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(A) :: "O 13 de agosto abriu-me os olhos. Já não queria pactuar com aquilo." O dia em que Berlim acordou com um Muro

"O 13 de agosto abriu-me os olhos. Já não queria pactuar com aquilo." O dia em que Berlim acordou com um Muro

Há 65 anos, a RDA construía uma barreira para separar Berlim numa só noite. O Observador falou com quem cresceu ao lado do Muro, quem fugiu e quem ajudou outros a escapar.

Cátia Bruno
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A infância de Detlef Jablonski podia ser um romance de Charles Dickens.

Nasceu em 1955 na prisão de Jerichow, na República Democrática Alemã (RDA), onde a sua mãe estava a cumprir pena. Aos dois meses, foi entregue aos cuidados da família da tia, onde os maus-tratos eram diários. “Eu era tratado como um criado. Fazia as compras, ia buscar carvão, cortava madeira, polia sapatos, fazia as limpezas”, conta ao Observador o alemão, agora com 71 anos. “Se não fizesse o que ela dizia, era açoitado.”

Durante esses tempos, a família recebia habitualmente a visita de uma mulher. O que Detlef não sabia ao início é que se tratava da sua mãe, que entretanto se tinha mudado para Berlim Ocidental, o lado da capital alemã que pertencia à República Federal Alemã (RFA).

A mãe de Detlef não era caso único. Ao longo das primeiras décadas desde que Berlim fora partida em duas, ficando dividida numa RDA comunista (sob a esfera de influência da União Soviética) e numa RFA ocidental (sob a esfera de influência de norte-americanos, britânicos e franceses), era comum muitos berlinenses trocarem Berlim Oriental pela Ocidental.

O fenómeno intensificava-se e a Alemanha de Leste ia sofrendo uma hemorragia de trabalhadores: entre 1949 e 1961, dois milhões e meio de pessoas atravessaram a linha de demarcação, 80% delas através da fronteira que dividia Berlim. Eram sobretudo trabalhadores qualificados: 7.500 médicos, 1.200 dentistas, centenas de milhares de trabalhadores técnicos, de acordo com os números da historiadora Katja Hoyer.

Procuravam sobretudo uma vida melhor no Ocidente capitalista. À altura, circulava uma anedota que ilustrava as dificuldades na RDA: “Sabiam que Adão e Eva eram na verdade alemães de Leste? Não tinham roupa, tiveram de partilhar uma maçã e faziam-nos acreditar que viviam no Paraíso.”

O contraste entre as duas Berlim não podia ser maior, como testemunhou Burkhart Veigel, que chegou a Berlim Ocidental vindo da Turíngia em abril de 1961 para estudar Medicina. “Ia ao teatro em Berlim Oriental duas ou três vezes por semana. Durante as minhas visitas, nunca conheci ninguém no Leste — parecia-me que ali toda a gente tinha ‘fechado as persianas’”, recorda agora ao Observador o médico de 88 anos. “O facto de tudo ser mais escuro do que em Berlim Ocidental e de as pessoas desviarem timidamente o olhar quando me cruzava com elas era estranho. Sentia-me sempre aliviado quando entrava no S-Bahn de volta a Berlim Ocidental.

Quatro meses depois, tudo mudaria. O líder da RDA, Walter Ulbricht, concluiu que a hemorragia de habitantes não podia continuar. A “Operação Rosa” foi colocada em marcha, com o beneplácito do líder soviético, Nikita Kruschev. Tudo aconteceria na noite de 13 para 14 de agosto de 1961, o dia que ficaria marcado na História com um nome: Stacheldrahtsonntag, o “Domingo do Arame Farpado”.

“Sabem qual é a missão. Marchem”

Apenas dois meses antes, Ulbricht tinha negado qualquer intenção de separar as duas Berlim. “Primeiro-secretário, a criação de uma Berlim neutral, na sua opinião, significa que vai haver uma fronteira no Portão de Brandemburgo?”, questionou uma correspondente de Berlim Ocidental na conferência de imprensa convocada pelo líder, para a qual foram convidados jornalistas da RFA — eram mais de 300 os presentes. “Ninguém tenciona construir um muro”, respondeu Ulbricht.

Não era verdade. À altura, já o primeiro-secretário estava envolvido em longas conversas com Kruschev sobre como estancar a fuga de berlinenses da RDA. E já tinha nomeado um homem para tratar dos preparativos: Erich Honecker, secretário de segurança do Partido que viria a substituir Ulbricht dali a menos de dez anos.

Foi escolhida a noite de 13 para 14 de agosto porque domingo era dia do Kreuzberg Kinderfest, a feira anual para crianças da cidade. “Bandeiras e fitas decoravam a rua estreita, onde crianças de todos os setores de Berlim riam, brincavam e pediam gelados e bolo aos pais. Das janelas dos apartamentos, adultos babados atiravam rebuçados às crianças no meio da rua”, recorda o jornalista Frederick Kempe no seu livro Berlin 1961: Kennedy, Khrushchev, and the Most Dangerous Place on Earth (sem edição em português).

“De forma a prevenir as atividades inimigas dos poderes vingativos e militaristas da Alemanha Ocidental e de Berlim Ocidental, serão introduzidos controlos nas fronteiras da República Democrática Alemã, incluindo na fronteira do setor Ocidental da Grande Berlim.”
Documento de Erich Honecker com as ordens para os soldados

O primeiro-secretário também fez uma noite de festa. No jardim da sede do Partido, reuniu os mais altos responsáveis políticos e militares da RDA para um buffet que incluía salmão fumado e caviar. Por volta das 22h, pediu aos convidados que se juntassem a ele para “uma pequena reunião”. Entregou-lhes envelopes com instruções escritas sobre a operação que iria transformar o rosto de Berlim, rematadas com “cumprimentos socialistas” por parte de Honecker. “Todos concordam?”, perguntou Ulbricht. Ninguém contestou a decisão.

A essa hora, os militares reunidos nos quartéis já tinham também recebido envelopes com o mesmo conteúdo e sido informados dos detalhes da sua missão. “De forma a prevenir as atividades inimigas dos poderes vingativos e militaristas da Alemanha Ocidental e de Berlim Ocidental, serão introduzidos controlos nas fronteiras da República Democrática Alemã, incluindo na fronteira do setor Ocidental da Grande Berlim”, podia ler-se no documento. À meia-noite, Honecker deu a ordem por telefone: “Sabem qual é a missão. Marchem.”

Uma hora depois, os candeeiros das ruas de Berlim eram desligados. Milhares de soldados e membros da guarda fronteiriça, da polícia antimotim, da Stasi (polícia política) e das milícias populares do Estado atiraram-se ao trabalho de construir as barreiras de arame farpado — o regime tinha comprado 150 toneladas a fabricantes na Alemanha Ocidental e no Reino Unido ao longo das semanas anteriores, sem levantar suspeitas. Ao mesmo tempo, o programa “Melodias da Noite” da rádio era interrompido para se ouvir um aviso, recordado pelo Die Welt: seria “introduzido um sistema na fronteira com Berlim Ocidental para bloquear de forma segura atividades subversivas contra os países do bloco socialista”.

Cinco horas depois, 193 ruas, 68 pontos de passagem e 12 estações de comboio tinham sido fechados. Honecker recebeu a informação de que a missão estava concluída e declarou à sua equipa: “Agora podemos ir para casa”.

A “ratoeira” das primeiras horas

Os primeiros a perceber o que estava a acontecer foram os jornalistas.

Robert MacNeil, correspondente da norte-americana NBC, recebeu um telefonema de um colega em Nova Iorque a perguntar-lhe se sabia o que se passava na fronteira. Vestiu-se a correr e saiu porta fora. “Os alemães de leste tinham pequenas gruas com as quais estavam a mover enormes vasos de cimento e a colocá-los nas estradas por baixo do Portão de Brandemburgo. Ao início parecia uma piada: estão a fechá-lo com flores”, contou anos depois à PBS. “Mas quando se olhava para o lado direito, na direção da Potsdamer Platz, podia ver-se que estavam a erguer uma barreira de arame farpado do lado esquerdo do Portão.”

Outro norte-americano, Robert H. Lochner (da rádio norte-americana da Alemanha Ocidental RIAS), conduziu por toda a cidade. Numa estação de comboios, viu uma mulher de idade perguntar a um guarda qual o próximo comboio para Berlim Ocidental. “Isso acabou. Vocês estão numa ratoeira”, respondeu o soldado.

Enquanto amanhecia, os berlinenses começavam a assimilar o que se tinha passado na sua cidade durante a noite. A comunicação com os familiares do outro lado do Muro era impossível, porque as linhas telefónicas tinham sido cortadas. Nas ruas, as multidões acumulavam-se para espreitar para o outro lado da barreira; e, do lado de Berlim Ocidental, muitos outros se juntavam a acenar a amigos e familiares.

O estudante de Medicina Burkhart Veigel estava na Grécia quando tudo aconteceu. Quando as notícias lhe chegaram, teve medo de não conseguir regressar a Berlim Ocidental, mas tudo decorreu sem incidentes à chegada. A revolta, porém, começou a borbulhar dentro de si. “Aqueles idiotas estavam a vedar a fronteira. Não conseguia suportar aquilo”, desabafa, 65 anos depois. “Queria que toda a gente crescesse como eu cresci: podendo discutir tudo, sem tabus, com separação de poderes, imprensa livre, etc.”

“Fugi para Berlim Ocidental na terça-feira, 15 de agosto, atravessando a interseção da Friedrichstraße com a Kochstraße. Estava vestido com roupas de verão e não tinha nada comigo aparte a minha identificação, escondida nas cuecas.”
Reinhard Spiller

O mecânico de telecomunicações e morador em Berlim Oriental Reinhard Spiller também não estava em Berlim quando tudo aconteceu, mas, quando chegou à fronteira vindo de uma viagem para acampar na costa do Mar Báltico, não encontrou uma receção tão calorosa. “A polícia ditou o que seria o meu futuro: primeiro, uns tempos a ajudar com as colheitas; depois, serviço militar obrigatório; só depois disso podia voltar a trabalhar na minha profissão.” A atitude que encontrou, garante ao Observador, era clara: “Agora eles já não podem fugir.”

Mas o jovem Reinhard, de 20 anos, estava decidido a fugir, até porque há muito que era acossado pelas autoridades pelo seu envolvimento num grupo de jovens de uma igreja. Para além disso, desejava entrar na Universidade para estudar Engenharia e, de imediato, percebeu que nunca teria essa oportunidade se ficasse na RDA. “Fugi para Berlim Ocidental na terça-feira, 15 de agosto, atravessando a interseção da Friedrichstraße com a Kochstraße. Estava vestido com roupas de verão e não tinha nada comigo aparte a minha identificação, escondida nas cuecas.” Atravessou simplesmente a pé uma das áreas por onde se podia atravessar. Ao segundo dia de Muro, a máquina de controlo ainda não estava bem oleada, como se vê pelas mais de quatro mil pessoas que fugiram para Oeste no primeiro dia.

Outros não tiveram a vida tão facilitada. Hartmut Richter vivia com os pais em Berlim Oriental, mas estava na RFA na noite em que o Muro foi construído. Os pais trabalhavam na apanha de fruta todos os verões e era habitual o adolescente ir passar esses dias com a família do pai, que vivia em Berlim Ocidental. “Estava lá quando fecharam a fronteira. O 13 de agosto abriu-me os olhos. Já não queria pactuar com aquilo”, sentencia.

Ao Observador, não relata os pormenores da sua fuga difícil, que aconteceria cinco anos mais tarde. Mas a história já foi contada pelo Le Monde. Na noite de 26 de agosto de 1966, Hartmut atravessou a nado o canal de Teltow, com um saco de plástico ao pescoço com os seus documentos. Esteve quatro horas dentro de água. Agora, aos 78 anos, fala de forma lacónica sobre esses dias: “Fiquei muito triste por deixar para trás aqueles que me eram mais queridos. Durante anos, a única coisa que podia fazer era escrever cartas — que, é claro, também eram lidas pela Stasi.”

A inação do Ocidente: “Um muro é infinitamente melhor do que uma guerra”

“Portão de Brandemburgo fechado”, podia ler-se na primeira notícia publicada na madrugada de 14 de agosto de 1961, pela Associated Press.

A notícia espalhou-se como pólvora. E, ao longo das primeiras horas, os berlinenses acalentaram a esperança de que tudo não passaria de um pesadelo de curta duração: mais cedo ou mais tarde, acreditavam, os países do Ocidente iriam reagir. “Quase todos os berlinenses de Leste acreditavam firmemente que os norte-americanos iriam intervir e usar tanques para remover ou esmagar o arame farpado”, recorda o médico Veigel.

O Presidente norte-americano, John F. Kennedy, estava de férias em Cape Cod na noite em que o Muro foi erguido. Na manhã de segunda-feira, foi com a família à missa e depois foi dar uma volta de barco. Só a meio da viagem foi informado do que tinha acontecido em Berlim na noite passada. Ficou furioso: chamou o diretor da CIA para questionar como era possível os EUA terem sido apanhados desprevenidos.

Os líderes britânico e francês também estavam de férias. O primeiro-ministro Harold MacMillan estava na abertura da época de caça ao ganso e não considerou o tema suficientemente relevante para abandonar Yorkshire depois de ser informado. Já o general De Gaulle estava na sua casa de campo em Colombey-les-Deux-Églises — só voltaria a Paris três dias depois.

Entretanto, Berlim Ocidental fervia de indignação pela falta de resposta dos líderes ocidentais. “A causa alemã está num grande perigo. Já passaram três dias e até agora não aconteceu nada a não ser um protesto escrito dos comandantes Aliados. Estamos desiludidos!”, escreveu-se no editorial do Bild.

Atento ao estado de espírito da população, o Presidente da Câmara Willy Brandt entrou em ação e escreveu uma longa carta a Kennedy. O Presidente norte-americano não gostou. Um dia mais tarde, Brandt discursou perante uma multidão em Berlim Ocidental, apelidando a nova barreira de “Muro da Vergonha” e implorando a Kennedy para que interviesse.

A inação dos EUA desiludia muitos. Incluindo alguns norte-americanos, como o diplomata Richard W. Boehm, à altura colocado em Berlim: “Achava — e hoje em dia estou convencido de que tinha razão — que a administração Kennedy decidira não lutar por Berlim Oriental”, comentou em 2016. Os historiadores não têm dúvidas de que, receoso de um conflito nuclear com a URSS, o Presidente norte-americano preferiu nada fazer. “Não é uma solução lá muito bonita, mas um muro é infinitamente melhor do que uma guerra”, comentou Kennedy com alguns responsáveis da Casa Branca nos dias a seguir à construção do Muro.

Os habitantes de Berlim Ocidental continuavam irados. Multidões escreviam no Muro “KZ” (sigla para “Campo de Concentração”) e gritavam palavras de ordem. Alguns atiravam pedras aos soldados. Uns estudantes universitários colocaram junto à barreira um chapéu de chuva preto, numa referência ao chapéu usado por Neville Chamberlain quando se encontrou com Hitler em Munique. “Onde estão os americanos?”, perguntavam alguns dos cartazes que empunhavam.

“Quando regressei a Berlim a 30 de outubro, o Muro já estava de pé por todo o lado”, recorda Burkhart Veigel. “Entre os habitantes de Berlim Ocidental, prevalecia um enorme sentimento de solidariedade que durou até ao final de 1973, que culminava no slogan ‘Antes morto do que vermelho’. Vou traduzir a ideia: ‘Se os soviéticos se atrevessem a atacar e conquistar Berlim Ocidental, faria qualquer coisa para o prevenir, mesmo que me custasse a vida.”

Os líderes ocidentais ignoravam os protestos. “Assim que o Muro foi construído, isso criou uma espécie de estabilidade”, recordou o diplomata norte-americano Thomas Niles, que trabalhava à altura no Gabinete para os Assuntos da União Soviética. “Aprisionou 17 milhões de pessoas na Alemanha de Leste, mas garantiu, de forma perversa e repugnante, estabilidade numa zona potencialmente instável.”

As fugas pelas janelas e a ordem para matar

O regime da RDA chamou-lhe “barreira de proteção antifascista”. Com o tempo, o arame farpado seria substituído por um muro de cimento e o aparato militar para o guardar cresceria. As autoridades da RDA estabeleceram também aquilo que ficaria conhecido como “A Faixa da Morte” — um espaço a céu aberto entre dois muros, onde qualquer um que lá chegasse era rapidamente abatido. “Para chegar ao Muro vinda de Leste, uma pessoa tinha de escalar a barreira de cimento interior e fugir aos guardas, cães, minas, armas automáticas e equipamentos desenhados para fazer disparar alarmes e luzes”, resumiu o historiador Norman Gelb no seu livro The Berlin Wall: Kennedy, Khrushchev, and a Showdown in the Heart of Europe (sem edição em português).

Mas logo nos primeiros dias após o “Domingo do Arame Farpado”, vários berlinenses tentaram escapar das formas mais inusitadas. Como a enfermeira Ida Siekmann, cuja casa estava encostada à barreira, que decidiu saltar pela janela, acabando por morrer. Outros que fizeram o mesmo sobreviveram, amparados por pessoas de Berlim Ocidental que levavam lençóis para os apanhar. Foi o caso de Frieda Schulze, de 77 anos, que ficou presa na janela — do lado de dentro estavam soldados da RDA que lhe puxavam os braços, do lado de fora bombeiros da RFA que lhe agarravam as pernas.

Um ano depois da construção do Muro, uma tentativa de fuga chocou os berlinenses: Peter Fechter tentou passar a barreira com um amigo, mas foi atingido a tiro pelos soldados. Do outro lado, os soldados norte-americanos nada podiam fazer, já que se interviessem podiam provocar um incidente diplomático ou talvez pior. “Guardas deixam jovem de 18 anos sangrar até à morte, enquanto os americanos observam”, escreveu o Bild. Ironicamente, antes da fuga, Fechter trabalhava como pedreiro e tinha sido recrutado para construir a versão de cimento do Muro.

Oficialmente, a RDA garantia que os soldados colocados no Muro não tinham ordens para matar. Documentos descobertos na Alemanha em 2007, porém, revelaram que a ordem era clara: “Não hesitem em usar a vossa arma quando há uma tentativa de furar feita por mulheres ou crianças, porque no passado isso já foi explorado por traidores.”

Não há consenso sobre quantos morreram a tentar atravessar o Muro. Estima-se que terão sido pelo menos 270, mas há estudos que colocam o número de vítimas próximo de um milhar. Segundo uma investigação da Universidade Livre de Berlim, metade teriam entre 18 e 25 anos. Cerca de 10% eram mulheres.

Um passaporte diplomático português, um esconderijo num tablier e túneis. Os alemães que ajudaram outros a fugir

Reinhard Spiller, que um dia depois da construção do Muro tinha conseguido atravessar tranquilamente para Berlim Ocidental, adaptava-se ao outro lado da cidade. “Uma segunda vida começou depois de o Muro ter sido construído. Estava a estudar e lentamente começava a controlar a minha vida”, enquadra. Até que recebeu uma carta da mãe onde esta lhe pedia diretamente ajuda para escapar. Reinhard pediu então ajuda a um amigo português que conhecera entretanto na Universidade. Foi com um passaporte diplomático falsificado, onde era identificado como “Hans Brucke” nascido em “Chicuma” (Angola) e com nacionalidade portuguesa, que conseguiu trazer os pais pelo famoso Checkpoint Charlie a 8 de maio de 1962. “Acho que já não devo ter problemas com a polícia portuguesa”, comenta com humor com o Observador.

O documento falsificado continuou a ser usado ao longo dos anos seguintes. Isto porque Reinhard decidiu começar a ajudar outros que queriam fugir de Berlim Oriental. “Ajudei em vários casos difíceis, com crianças pequenas, pessoas doentes e até pessoas que tinham ordem de prisão.” Ao todo, com recurso a passaportes diplomáticos forjados, o jovem contribuiu para trazer cerca de 50 pessoas para a RFA.

Como ele, muitos outros se envolveram em operações semelhantes. Foi o caso do médico Burkhart Veigel, que assim que o Muro foi construído, decidiu juntar-se a essa causa. “Nunca recorri à força — como armas ou túneis —, mas consegui ser mais esperto do que os guardas com algumas técnicas de distração”, recorda, enumerando estratégias como criar um esconderijo no tablier de um carro que podia levar uma pessoa. “É claro que todo este esforço envolveu riscos, mas eram perfeitamente controláveis: no fundo, se as minhas instruções fossem cumpridas e houvesse o devido cuidado, nada poderia correr mal.”

“Nunca recorri à força — como armas ou túneis —, mas consegui ser mais esperto do que os guardas com algumas técnicas de distração. (...) É claro que todo este esforço envolveu riscos, mas eram perfeitamente controláveis: no fundo, se as minhas instruções fossem cumpridas e houvesse o devido cuidado, nada poderia correr mal.”
Burkhart Veigel

Há relatos de fugas ainda mais impressionantes, como as que eram feitas através de túneis. O mais conhecido é o Túnel 29, construído por Joachim Rudolph já depois de ter fugido em 1961, para trazer outras pessoas. A história deu origem a um podcast, um livro e um filme. Ao todo, cerca de 70 túneis terão sido construídos por baixo do Muro de Berlim. Pelo menos 90 pessoas terão conseguido fugir através deste método.

Hartmut Richter não teve a mesma sorte de Spiller e Veigel. O terceiro homem que falou com o Observador também se envolveu em esforços de resgate, conseguindo ajudar 33 pessoas a chegarem a Berlim Ocidental, escondidas no seu porta-bagagens. Mas foi apanhado um dia em que um cão detetou o cheiro de uma pessoa. Esteve preso quase seis anos. Durante esse período, diz, foi sujeito aos “métodos subtis” da Stasi.

A vigilância da Stasi, que prendia e torturava os que tentavam fugir

Detlef Jablonski também sabe o que eram as prisões da RDA. O homem que teve uma infância digna de Charles Dickens tentou escapar de Berlim Oriental em 1974, quando tinha 19 anos. Não era movido por razões políticas: queria apenas reencontrar-se com a mãe, que não voltara a ver desde que o Muro fora construído.

Em vez de atravessar a “barreira de proteção”, Jablonski tentou fugir pela Checoslováquia, mas um dos homens que trabalhava na bilheteira da estação de comboios avisou a Stasi de que o jovem só tinha comprado um bilhete de ida. “Fui retirado do comboio e, depois de esperar algumas horas, fui trancado numa sala sem nada para comer ou beber. Também não havia casa de banho. Antes disso, confiscaram-me o cinto, os atacadores, os cigarros, o relógio, o casaco e a carteira.” Depois foi interrogado. Ficou preso cinco anos. Durante esse tempo, passou vários períodos na solitária.

O isolamento era uma das técnicas usadas pela Stasi para quebrar os prisioneiros, como relata o historiador Fredrick Taylor no seu livro O Muro de Berlim (Tinta da China): “Não era permitido a nenhum prisioneiro conversar ou ver outro. Um sistema de ‘semáforo’ nos cantos dos labirínticos e lúgubres corredores avisava se outro detido e o guarda que o acompanhava se estavam a aproximar. Se assim fosse, o primeiro prisioneiro era empurrado para um nicho com o tamanho de um homem especialmente escavado na parede, onde teria de ficar de pé, com a cara encostada aos tijolos escuros, até o outro prisioneiro e o guarda terem passado.”

As celas, relata o historiador, “consistiam apenas numa cama e numa latrina. Uma janela de vidro fosco deixava entrar um pouco de luz natural, mas não permitia ver lá para fora. Todo aquele lugar era desesperadamente solitário e estranhamente silencioso.” A tortura era sobretudo psicológica.

Quase todos os berlinenses entrevistados pelo Observador tiveram problemas com a Stasi. Burkhart Veigel, mesmo sendo de Berlim Ocidental, foi alvo de duas tentativas de rapto por parte da polícia política. Reinhard Spiller descobriu anos mais tarde que estava sob vigilância e que uma vez escapou por pouco. A Stasi vigiava toda a sociedade de Berlim Oriental. E não apenas os alemães, como se comprova numa investigação feita pelo Observador, que deu conta de que a embaixada portuguesa em Berlim chegou a ter 13 informadores da polícia política no seu interior. Pelo menos dois eram cidadãos portugueses.

https://observador.pt/especiais/a-secretaria-que-espiava-a-embaixada-em-berlim-e-o-diplomata-que-ia-ser-expulso-como-a-stasi-vigiou-e-usou-os-portugueses-ate-1989/

A queda da “parede mágica”

Apesar de ser filho do embaixador, João Madeira de Andrade não sabe nada sobre isso. Quando viveu em Berlim Oriental, na década de 1980, o edifício da representação portuguesa era vigiado como tantos outros, mas um adolescente dificilmente se aperceberia disso. Com autorização para estudar em Berlim Ocidental por ser filho de um diplomata, não estava totalmente exposto ao dia a dia na RDA. Mas, mesmo assim, garante que uma Berlim e outra eram “um confronto de realidades”. “Mesmo que uma pessoa não reparasse à primeira, reparava à segunda. A maneira como as pessoas se vestiam, o comportamento das pessoas, a maneira de falar…”, explica ao Observador. “Não sei se já viu aquele filme, o Good Bye, Lenin? Era isso.”

"As pessoas gradualmente iam-se aproximando da fronteira e depois viam que os militares não faziam nada, não ofereciam resistência. Então foi uma festa. Foram dias e dias seguidos. As pessoas saltavam para o outro lado, para cima do muro, por baixo do muro, toda a gente… Foi inacreditável.”
João Moreira de Andrade, filho do embaixador português na RDA em 1989

A RDA do final dos anos 80 já não era a mesma dos tempos em que o Muro foi construído. Honecker, o homem que orquestrou a “Operação Rosa”, era agora o líder, mas faltava-lhe o vigor de outrora. “Já se notava ali uma decadência do sistema. Honecker já estava claramente debilitado, a perder a mão”, reflete Madeira de Andrade. “Dava a ideia de que a própria estrutura política já estava quase sem vontade de andar.”

A 19 de janeiro de 1989, Honecker fez uma promessa aos berlinenses e ao mundo: “O Muro continuará de pé daqui a 50 ou até 100 anos se as razões para a sua existência não forem eliminadas.” Dez meses depois, o Muro caía e o regime esboroava-se com ele.

O embaixador Pedro Madeira de Andrade, pai de João, estava numa receção da embaixada da Grécia quando os empregados disseram aos diplomatas para irem ver as notícias: “Estão a dizer que acabou o controlo de fronteiras.” João Madeira de Andrade não esquece o que viu nos dias seguintes: “As pessoas gradualmente iam-se aproximando da fronteira e depois viam que os militares não faziam nada, não ofereciam resistência. Então foi uma festa. Foram dias e dias seguidos. As pessoas saltavam para o outro lado, para cima do muro, por baixo do muro, toda a gente… Foi inacreditável.”

Em Berlim Ocidental, Hartmut Richter, Burkhart Veigel e Reinhard Spiller assistiam ao momento com incredulidade, mas, sobretudo, felicidade. “Fiquei muito feliz por finalmente poder ver a minha terra natal outra vez”, confessa o primeiro. “Chorei toda a noite. Foi o dia mais feliz da minha vida”, acrescenta o segundo. Para Spiller, foi sobretudo um alívio: “Saiu-me um peso dos ombros. Vivia num medo e numa tensão constantes, sabendo como a Stasi continuava atrás de mim. Estou feliz por ter acabado.”

Detlef Jablonski tinha sido libertado da prisão graças a uma amnistia negociada pela RFA com a RDA, como tantos outros, e já vivia em Berlim Ocidental. Naquela noite, porém, estava na Tailândia, para onde tinha viajado. Quando regressou, não se aproximou do Muro; Berlim já não era a cidade que conhecia. “O facto de a fronteira estar aberta deixou-me desconfortável. Não consegui atravessar o Portão de Brandemburgo até 1995”, confessa. “Quando finalmente o fiz pela primeira vez, foi como se estivesse a atravessar uma parede mágica.”

Quando se assinalaram os 25 anos da queda do Muro de Berlim, em 2014, uma empresa alemã de sondagens fez um estudo sobre o tema. Só metade dos inquiridos sabia o que representa a data de 13 de agosto de 1961 — o domingo em que os berlinenses acordaram com um Muro a rasgar a sua cidade.

*Artigo atualizado às 19h30 para corrigir o nome de João Madeira de Andrade (e não Moreira) e do seu pai, o embaixador Pedro Madeira de Andrade