(c) 2023 am|dev

(A) :: Espanha à prova: o desgaste silencioso do Estado de Direito sob Pedro Sánchez 

Espanha à prova: o desgaste silencioso do Estado de Direito sob Pedro Sánchez 

Não se trata de um golpe de Estado clássico, mas do desgaste progressivo dos contrapesos que distinguem uma democracia liberal de uma democracia apenas eleitoral. 

António Delgado Valente
text

Há regimes que se derrubam com tanques nas ruas e há regimes que se corroem devagar, artigo a artigo, nomeação a nomeação, até que um dia os cidadãos dão por si a perguntar quando, exactamente, deixaram de poder confiar nas instituições que juraram protegê-los. É este o processo lento e metódico que muitos observadores identificam em Espanha desde que Pedro Sánchez assumiu, em 2018, a chefia do Governo — e que se agravou de forma notória a partir da sua reeleição, em 2023, com o apoio parlamentar dos partidos independentistas catalães.

O caso mais flagrante é o da lei de amnistia aprovada para os responsáveis pelo processo separatista catalão de 2017. Tratou-se de uma medida negociada, publicamente, como contrapartida pelos votos necessários à investidura de Sánchez — uma transacção política que trocou impunidade judicial por sobrevivência parlamentar. Independentemente da opinião que se tenha sobre a questão catalã, o mecanismo é revelador: a lei penal deixou de ser aplicada de forma igual e universal para passar a depender da aritmética de uma maioria no Congresso.

Quando a justiça se torna moeda de troca política, o princípio da separação de poderes sofre um golpe que não se apaga com comunicados institucionais.

A isto soma-se a longa disputa em torno do Conselho Geral do Poder Judicial (CGPJ), o órgão que garante a independência dos tribunais espanhóis. Durante anos, o Governo de Sánchez manteve o órgão em funções muito para além do seu mandato, e quando finalmente se avançou para a sua renovação, o processo foi conduzido sob fortíssima pressão política, com críticas de associações de magistrados que apontaram tentativas de moldar a composição do órgão a gosto do executivo. A Comissão Europeia e o Grupo de Estados contra a Corrupção do Conselho da Europa (GRECO) não pouparam avisos sobre os riscos deste modelo de nomeação, historicamente sujeito a partidarização em Espanha, mas particularmente exposto nos últimos anos.

Depois há o caso, mais pessoal e por isso mais desconfortável para o PSOE, das investigações judiciais que tocam o círculo próximo do primeiro-ministro — desde o processo que envolveu a sua mulher, Begoña Gómez, até às investigações sobre antigos colaboradores próximos como José Luis Ábalos e Santos Cerdán. A resposta do Governo e de vozes afectas ao partido não foi, como seria expectável, o silêncio institucional e o respeito pela separação entre política e justiça, mas antes uma ofensiva pública contra os próprios juízes e magistrados que investigam estes casos, acusados sistematicamente de agirem por motivações políticas. Quando um chefe de Governo transforma a sua defesa pessoal numa campanha de deslegitimação da magistratura, está a minar, deliberadamente, a confiança dos cidadãos nos tribunais — e isso tem um custo que ultrapassa em muito o seu mandato.

Não se pode ainda ignorar o ambiente criado em torno da comunicação social. A retórica presidencial espanhola tem, nos últimos anos, tratado a imprensa crítica como adversária a combater e não como contrapoder a respeitar, ao mesmo tempo que se multiplicam denúncias sobre o uso de publicidade institucional e de meios afins ao Governo para construir narrativas favoráveis. Uma democracia saudável precisa de uma imprensa livre para fiscalizar o poder; um poder que trata essa fiscalização como ameaça está a preparar o terreno para o silenciamento.

Tomados isoladamente, cada um destes episódios poderia ser explicado como uma decisão política legítima, uma reforma necessária ou um exagero da oposição. Mas a soma das partes conta uma história diferente: a de um executivo que, perante a fragilidade da sua maioria parlamentar, optou sistematicamente por dobrar as instituições à sua sobrevivência, em vez de as reforçar. Não se trata de um golpe de Estado clássico — é algo mais subtil e, por isso mesmo, mais perigoso: o desgaste progressivo dos contrapesos que distinguem uma democracia liberal de uma democracia apenas eleitoral.

É justo reconhecer que o próprio Sánchez e os seus apoiantes rejeitam esta leitura. Argumentam que a amnistia foi um acto de pacificação necessário após anos de bloqueio político na Catalunha, que a reforma do CGPJ correspondia a uma obrigação constitucional adiada havia anos pelo Partido Popular, e que as críticas aos juízes reflectem apenas o direito de resposta a um sector da magistratura que consideram politicamente enviesado à direita. Estas posições merecem ser ouvidas e debatidas — é esse, aliás, o próprio princípio do Estado de Direito que se discute neste artigo. Mas ouvir os argumentos do poder não pode significar deixar de vigiar os seus actos. E a vigilância, hoje, exige perguntar, sem rodeios, se a Espanha de Pedro Sánchez ainda é a democracia de instituições fortes que a Constituição de 1978 prometeu — ou se se tornou, pouco a pouco, uma democracia de conveniência, moldada à medida de quem governa.