Do hip-hop ao pop, dos futebolistas às socialites. No pulso das celebridades, há quase sempre algo em comum: os extravagantes e luxuosos relógios da marca Jacob Arabo, nome adotado pelo joalheiro Yakov Arabov, nascido no Uzbequistão e naturalizado nos Estados Unidos. No país norte-americano, consagrou-se como designer de relógios dos artistas de hip-hop, que tanto ajudaram a alavancar o seu nome para artistas também de outros setores como envolveram o seu nome em polémicas na justiça.
Aos 13 anos, ao receber de presente do seu pai um relógio Wakmann, o jovem Yakov ficou curioso para saber como trabalhava o mecanismo que fazia o acessório exibir dois fusos horários. No ano seguinte, ainda no seu país natal, começou a trabalhar como assistente de relojoeiro, onde aprendeu a montar e desmontar as peças do acessório. A sua família emigrou para Nova Iorque, estabelecendo-se no bairro de Forest Hills, em Queens, onde as dificuldades financeiras o impediram de concluir o secundário. Mas o sonho de se tornar um relojoeiro profissional também atravessou o oceano: à procura de uma solução para conseguir ajudar a sua família, aos 16 anos o rapaz inscreveu-se num curso de curta duração para aprender não só a fazer a manutenção de joias, mas também a forma de fabricá-las.
Trabalhar para fábricas locais permitiu que acumulasse a experiência necessária para abrir o seu próprio negócio. Fê-lo em 1986, aos 21 anos, com a Jacob & Co. A escolha de fixar morada no Diamond District, no coração da cidade de Nova Iorque, provou-se a mais acertada para chegar até às celebridades. Enquanto os seus concorrentes naquele bairro se dedicavam à joalharia clássica, Yakov olhava para os desejos dos cantores de hip-hop, que queriam imprimir nos seus acessórios o luxo e a ostentação que cantavam nas suas letras. Agora sob a alcunha Jacob the jeweler [Jacob o joalheiro, em português], Yakov não se contentava em desenhar apenas relógios — passou a fabricar também joias que desenhou ao longo dos anos enquanto trabalhava para outras empresas.
Ter uma criação de Jacob Arabo nos anos 1990 era quase como carregar consigo um status que os cantores de hip-hop almejavam demonstrar. Feitos à medida, os relógios podiam ter quantas cores e pedras preciosas o cliente desejasse e a sua carteira pudesse pagar. O rapper The Notorious B.I.G. foi um dos primeiros a fazer um pedido, tornando-se rapidamente um cliente habitual, responsável também por apresentar nomes como Sean “Diddy” Combs e Jay-Z a Jacob. Para além dos marcadores das horas, o relojoeiro desenvolveu também anéis e correntes personalizados para os artistas.
Recordando o relógio que recebeu do seu pai, Jacob lançou em 2002 o colorido “Five Time Zone”, um exemplar com diamantes cravejados e que exibia cinco fusos horários distintos. O modelo usado pela supermodelo Naomi Campbell logo se tornou um dos preferidos entre as celebridades (também fora do nicho do hip-hop) que viajavam pelo mundo em digressão. O atendimento personalizado de Jacob, que não só se adaptava à agenda inconstante dos artistas — como também dava vida às ideias disruptivas dos clientes, incomuns no mercado relojoeiro — fez com que alguns destes se tornassem não só compradores, mas também amigos. “Trabalho nesta indústria como um amante de relógios, não como um relojoeiro. Não me preocupo se é possível fazer, imagino apenas o que é que os meus clientes e eu teríamos fascínio em ter”, disse numa entrevista à Worldtempus, uma revista digital especializada no setor.
Nomes como Madonna, Michael Jackson, Rihanna, Michael Jordan, Pharrell Williams, Kim Kardashian, Elton John, Victoria e David Beckham também usaram algumas das suas peças em editoriais de revistas e na passadeira vermelha de grandes eventos — o próprio recordou alguns destes momentos numa publicação no Instagram, com Cristiano Ronaldo na primeira fotografia do álbum. “Antes e agora. Começámos em divisões pequenas com grandes sonhos. De alguma forma, todos nos tornámos a nossa própria versão de grandeza“, escreveu. Em 2026, a Jacob & Co completa 40 anos de operação.
Há vinte anos, Jacob iniciou uma amizade com um ávido colecionador de alta relojoaria e peças exclusivas: Cristiano Ronaldo, a celebridade mais presente nas fotografias publicadas nas redes sociais do relojoeiro. Em 2013, o futebolista tornou-se embaixador da marca que dá o seu nome à linha “Epic X CR7”, com acessórios que custam dos 28 mil aos 200 mil dólares. Arabo uniu a paixão de Ronaldo por colecionar carros e relógios luxuosos para desenvolver o “Bugatti Chiron Tourbillon“. O modelo foi personalizado para o português com 232 diamantes, 109 safiras negras e o logótipo CR7 reproduz em miniatura o motor W16 de um Bugatti Chiron, um dos carros de eleição do futebolista. Em julho deste ano, numa passagem de Cristiano por Lisboa, Jacob fez-lhe uma visita no hotel Ritz para entregar em mãos mais um relógio. Numa publicação no Instagram, o relojoeiro afirma que o acessório na cor âmbar custa 1,3 milhões de dólares (cerca de 1,1 milhões de euros). “Tenho um Bugatti nesta mesma cor“, disse Cristiano enquanto colocava o relógio no pulso. Como representante da marca, o atleta esteve presente em grandes eventos com criações de Jacob no pulso. Em novembro, quando se encontrou com Donald Trump na Casa Branca, usava um modelo Royal Baguette, desenvolvido com ouro branco de 18 quilates e totalmente cravejado com diamantes.
“Muitos parabéns ao meu querido amigo Cristiano e à Georgina. Após mais de vinte anos de amizade, nada me deixa mais feliz do que ver-vos assim. Desejo-vos uma vida linda juntos”, escreveu Jacob numa publicação no seu Instagram a 13 de agosto. Georgina, no entanto, escolheu para o casamento civil joias com diamantes do conjunto “O Jardim de Kalahari”, da Chopard, da qual é embaixadora. A marca do anel de noivado com uma grande pedra ou das alianças clássicas em ouro amarelo polido, no entanto, não foi divulgada.




Polémicas na justiça
Nem sempre o relacionamento e parcerias com figuras públicas foram benéficos para a imagem de Jacob e para a sua marca. Em 2006, o magnata dos relógios foi preso numa investigação federal que envolvia a “Black Mafia Family”, grupo acusado pela justiça dos Estados Unidos de comprar joias de luxo com dinheiro vindo do tráfico de cocaína. As acusações de branqueamento de capitais contra Jacob foram retiradas num acordo com a justiça quando este confessou ter falsificado registos e prestado declarações falsas a autoridades americanas. Mas a confissão por tais crimes não impediu que fosse condenado em 2008 a cumprir uma pena de prisão efetiva por dois anos e seis meses, sendo libertado em 2010.
“Sinto-me envergonhado por ter violado as leis deste país, um país que foi tão bom para mim”, disse ao juiz federal em tribunal. “Carregarei esta vergonha pelo resto da minha vida“, noticiou a CBS na altura. Teve ainda de pagar cerca de 50 mil dólares à autoridade tributária dos Estados Unidos, que confiscou outros dois milhões de dólares do seu património financeiro. Os empresários do mercado de luxo estão “numa posição propícia para ajudar os traficantes de estupefacientes a ocultar o seu património“, disse o procurador-geral dos EUA, Stephen J. Murphy, numa declaração à imprensa.
Jacob, após a condenação que enfrentou, viria a lançar parcerias com nomes também envolvidos em polémicas e investigações na justiça. Em 2017, desenvolveu com Kanye West (agora, Ye) uma coleção de joias com temática religiosa. Doze anos antes, já havia sido mencionado na canção Diamonds From Sierra Leone, de Jay-Z e Kanye, uma ode às pedras preciosas: “A minha corrente, estes diamantes não são diamantes de sangue, pois não, Jacob? Não me mintas” [My chain, these aint conflict diamonds is they Jacob? Don’t lie to me man, em inglês].
O nome do joalheiro regressou aos tribunais em 2024, quando teve início o processo judicial que condenou o rapper Sean “Diddy” Combs em outubro de 2025 por dois crimes de ajuda à prostituição. A atriz de filmes para adultos Adria English processou Combs e alguns dos seus parceiros comerciais (Jacob incluído) por organização criminosa, agressão, assédio e tráfico sexual. O processo segue em investigação na justiça norte-americana.
Apesar dos problemas na justiça em que estiveram envolvidos Jacob e vários dos seus clientes, as celebridades de várias áreas de atuação continuam a encomendar as suas peças: Beyoncé usou uma pulseira de diamantes na celebração dos 30 anos de carreira do marido, Jay-Z; a princesa do Dubai, Sheikha Mahra, esteve na boutique em Nova Iorque a vestir várias peças; o mesmo fez o tenista Alexander Zverev, recente campeão de Roland Garros e embaixador da marca de Arabo, de quem recebeu “boa sorte” antes do Torneio de Wimbledon; e, antes da derrota do Brasil no Mundial 2026, estiveram também com Arabo os futebolistas Vinícius Jr. (que comprou um relógio de cerca de 300 mil dólares, cujo modelo reproduz a roleta de um casino) e Neymar, que investiu ainda mais no acessório: segundo a legenda do vídeo publicado por Arabo, o relógio do atleta custa cerca de um milhão de dólares. No passado mês de junho, a nomeação da digital influencer brasileira Virginia Fonseca como embaixadora da marca de joias Jacob & Co gerou polémica: Virginia responde judicialmente no Brasil por lucrar com os prejuízos dos seus seguidores em aplicações de apostas online.




Jacob Arabo, que “passou da miséria total aos diamantes“, afirma no seu site que “não pensa em parar tão cedo“. E não se limita à produção de joias: em 2022, esteve envolvido na construção de um dos edifícios residenciais mais altos do mundo (com previsão de ser finalizado no primeiro semestre de 2027), o Burj Binghatti Jacob & Co. Residences, no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU). Jacob, para além de dar o seu nome para o empreendimento, foi responsável pela consultoria de design, sendo o formato do prédio inspirado numa coroa e a decoração dos cómodos nas peças de alta joalharia e alta relojoaria da sua marca.
Em 2025, o magnata dos relógios lançou o Jacob & Co. Beachfront Living by Ohana, um condomínio de luxo entre Dubai e Abu Dhabi, construído em parceria com uma promotora imobiliária. O investimento no empreendimento que reúne 457 apartamentos, vilas e mansões foi de 1,3 bilhões de dólares (cerca de 1,11 mil milhões de euros). O projeto arquitetónico foi desenhado num formato que “reflete subtilmente” as iniciais J e C, em alusão à Jacob & Co. O relojoeiro foi responsável pelo design de um lustre que faz lembrar um relógio, de 10 metros de largura, que foi instalado logo à entrada do condomínio. Foram estes os dois primeiros passos de Jacob neste setor, no qual continua a trabalhar em mais projetos arquitetónicos nos EAU para imprimir a identidade da sua marca. O relojoeiro, joalheiro e designer, afinal, já não está presente só nos outfits das celebridades.
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