Nunca se falou tanto de felicidade. O “só quero é que sejas feliz” tornou-se o analgésico para encobrir as nossas perplexidades. Não queremos desagradar, ser desmancha-prazeres, mostrar o desacordo: “o que importa é que sejas feliz”. Não desejamos necessariamente o melhor, o bem, o excelente, mas alguma coisa, talvez indefinida: “que sejas feliz”.
Não tem resultado. No relatório mundial da felicidade deste ano, a avaliação que os menores de 25 anos fazem da própria vida caiu. Ou melhor: a maioria dos jovens do mundo está hoje mais feliz do que estava há vinte anos; porém, no Ocidente – nesse paciente cansado de se deitar no divã da psicanálise social – a felicidade recuou. Existem consequências visíveis disso. Só nos Estados Unidos, entre 2008 e 2020, a taxa de suicídio entre jovens dos 12 aos 17 anos aumentou 70%.
Alguma coisa falhou. Convém perguntar o quê. Se agora somos mais livres para escolher o que queremos, se agora, finalmente, nos libertámos, em clima de festa, dos jugos opressores dos antigos absolutismos, porque é que estamos mais infelizes? A minha suspeita é a seguinte: falhou o conceito. Chamamos felicidade a uma coisa que não o é.
Com razões tão óbvias como bem-intencionadas, no século passado a felicidade foi-nos anunciada como libertação. Em 1971, John Lennon vendeu a ideia de que seríamos felizes e viveríamos em paz, num mundo sem países, fronteiras, religião, paraíso ou inferno. Quando tal acontecesse, prometeu ele, não existiria “ganância ou fome”. Em Portugal, também os Xutos e Pontapés, em 1985, replicaram o mesmo imaginário na figura melancólica do Homem do Leme: aquele que, mesmo não sabendo para onde vai, resiste a quem o prende e a quem lhe tenta impor “uma fé”. Ele tem “uma vontade de ir, correr o mundo e partir”, mas nunca chegamos a perceber bem para onde. Como é dito a Alice, no País das Maravilhas: “se não sabes para onde vais, então, qualquer caminho serve”. Mas, reparem, existe um padrão. Nestas narrativas, a educação, ou qualquer referência, é sempre uma pérfida imposição contrária à liberdade. Tal como os alunos na aula do Clube dos Poetas Mortos, o nosso gesto inicial deveria ser rasgar a introdução do manual.
A promessa era suprema: quanto menos limites, mais felicidade. Mas foi precisamente essa promessa que se virou contra nós, porque sem fronteiras não há segurança e sem lei não há liberdade. O que nos venderam como caminho para a felicidade destruiu as condições em que uma vida feliz – a vida boa dos antigos filósofos gregos – pode florescer. Daí o paradoxo: não somos infelizes apesar da libertação, somo-lo, também, por causa dela.
Na Ética a Nicómaco, porém, Aristóteles é claro: a felicidade não é autoestima, não é autorrealização, não é um estado, nem é algo que se possua. Felicidade é uma atividade “conformada por uma excelência completa”. Ou seja, tem a ver com virtude, com a unidade e sentido da História, com o enriquecimento comunitário. Não está dependente da saúde ou da doença, da vida longa ou da vida curta, da honra ou da desonra.
Em geral, acreditamos que a vida serve para a felicidade. Não estou certo disso. Ser feliz é um exagero. Para muitos de nós, a felicidade é uma mordomia. Antes dela, e mais fundo do que ela, a vida oferece-se-nos como uma sucessão de decisões cruciais. E o equívoco só se agrava quando fazemos da felicidade um sinónimo de ausência de sofrimento ou de utilidade.
Lemos a Bíblia, Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare, e nunca ouvimos as suas personagens perguntar se serão felizes. Otelo, Job, Heitor ou D. Quixote querem outra coisa: fazer o que é justo, acertar, destruir o erro. Lemos Dostoiévski e percebemos porquê: não fomos feitos para a segurança, para a utopia, para a proteção, mas para o risco, para a dificuldade, para o incontrolável.
Mas insistimos. E, tendo feito da felicidade um dever, passámos a impingi-la, sobretudo, aos outros. Abrimos qualquer página e ouvimos conselhos para a emancipação, dicas para a liberdade, modelos de empoderamento. Tutoriais, questionários rápidos, “GRWMs”. Mas tenho a sensação de que isso soa a muita gente como preceitos tão castradores como os anteriores modelos que se visam destruir. Não deixa de ser irónico. Prometemos que a felicidade nos libertaria. Mas a felicidade acabou por ser a forma de nos prendermos àquilo que já somos.
Há vários motivos para querermos que familiares e amigos falecidos continuassem vivos. Não há maus motivos para isso. No meu caso, gostava que a minha avó estivesse viva, também para lhe perguntar se ela era feliz e voltar a ouvir: “Olha, João, ganha juízo, deixa-te de coisas e preocupa-te com assuntos importantes”.