A modernidade ocidental, ao consagrar o indivíduo como o artífice supremo do seu próprio destino, legou-lhe o peso absoluto da responsabilidade, uma carga existencial outrora desconhecida. Num mundo desprovido de desígnios providenciais aparentes, onde o indivíduo é soberano, o fracasso pessoal deixa de ser uma provação divina para se tornar um veredicto condenatório sobre a sua própria competência, inteligência ou valor moral. Perante a crueza desta humilhação existencial, a psique humana, ciosa da sua autopreservação, reage não através da introspeção, mas sim da projeção. A incapacidade de o ser humano se confrontar com o abismo das próprias limitações ou a contingência trágica da sorte, constitui a génese das mais poderosas construções ideológicas e teológicas da história humana.
A tese fundamental que aqui vou tentar demostrar, propõe que o sucesso perene das ideias políticas populistas, independentemente da sua sofisticação teórica ou do seu posicionamento no espetro ideológico, reside na sua eficácia enquanto mecanismos de externalização da culpa. Antes de serem programas económicos ou propostas de organização social, as ideologias populistas operam como sofisticados amortecedores psicológicos, cuja função primária é localizar o mal num agente externo, absolvendo o sujeito da autoria dos seus próprios insucessos.
O Diabo e a Inocência Primitiva
Para compreender a mutação secular deste fenómeno, é imperativo analisar o seu arquétipo original. Na teologia abraâmica é a figura do demónio que encarna a externalização da culpa. Agostinho de Hipona mostrou-nos através do livre-arbítrio, que somos os únicos responsáveis pelas nossas decisões. Ainda assim, a vivência mística popular tendeu historicamente para um maniqueísmo reconfortante, onde a existência do Demónio serve para justificar as nossas insuficiências. Na economia da salvação, a personificação do mal na figura do Diabo, cumpre uma função psicossocial de um bode expiatório metafísico. O Diabo, paradoxalmente, restitui ao homem uma réstia de inocência primitiva. A transcendência religiosa oferece, assim, o primeiro grande modelo de desresponsabilização radical.
O Marxismo e o Diabo Estrutural
Com o advento do Iluminismo e o subsequente processo de secularização do Ocidente, o esvaziamento dos altares não extinguiu a necessidade humana de redenção e de culpabilização. O vazio teológico foi prontamente preenchido por religiões seculares, das quais o Marxismo se revelou a mais bem-sucedida e intelectualmente sedutora.
A genialidade metodológica do Marxismo não está na análise anatómica do capitalismo oitocentista, mas sim na sua capacidade de transmutar a escatologia cristã em termos sociológicos. O pecado original passou a ser a propriedade privada, o povo eleito, o proletariado, e o Diabo, até então uma entidade espiritual invisível, materializou-se na forma de Relações de Produção, Burguesia ou Sistema.
Ao postular o determinismo materialista, onde a superestrutura da consciência individual é inteiramente moldada pela infraestrutura económica, o marxismo ofereceu um alívio existencial sem precedentes. O indivíduo alienado, empobrecido ou fracassado na arena da concorrência capitalista é despojado de qualquer responsabilidade sobre a sua condição. A culpa não reside nas suas escolhas, na sua falta de audácia ou no mero azar biológico e social, a culpa é do Sistema. Esta transferência de agência confere uma dignidade imediata ao sofrimento. A miséria deixa de ser uma falha de adaptação individual e passa a ser um martírio heroico na vanguarda da história. A ideia sobrevive com vigor inabalável, imune aos desastres da sua aplicação prática, precisamente porque o seu valor de uso psicológico na absolvição do eu é infinitamente superior à sua eficácia económica.
A Extrema-Direita e o Inferno no Outro
Se a esquerda radical projeta o seu diabo nas estruturas do capitalismo, a extrema-direita opera uma projeção da culpa em grupos minoritários. A mecânica psicológica, contudo, permanece rigorosamente idêntica. Diante da angústia da decadência económica, da perda de estatuto social ou da irrelevância individual, o pensamento reacionário e xenófobo recusa igualmente o exame de consciência. Todavia, por razões de economia cognitiva e evolutiva, a mente humana lida com maior facilidade com ameaças tangíveis do que com abstrações sistémicas. O diabo da extrema-direita necessita de um rosto, de uma geografia e de uma incapacidade de alteridade perante a diferença.
Surgem assim, no papel de bodes expiatórios, as minorias, os imigrantes, os judeus ou, na modernidade tardia, o turista que gentrifica o espaço urbano. A causalidade é invertida através de uma lógica tribal elementar. “Eu sou pobre ou marginalizado não por insuficiência própria, mas porque o outro me usurpou o quinhão que me era devido por direito de nascença”.
Como Jean-Paul Sartre lucidamente diagnosticou na sua análise sobre o antissemitismo, o intolerante cria o inimigo para justificar a sua própria mediocridade. A pertença a um coletivo místico, a raça, a nação, o povo puro, confere uma aristocracia automática ao indivíduo, dispensando-o do labor do autoaperfeiçoamento. O inferno, no sentido mais literal da expressão sartriana, passa a ser defensivamente localizado no outro.
A Recusa da Liberdade
Em última análise, tanto o dogmatismo religioso como as ortodoxias políticas polares convergem no mesmo pavor fundamental à liberdade descrita pelo existencialismo. Viver em liberdade significa aceitar que somos os únicos autores das nossas escolhas e os principais depositários dos nossos fracassos, num mundo que não nos deve absolutamente nada.
As ideologias totalitárias ou populistas, prosperam porque oferecem uma narrativa maniqueísta onde o mundo está rigidamente dividido entre os puros e os impuros, os opressores e os oprimidos, os fiéis e os infiéis. Ao fazê-lo, retiram ao Homem o fardo insustentável da autonomia moral. A sobrevivência e o sucesso das ideias políticas não se medem pela sua verdade empírica ou pela sua capacidade de gerar riqueza e justiça nas sociedades que transformam, medem-se sim, pela eficácia com que conseguem manter o indivíduo em paz com as suas próprias falhas, oferecendo-lhe, a cada esquina da história, um novo demónio a quem culpar.
Post scriptum: O título deste texto usa a mesma estratégia dos populismos. Instrumentaliza a externalização da culpa para dizer aos eleitores que eles são vítimas da maleficência desses partidos, quando na realidade são cúmplices.