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WNBA: A liga feminina que não sabe o que é uma mulher

O que é uma mulher? Por enquanto, a pergunta continua sem resposta aceitável, numa liga desportiva para mulheres e , de um modo mais geral, no  manicómio em que se encerrou uma certa esquerda.

José António Rodrigues do Carmo
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Começo por dizer que este artigo não é sobre basquetebol, assunto sobre o qual as minhas certezas são bastante fluidas.

A WNBA é a liga profissional americana de basquetebol feminino e, até há  pouco tempo, era apenas uma espécie de condomínio woke, acompanhada sobretudo por familiares das jogadoras, activistas e jornalistas de causas progressistas. O jogo em si, era de somenos importância.

A sua presidente, Cathy Engelbert, explicava que a  WNBA partilhava os valores da “inclusividade, equidade e advocacia” e que só queria parceiros que defendessem os mesmos princípios. A própria Liga apresenta-se oficialmente como ousada e progressista, comprometida com a DEI (diversidade, equidade e inclusão), a responsabilidade social e o combate às desigualdades racial e de género. Resumindo, a  DEI é a religião, o departamento de marketing e a política de recursos humanos da WNBA.  O basquetebol aparecia algures, entre a equidade e a “mudança transformacional”.

Até que surgiu Caitlin Clark, uma talentosa jogadora caucasiana, e tudo mudou. Os espectadores subiram em flecha e o dinheiro  começou a jorrar.

Clark não fez nada de especial, limitou-se jogar basquetebol (bem, segundo os especialistas)  e a fazer com que milhões de pessoas quisessem vê-la jogar. E isso trouxe receitas, patrocinadores e elevou a salários e benefício. O mercado em funcionamento é fascinante. Contudo, num ambiente “progressista”, agradecer a Clark seria blasfemar, até porque alguém poderia  sugerir que o mérito individual existe.

Embora Clark tenha feito tudo para evitar ferir susceptibilidades ou proferir comentários controversos, fartou-se de levar pancada das adversárias  e tornou-se uma das jogadoras mais detestadas da modalidade,  porque joga muito bem, não é “people of colour” e não encaixa no paradigma woke para as mulheres.

A questão racial torna o incómodo ainda mais requintado por  que,  numa modalidade em que apenas uma em cada cinco jogadoras é branca (tal como na NBA, o equivalente masculino), foi precisamente uma mulher branca, pouco interessada em sinalizar virtude e converter as conferências de imprensa em acampamentos de Verão do Bloco de Esquerda, que tornou o negócio interessante.

Clark fez até uma vénia ao catecismo woke, reconhecendo o seu “privilégio branco”, mas nem assim passou no exame. Na liturgia woke, a confissão serve apenas para confirmar a culpa.

Foi neste ambiente de excepcional pluralismo que Sophie Cunningham (SC), também caucasiana, e colega de equipa de Clark, disse que as raparigas não deveriam ter de competir contra homens. Acrescentou que havia espaço para todos e que também as mulheres possuíam direitos. O senso comum é bastante temerário em instituições onde ainda não recebeu formação em diversidade, pelo que SC foi logo  transformada numa perigosa extremista. Levou com vaias, manifestações nos jogos, bandeiras transgénero, camisolas de protesto e declarações lacrimejantes, indignadas, demagógicas e redondas.

Houve até jogadoras que garantiram que acolheriam atletas transgénero nas suas equipas ou contra as suas equipas, e que não viam nisso problema algum. Como actualmente não existe qualquer atleta transgénero na WNBA, esta coragem declarativa é gratuita e bastante popular nas redes sociais e no campeonato da sinalização de virtude. O delírio é tal, que as virtuosas parecem não perceber que, se entrassem atletas masculinos em número suficiente na WNBA, elas acabariam no banco ou a ver basquetebol pela televisão.

O sindicato das jogadoras, agora mais rico por causa do capitalismo, esclareceu que “abraçamos a justiça, a equidade, a diversidade e a inclusão (JEDI)”, e que  estes valores protegem o desporto feminino e produzem  “mudança transformacional”. Condenou obviamente a “demonização” das pessoas trans e prometeu que as jogadoras não seriam utilizadas como peões políticos.

Um manifesto político que termina exigindo não ser tratado como manifesto político é uma pequena obra-prima da ciência das pescadinhas de rabo na boca.

Notavelmente o contrato colectivo da WNBA determina que  só podem jogar mulheres. Parece bastante claro, mas pelos vistos não se sabe bem o que é uma mulher.

O que é então uma mulher?

A Presidente da Liga prometeu  abordar o assunto em conformidade com os “valores históricos” da Liga, preservando a integridade do jogo e a competição justa, isto é, chuva no nabal e sol na eira ao mesmo tempo.

Anunciou reuniões, sessões de auscultação e uma task force. Nem Kafka, assistido pelos Monty Python, teria pensado na complexidade de  determinar quem pode jogar numa competição feminina onde só podem jogar mulheres.

Aproveitando a convicção da WNBA, de que definir o que é uma mulher é algo inaceitável, racista ou coisa parecida, dois antigos jogadores da NBA ( Enes Kanter Freedom e Royce White)  anunciaram a intenção de se inscreverem na liga para 2027. Afinal, se a auto-identificação basta para transformar alguém numa mulher, quem pode dizer que estes calmeirões não são mulheres? Numa bolha em que a  biologia é ofensiva,  “mulher” é um conceito amorfo que não pode ser definido e a JEDI é a mais elevada forma de virtude, que argumento poderá impedir que estas duas atléticas e entroncadas mulheres vivam os seus sonhos, desenvolvam as suas experiências pessoais e joguem de forma inclusiva na Liga feminina?

Ora isto é irritante porque joga a realidade em cima das activistas da Liga e  obriga-as a seguir a sua lógica até ao ponto em que ela lhes morde os tornozelos. Com que fundamento podem recusar? A Liga precisa pois de uma comissão para responder a uma questão que a  biologia, ciência menos sofisticada e até fascista, resolve num segundo.

Entretanto  a jogadora DiJonai Carrington passou à acção.  Num jogo decidiu aplicar um correctivo ideológico à cotovelada e  atingiu fortemente a “transfóbica” SC, que ficou a sangrar. Foi naturalmente  expulsa e correu para as redes sociais, a  denunciar o “privilégio branco”.

Seguiu-se um tumulto que ainda reverbera, com algumas activistas a sugerir até que a agredida é que deveria ter sido expulsa.

A WNBA conseguiu assim produzir uma ilustração perfeita do catálogo vitimista woke:  uma jogadora negra agride uma adversária branca, é expulsa e responde invocando a cor da pele.

A própria treinadora de SC, perfeitamente doutrinada na virtude woke,  em vez de defender a sua atleta, declarou não acreditar que a agressão tivesse sido intencional, a agressora era apenas uma rapariga competitiva. Provavelmente pensou que  a sua jogadora agredida devia aceitar com humildade, como reparação de abstractas injustiças, as consequências do entusiasmo competitivo da Dijonai, dado o seu estatuto de vítima cósmica.

Imaginemos agora Clark ou SC a desancar uma jogadora negra e, minutos depois, a publicar “privilégio negro”.

Creio que não seria necessária uma task force para saber que se seguiriam condenações, indignações, denúncias de ódio e racismo,  comunicados, suspensões, seminários, genuflexões empresariais e talvez uma nova comissão JEDI.

Em suma, a Liga alega proteger as mulheres, mas não sabe o que é uma  mulher. Condena a politização, mas fez da política o seu produto. Proclama a igualdade racial, mas interpreta disputas individuais através do filtro da pele. E no intervalo disto tudo, recita o catecismo delirante que Manuel Maria Carrilho designou como a “Nova Peste”.

Que se instala quando se substituem regras  por slogans JEDI, biologia por pronomes, mérito por identidade e disciplina por passaporte racial.

Caitlin Clark e SF trouxeram o basquetebol à WNBA e, com isso,   público, dinheiro, patrocinadores, senso comum e uma pergunta aterradora para quem vive num ninho de cucos: o que é uma mulher?

Por enquanto, a pergunta continua sem resposta aceitável, numa liga desportiva para mulheres e , de um modo mais geral, no  manicómio em que se encerrou uma certa esquerda.

Tudo isto tem pouco a ver com desporto.