para o momento em que uma criança chora, recusa ou diz que não quer ir do mãe/pai alienador para o pai/mãe alienado, mas é necessário observar o que acontece antes, durante e depois dessa transição de forma a perceber se os seus comportamentos se mantêm quando o contexto muda e compreender de que forma um conflito de lealdade pode condicionar aquilo que a criança sente, diz e demonstra perante cada um dos pais.

Neste artigo, pretendemos também mostrar uma dimensão essencial da intervenção profissional em situações de alienação parental, que implica “sair do gabinete” e observar a criança nos contextos em que as dificuldades efetivamente acontecem, distinguindo aquilo que é relatado pelos adultos daquilo que pode ser diretamente observado e procurando compreender a realidade emocional da criança, para além do momento imediato da rejeição.

Observar as transições para compreender a rejeição

Em situações de elevada conflitualidade parental, aquilo que acontece quando uma criança passa de um pai para o outro pode revelar aspetos que dificilmente são compreendidos apenas em consulta. A intervenção em contexto permite observar quando surge a rejeição, quanto tempo permanece e, sobretudo, o que acontece quando a criança se afasta de um dos pais e permanece apenas com o outro. Permite também apoiar o pai ou a mãe que enfrenta sucessivos momentos de rejeição, ajudando-o a compreender o comportamento da criança, a evitar respostas impulsivas e a manter uma presença tranquila e emocionalmente disponível.

Relativamente à transição entre pais, o José descreveu diferenças muito claras entre os comportamentos das duas filhassem que inicialmente, era sobretudo a filha mais velha que chorava ou resistia: “A verdade é que a minha filha mais velha vinha sempre meio chorosa, chorosa, meio chorosa. A mais nova era muito pequenina. Sempre veio ou a dormir, ou tranquila, ou feliz da vida”.

O José chamou-nos também a atenção para a necessidade de observar não apenas a transição da mãe para o si, mas também o que se passava na sua sequência: “E as transições ou a dificuldade de transição tem a ver só com a nossa filha mais velha. Ou ficava chorosa, ou chorava mesmo, ou fazia birra. Bom, tinha sempre algum… E essa linha evolutiva ou involutiva, dependendo do ponto de vista que queremos ter, da criança foi sempre cada vez maior… A maneira como ela reagia à troca era mais exacerbada. Quando ela era pequenina, ela vinha somente chorosa. Vinha a chorar, não sei… Às vezes ainda corriam lágrimas e já estava a rir dentro do carro. Era uma questão de segundos. Assim que ela fechava as portas e o meu carro arrancava, o sol abria”. Com esta expressão, “o sol abria”, O José assinalou uma mudança que viria também a ser observada diretamente durante a nossa intervenção: o sofrimento manifestado no momento da transição podia desaparecer muito rapidamente, quando a criança se afastava daquele contexto.

O dia em que observei diretamente uma transição

Acompanhei uma das transições realizada no local de trabalho da mãe. O José recordou  esse momento: “Porque depois ninguém acredita ou acha que é exagero. E, nesse sentido, eu lembro-me de ir com a Dra. Eva lá buscar. Foi terrível. A Matilde chorava, chorava, chorava, agarrada à mãe, esperneava. A Marta estava bem, mas também começava já nessa fase. Como a mãe via que a Marta ia bem, ela era proibida de sair do carro da mãe, portanto também havia essa situação. E, depois de muita complicação, de muita dificuldade, a Matilde entra no carro. A própria mãe já entra também no seu carro, quase para arrancar, porque ela já estava a querer ir. E a Marta já está no carro e, portanto, há isto tudo, grande choro, grande gritaria e a mãe: ‘coitadinha, isto é tudo difícil? Eu sei que, quando a porta do carro se fecha, aquele choro, aquela angústia em que parecia que as crianças estavam, acabou no próprio momento”. O que o José assim descreveu corresponde, na sua essência, ao que pude observar. A filha mais velha chorava e resistia à separação da mãe. Contudo, depois de a porta do carro se fechar, a mudança foi quase imediata. As crianças começaram espontaneamente a conversar com o pai: “O que é que vamos fazer?”, “Trouxeste um pãozinho para comermos?”, “Onde é que vamos passear?”. Pouco depois estavam descontraídas, a comer o pão de que cada uma gostava e a conversar sobre o dia.

O José descreveu esta passagem de um comportamento para o outro de forma particularmente expressiva: “Sim, sim. Era como se fosse uma porta. E, portanto, elas tinham que agradar à mãe, mais a Matilde, para dizer: ‘Mãe, eu tenho este comportamento que e tu estiveste presente.’ Mas isto não era real, não é? Porque a relação comigo era fantástica a partir do momento em que aquela porta se fechava (…) Sim, a verdade é que isso aconteceu”.

Enquanto profissional, a observação desta diferença foi particularmente importante porque não me foi relatada e pude verificar diretamente a sequência e a rapidez da alteração comportamental da filha mais velha do José. Embora esta observação não permita, isoladamente, determinar a causa da rejeição, constitui um elemento importante de informação que deve ser integrado com as restantes observações e verbalizações realizadas das crianças.

“Se eu gostar do pai, nunca mais vou ver a mãe”

Segundo o José, as dificuldades das transições estavam associadas a verbalizações que a filha mais velha lhe fazia desde pequena: “Na génese disso, durante muitos anos, alguns anos, a Matilde, que era a mais velha, quando ainda era bem pequenina, ela muitas vezes recorria a mim, já quando estava comigo, e dizia-me: ‘Pai, queria falar com o pai’, e ela estava assim, meio tristonha no meu colo, e dizia assim ao pai: ‘Eu, sempre que venho para casa do pai, a mãe fica a chorar, e a mãe diz que se eu gostar do pai, nunca mais vou ver a mãe e vou ficar sem a mãe’. Eu tenho isso documentado, portanto não é uma coisa que eu esteja a dizer e que não possa provar, digamos assim”. O José acrescentou: “Tenho isso tudo documentado e mais pessoas, durante este período largo, mais pessoas presenciaram ou foram interlocutores desse tipo de confidência da minha filha mais velha”.

Para uma criança pequena, sentir que gostar de um dos pais pode significar perder o outro coloca-a perante um profundo conflito emocional. Por isso, não basta observar que uma criança chora numa transição: é necessário procurar compreender por que chora e aquilo que acredita que poderá acontecer se não o fizer.

O que acontecia quando regressava

O José relatou ainda que a filha lhe descrevia aquilo que acontecia quando regressava a casa da mãe: “Mas ela dizia isso e dizia que, quando chegava a casa, que a mana, que era mais pequenina, ia logo brincar e que a ela não deixava brincar. Ela fazia muitas perguntas, muitas perguntas, e ela não sabia o que responder. Porque eram muitas perguntas e ela queria saber tudo, tudo, tudo. Portanto, era algo de interrogatório constante”. Quando uma criança sente que terá de explicar tudo aquilo que viveu com o outro pai ou mãe, pode começar a controlar aquilo que diz e até aquilo que demonstra sentir.

Um dos episódios mais significativos relatados pelo José ocorreu durante uma chamada telefónica: “E eu cheguei, por exemplo, a estar ao telefone. Eu cheguei a estar ao telefone, a ligar, a ter as crianças comigo, a ligar à mãe para ela falar, na presença dos avós e de uma série de pessoas. E a primeira coisa que a minha filha mais velha diz é: ‘Ó mãe, eu fiz aquilo que combinámos. Eu disse ao pai o que a mãe disse. Até consegui chorar, mas o pai não me levou à mãe.’ E isso era uma coisa que ela fazia, que era: vinha chorosa, agarrava-se e chorava e depois dizia: ‘O pai pode levar à mãe, eu quero ir ver a mãe, eu quero ficar com a mãe’”. Depois desses momentos, o José observava uma criança que voltava a interessar-se naturalmente pelos programas que iria fazer: “Assim, assado, brincar, vamos ter com não sei quem, vamos brincar, vamos fazer os programas todos, dizer o que é que a gente quer que o pai tenha pensado ao fim de semana, o que é que tanto é se comer?”

“Já posso ser a Matilde”

O José resumiu a alternância sentida pela filha na transição num testemunho marcante: “A Matilde vinha obrigada a ter que dizer aquilo tudo que a mãe tinha dito, para depois ficar livre. A gente assistiu várias vezes a ela ter que dizer aquilo: ‘Mas eu não gosto, eu não quero, eu não quero estar aqui, eu não gosto do pai, eu não gosto disto.’ E depois, quando acabava de dizer isto tudo, pronto, eu já disse, mas já posso ser a Matilde, brincar, estar com o pai, ser autorizada a estar com o pai, porque já disse tudo aquilo que a mãe me pediu”.

Importa reforçar que aquilo que constitui a interpretação do José foi por mim diretamente observado. Durante a intervenção pude, efetivamente, observar mudanças muito rápidas entre o comportamento manifestado durante determinadas transições e aquele que as crianças apresentavam pouco depois, quando permaneciam apenas com o pai.

Quando a criança sente que não pode gostar dos dois pais

O problema não está apenas no facto de uma criança chorar quando passa de um pai para o outro. A preocupação surge quando a criança sente que gostar de um significa magoar, trair ou perder o outro. Pode então começar a adaptar o comportamento ao contexto, chorar perante um dos pais e, segundos depois, sorrir com o outro, rejeitá-lo e, pouco depois, procurar a proximidade e esconder a felicidade ou sentir culpa por gostar de ambos.

É por isso que a pergunta profissional não pode limitar-se a ser: “A criança quer ou não quer ir com o pai?”. É necessário perceber o que acontece antes, quem está presente, quanto tempo dura a rejeição, se esta permanece quando o contexto muda, como é a relação quando a criança está apenas com o pai e o que acontece no regresso à mãe.

Olhar para além do momento da rejeição

No caso desta família, permanece uma imagem utilizada por José particularmente elucidativa: “Assim que ela fechava as portas e o meu carro arrancava, o sol abria”. Esta frase sintetiza a principal reflexão que desejamos estimular com este artigo, não basta observar a criança no momento da transição, é necessário compreender o que acontece antes, durante e depois, perceber se a rejeição se mantém quando o contexto muda e observar como a criança se relaciona com cada um dos pais.

A intervenção em contexto pode, por isso, ser fundamental para compreender situações de possível conflito de lealdade, distinguindo aquilo que a criança manifesta quando está na presença do pai/mãe alienador, daquilo que acontece quando permanece apenas com o outro mãe/pai alienado. Acima de tudo, importa proteger a criança da necessidade de escolher. Nenhuma criança deveria sentir que, para amar um dos pais, precisa de rejeitar o outro. E é precisamente por isso que, quando a “porta” parece fechar-se, o trabalho do profissional é necessário para compreender o que acontece depois.