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Montenegro à procura de fôlego e de uma nova vida nos 50 anos do Pontal

Primeiro-ministro chega à rentrée com dois ministros em xeque e depois de ano exigente, entre incêndios, tempestades e guerras — políticas e literais. Caminho ainda mais estreito a partir de setembro.

Miguel Santos Carrapatoso
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O sol está quase a pôr-se. No calçadão de Quarteira, engalanado para voltar a receber a Festa do Pontal, que Luís Montenegro desenterrara depois do ciclo de Rui Rio, respira-se entusiasmo. É dia 14 de agosto de 2022 e ei-lo, Pedro Passos Coelho, de regresso à vida partidária cinco anos depois de ter desaparecido do dia a dia do PSD. Camisa branca por fora das calças, mas impecavelmente engomada, mangas ligeiramente arregaçadas, calças de ganga e sapatilhas brancas. É recebido por Hugo Soares e escoltado, pelo meio de uma multidão que queria agarrá‐lo, beijá‐lo e fotografá‐lo, até à mesa de honra. É dia de festa.

Perante a agitação dos jornalistas, Passos explica calmamente as suas motivações. “Vim cá apenas para assinalar, neste novo ciclo, o meu desejo de que este novo esforço que está a ser feito pelo Luís Montenegro, de união do partido, possa vir a ser colocado ao serviço do país, que é aquilo que nos interessa. Portugal vai precisar de um governo diferente daquele que temos. E tenho uma enorme confiança que a liderança do PSD está à altura desse desafio. Não vim para fazer grandes declarações. Vim dar um abraço ao Luís Montenegro. Uma pessoa bem preparada e competente, que tenho confiança que será o próximo primeiro‐ministro.”

Minutos depois, chega Montenegro, acompanhado pela mulher, Carla. É o seu primeiro Pontal como líder do PSD. Depois de cruzar o corredor humano e de cumprimentar os militantes ali presentes, dizendo algumas palavras de circunstância, abraça finalmente Pedro Passos Coelho. Jantam e assistem aos discursos juntos. No final, quando chega a vez de subir ao palco, Montenegro não esquece o convidado de honra.

“É uma alegria e uma emoção ter‐te aqui. Diria mesmo: tu és daqui. E para aqueles que se vão entreter com o papão do passismo, como se isso fosse uma coisa muito medonha, quero dizer que tive e tenho muita honra e orgulho em ter estado ao teu lado e ter contigo vivido um período de recuperação do nosso país e ter mandado a troika, que os socialistas trouxeram, para casa. Nunca vou deixar de dizer aquilo que tem de ser dito: tu foste um grande primeiro‐ministro e tenho muito orgulho de ter estado contigo nesse período.” Nesse mesmo final de dia, acabaria a proclamar: “A máquina laranja está de volta para tornar a governar Portugal”.

Passaram-se quatro anos desde esse momento premonitório. Contra todas as expectativas — afinal, António Costa acabara de iniciar um ciclo de maioria absoluta —, Luís Montenegro e o PSD chegaram de facto ao poder. Um poder quase absoluto — Governo, Açores, Madeira, Lisboa, Porto e a maioria das autarquias do país. Mas muito mudou desde esse 14 de agosto inaugural. Foi-se a simpatia política de Pedro Passos Coelho, que foi deixando cair o seu legítimo herdeiro (Rui Rio nunca o foi) até à rutura entre ambos ser irreversível. Foi-se a Presidência da República, depois de o padrinho político Luís Marques Mendes não ter conseguido suceder ao frenemy Marcelo Rebelo de Sousa. E foi-se o estado de graça de que Luís Montenegro foi gozando nos primeiros tempos como líder do PSD e depois como primeiro-ministro.

Esta sexta-feira, desenha-se mais um capítulo de 50 anos de histórias. O Pontal foi instrumental para afirmar a marca PSD com Francisco Sá Carneiro, esteve moribundo e voltou em força com Aníbal Cavaco Silva, foi salva pelos “cinco mil contos” de Marcelo Rebelo de Sousa, serviu de palco para as guerras intestinas no partido, alimentou a rivalidade entre sociais-democratas e socialistas, foi suspensa, mudou de localidade, de formato e esteve quase para desaparecer mais do que uma vez, embalou Pedro Passos Coelho, virou minimal com Rui Rio, e voltou em força com Luís Montenegro. Agora, servirá para mais um teste à capacidade de reinvenção do presidente do PSD.

Se o primeiro-ministro procurava um novo fôlego depois do verão, o mais provável é que venha a ser obrigado a passar os próximos meses em apneia, a ter de lidar com duas comissões parlamentares de inquérito e variadíssimos inquéritos, investigações e outra tantas auditorias

Um ano para esquecer

Depois de um primeiro ciclo de poder interrompido pelo caso Spinumviva e por todas as ondas de choque que se seguiram — duas moções de censura e uma de confiança chumbadas, abertura e arquivamento da averiguação preventiva do Ministério Público, eleições antecipadas e vitória reforçada da AD, mas sem a maioria desejada e com um Parlamento ainda mais crispado e tripartido —, Luís Montenegro chega a este Pontal à procura de um novo fôlego e de uma nova mensagem. É a segunda vez que o tenta fazer — em junho, o Congresso do PSD, pensado para celebrar a grande vitória que seria a aprovação da reforma laboral, acabou ensombrado pela derrota sofrida às mãos de André Ventura.

De resto, entre esses dois momentos, Pontal ’25 e Pontal ’26, com o 43.º Congresso do partido pelo meio, Montenegro acumulou vários golpes difíceis de digerir. Desde logo, o próprio Pontal de 2025 revelou-se desastroso para a imagem política do partido: com o país a arder, ficaram na retina as imagens dos gins bebidos ao pôr do sol e de Luís Montenegro a anunciar a prova de Fórmula 1 em Portugal. Nem um dia depois, o primeiro-ministro estava a anunciar que iria cancelar as restantes férias e regressar à capital para coordenar a resposta aos incêndios.

Seguiu-se a humilhante derrota nas eleições presidenciais, com o quinto lugar de Luís Marques Mendes, a quem nada valeu o empenho e o patrocínio de vários membros do Governo e do próprio primeiro-ministro, o segundo lugar de André Ventura, que continua a representar uma ameaça existencial ao PSD, e a vitória de António José Seguro, que, apesar de mais herbívoro do que o seu carnívoro antecessor, já infligiu uma pesada derrota ao Governo na questão da chamada “Lei do Retorno“.

Quase na mesma altura das presidenciais, Portugal foi atingido por um comboio de tempestades que obrigou o Executivo a despender foco, tempo e energia para responder à emergência e aos efeitos prolongados do cataclismo. E que obrigou Luís Montenegro a dispensar Maria Lúcia Amaral, a sua segunda ministra da Administração Interna, oito meses depois de esta ter assumido um cargo para o qual, assumiria mais tarde, não estava manifestamente preparada.

No final do mesmo mês de fevereiro, estala a guerra no Irão, que, entre muitos outros efeitos, por cá, ajudou a esvaziar despensas e aumentou o preço dos combustíveis. Seguiram-se meses de agonia política, com o Governo a tentar vencer o braço de ferro na proposta de reforma laboral. Depois de levar ao limite as negociações em sede de concertação social, acabou derrotado pela UGT — e, através da central sindical, pelo PS.

No Parlamento, a batalha não foi menos dura, mas tudo indicava que o desfecho seria diferente — durante cerca de 24 horas, Governo e partido não só acreditaram convictamente que iam poder clamar vitória, como deitaram foguetes e apanharam as canas. O resto da história é conhecido: acabaram surpreendidos à 25.ª por André Ventura e pelo Chega que viram no chumbo à reforma laboral uma oportunidade de granjear mais simpatia entre pensionistas e ‘descamisados’.

Neste período de tempo, o bate-boca com Pedro Passos Coelho agudizou-se. Agastado pelas muitas e recorrentes críticas do antigo primeiro-ministro, Luís Montenegro chegou ao ponto de desafiar o seu criador a ir a votos internamente — provocação que Passos ignorou. Deste confronto em diferido entre os dois, ficou a rábula dos “prostitutos sem caráter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o momento lhe possa fornecer”, que deixou o núcleo mais próximo do primeiro-ministro entre o chocado e o resignado. As aparições de Passos diminuíram de intensidade, mas a sombra continua por aí.

Desse Pontal de 2025 até hoje, muitos dos desafios que o partido herdou quando chegou ao poder continuam tão ou mais presentes. A despesa pública está a crescer acima do previsto, o que reduz a margem de manobra política para distribuir prebendas. O défice está ao virar da esquina — e, se acontecer, lá se vai a fama da direita com contas certas. O salário médio aumentou, é um facto, mas a inflação comeu uma parte dessa evolução.

O preço do cabaz alimentar e dos combustíveis começa a descer mas ainda preocupa — e as negociações de paz no Médio Oriente são tudo menos previsíveis. Ao mesmo tempo, o acesso à Habitação, apesar dos sinais positivos, continua a ser uma chaga social, a Saúde é um sorvedouro de dinheiro e de capital político — e há já mais uma greve do INEM no horizonte. Além disso, o fim do PRR obrigará a um esforço adicional do Orçamento do Estado para, pelo menos, manter os níveis de investimento.

E depois existem os problemas internos na família social-democrata. Um patriarca que liga e desliga como um interruptor. Um Governo onde se passam culpas sobre ineficácia na comunicação e onde se vai assumindo internamente uma perda de fulgor preocupante. Um ministro com sede de protagonismo e (para os detratores) excesso de poder.

Governantes em manifesto sub-rendimento e uns poucos com tiques de deslumbramento. Uma equipa onde há já demasiada gente a pensar no futuro — no imediato (as próximas eleições) e no mais longínquo (o pós-Montenegro). Um Governo onde se desvalorizam as sucessivas más sondagens, mas onde alguns já vão percebendo, com consternação crescente, que eleitores sem dinheiro no bolso, comida na despensa e combustível no carro tornam o caminho demasiado estreito.

Montenegro chega a este Pontal à procura de um novo fôlego, de uma nova mensagem. É a segunda tentativa para deixar essa imagem de renovada energia — em junho, o Congresso do PSD, pensado para celebrar a grande vitória que seria a aprovação da reforma laboral, acabou ensombrada pela derrota sofrida às mãos de Ventura

Um Governo em apneia

O 43.º Congresso do PSD, em junho, deveria ter servido para contrariar a imagem de um Governo a perder gás e incapaz de mudar o país. Mas a dura derrota provocada pelo chumbo da reforma laboral baralhou todas as contas. Ainda assim, Luís Montenegro mexeu na equipa, chamou dois pesos pesados para a direção do partido — Pedro Duarte e Carlos Moedas —, e deu asas ao eurodeputado Sebastião Bugalho, fazendo dele, além de vice-presidente, porta-voz do partido. Era o reconhecimento de que faltava sangue novo e uma nova forma de comunicar as boas notícias que o Governo quer apresentar ao país.

Mas o barco ‘laranja’ meteu água por onde menos se esperava. Fernando Alexandre, ministro da Educação e um dos grandes ativos deste Governo, atirou-se de cabeça para o caos nos exames nacionais; Luís Neves, o terceiro ministro da Administração e o homem que Montenegro acreditava ser a solução para todos os problemas num cargo historicamente muito difícil, viu-se embrulhado entre atrelados, obras mal explicadas, pagamentos em dinheiro vivo e declarações por entregar. Resultado prático: se o primeiro-ministro procurava um novo fôlego depois do verão, o mais provável é que venha a ser obrigado a passar os próximos meses em apneia, a ter de lidar com duas comissões parlamentares de inquérito e variadíssimos inquéritos, investigações e outras tantas auditorias.

Como uma desgraça nunca vem só — e, aparentemente, também não vem aos pares —, o primeiro-ministro teve ainda de lidar com um problema de relações públicas. A 21 de julho, numa altura de enorme pressão sobre o Governo, o gabinete do primeiro-ministro fez saber que Montenegro não iria tirar férias no verão e que ficaria a “coordenar atividade do Governo”, pretendendo “gozar apenas alguns fins de semana e um ou outro dia esporádico”.

Houve quem preferisse não ler a segunda parte da resposta de Montenegro e, assim que o primeiro-ministro pôs um pé no areal, acusasse o líder social-democrata de ter quebrado uma promessa que o primeiro-ministro nunca fez. Independentemente de ter tido o cuidado de sublinhar que poderia gozar “um ou outro dia esporádico”, a polémica ganhou vida própria e largos minutos de tempo de ecrã. São polémicas que não matam, mas moem todos os primeiros-ministros.

Sobretudo quando acontecem imediatamente antes de um período que será decisivo para a sobrevivência do II Governo de Montenegro — afinal, André Ventura e José Luís Carneiro terão de decidir se viabilizam o Orçamento do Estado para 2027 ou se arriscam atirar o Governo para os braços dos duodécimos. Setembro está aí ao virar da esquina e, com ele, todo o psicodrama orçamental.

Está muito em jogo para os sociais-democratas — aliás, está muito em jogo para os três líderes que, inevitavelmente, terão de decidir quando e como querem ir a votos. José Mendes Bota, antigo líder do PSD/Algarve, o homem que organizou mais de uma dezena de edições da festa e a “ressuscitou” três vezes, num longo artigo de opinião publicado no Observador em que recorda os altos e baixos do Pontal, antecipa isso mesmo: este Pontal serve também para preparar os “combates eleitorais que, mais cedo ou mais tarde, aí estarão”.