Levei para Nova Iorque, quando para lá parti para sempre, uma caixinha de prata com cinzas do meu pai. Não sabia bem o que fazer-lhes. Nunca a abri. Estava dentro de um saco de algodão também pequeno. Gostava de saber a caixinha em minha casa, num local onde não a visse todos os dias, e gostava pouco de a agarrar. Talvez um dia, pensava, quando tivesse coragem, pudesse conversar com a caixinha: e o meu pai ouvir-me através dela. Parecia-me bela a promessa da mulher que conversa com uma caixa de prata que não lhe responde, talvez sentada à mesa, contente, triste, ao longo de muitos anos.
Também pensei enterrar a caixa numa cova e plantar sobre ela uma árvore que pudesse dar-me sombra até eu ser velha, árvore que seria o pai do jardim, tivesse eu um jardim, que não tenho. A caixa enterrada seria o coração da árvore.
Apenas não queria desfazer-me da caixa, que me dava uma ilusão de proximidade, de ligação. Não queria aspergir a totalidade das cinzas do meu pai, como ele teria gostado, mas conservar essa mínima porção que a família não tinha deitado ao mar, para associar a sua memória a um lugar, e visitar esse lugar como se visitam sepulturas de entes queridos.
Em Nova Iorque, num dia tremendo, lancei a caixa ao Hudson. Atirei-a de um lugar onde todos os dias centenas de pessoas lançam ao rio desejos, mensagens, lembranças, esquecimentos. À distância, arrependo-me. Mas, naquele momento, gostei de imaginar que o meu pai teria gostado que uma pequena porção de si tivesse ficado em Nova Iorque.
Talvez seja também por isso que sinto que, agora que regressei, uma porção preciosa de quem sou morreu nessa cidade. Antes de partir, e durante muitos anos, gostava de me lembrar de uma frase ouvida a Robert Frank, um dos meus heróis: “Nova Iorque é como o mar, tira sempre alguma coisa de ti”. Uma coisa é ouvir uma frase, gostar de a repetir, achar que a entendemos. Uma coisa diferente é entendermos aquilo que uma frase importante significa da maneira mais difícil de todas. Agora que vamos delegando a linguagem às máquinas, penso que serão poucas as pessoas que ainda são sensíveis ao que acabo de dizer: ao sofrimento representado por aprender o significado de certas frases em toda a sua extensão.
Como esquecer um lugar que está em todo o lado, é cenário de toda a ficção, notícia diária, que povoa os nossos sonhos? Depois, penso que sobrevivi a Nova Iorque, mas deixei a caixinha de prata no Hudson. Ocorre-me que, enquanto faço por esquecer, a minha jóia mais valiosa jaz no rio. E sinto que o espírito do meu pai, cidadão do mundo, redime o que possa ter sido terrível. Imagino-lhe uma segunda vida pelas ruas, onde pertencia sem saber, companheiro de Frank na cambaleante Bleecker Street, deambulando pelos quarteirões, a jogar xadrez a dinheiro no Washigton Square Park, a divertir-se noite fora. E então só pela promessa da aventura póstuma do meu pai, a minha aventura não terá sido inteiramente em vão. Talvez toda a aventura tenha sido só uma forma muito complicada de a caixa de prata ser lançada ao Hudson, que é onde devia estar. E tudo não tenha passado de uma maneira obscura de dizer uma coisa muito importante.