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O centenário que Cuba não deixa celebrar em liberdade

Pode celebrar-se o “legado libertador” de um homem cujo Estado, seis décadas depois, ainda mantém mais de mil trezentas pessoas na prisão por pensarem diferente do partido único?

Sérgio Guerreiro
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Paulo Raimundo está em Havana. Fez a viagem, discursou, evocou o “legado libertador” de Fidel Castro. E fê-lo precisamente no país onde, segundo a organização Prisoners Defenders, mais de 1.300 pessoas estão presas por motivos políticos- número recorde, atingido numa ilha com pouco mais de 10 milhões de habitantes, numa proporção que ultrapassa largamente a de qualquer democracia ocidental. Não são números de um relatório hostil escrito em Washington.

São contagens nome a nome, caso a caso, feitas por uma organização que documenta cada detido: o desportista que protestou de uma varanda, o adolescente de quinze anos detido por manifestar-se, o jornalista independente, o sindicalista. É esse o país onde o secretário-geral do PCP foi comemorar um centenário. A parte que não se diz num comunicado de “amizade entre partidos”

Fidel Castro chegou ao poder em 1959 prometendo eleições livres num prazo de dezoito meses. Não as houve – nem então, nem nos cinquenta e dois anos seguintes em que governou.
Em seu lugar, instalou um sistema de partido único, aboliu a imprensa independente, nacionalizou a economia sem indemnização, e construiu um aparelho de segurança do Estado que transformou a delação entre vizinhos, os Comités de Defesa da Revolução, numa instituição nacional. Milhares de cubanos foram fuzilados ou morreram em prisões políticas nas décadas de 60 e 70.

Centenas de milhares fugiram em barcos improvisados, muitos deles a morrer no Estreito da Flórida, numa hemorragia humana que dura até hoje: mais de um milhão de cubanos deixaram a ilha só na última década, uma das maiores vagas migratórias per capita da história recente das Américas.

Nada disto é propaganda anticomunista dos anos da Guerra Fria. É história documentada, admitida inclusivamente por historiadores de esquerda que separam a reforma agrária e a alfabetização, méritos reais do regime, da repressão sistemática que os acompanhou desde o primeiro dia.

O PCP atribui as dificuldades cubanas quase exclusivamente ao embargo americano. É verdade que o embargo é real, é cruel com a população civil, e é condenado ano após ano por esmagadora maioria na Assembleia Geral da ONU. Mas usar o embargo como explicação única é uma simplificação confortável que dispensa Cuba de qualquer responsabilidade sobre si própria. O embargo não obriga o regime a prender um lutador de MMA por se manifestar da varanda de casa. O embargo não nega tratamento psiquiátrico a 51 presos políticos com doença mental grave, como documenta o mesmo relatório que regista os 1.300 detidos. O embargo não decide fechar a internet, cortar o acesso ao WhatsApp e ao Facebook, ou classificar críticos pacíficos do governo como “mercenários ao serviço do imperialismo”. Essas são escolhas do regime, repetidas há sessenta e cinco anos, muito antes de o bloqueio energético de 2026 sequer existir.

Não é preciso negar que Fidel Castro foi uma figura histórica de enorme peso.

A questão é outra: pode celebrar-se o “legado libertador” de um homem cujo Estado, seis décadas depois, ainda mantém mais de mil trezentas pessoas na prisão por pensarem diferente do partido único?
Pode um dirigente português, eleito num país onde há eleições livres, imprensa livre e alternância democrática, ir buscar inspiração precisamente àquilo que o seu próprio país rejeitou ao derrubar o Estado Novo em 1974?
A ironia é dura: o PCP nasceu e cresceu na clandestinidade, perseguido pela PIDE, e teve nos seus quadros homens que passaram anos nas prisões de Salazar. Essa memória é genuína e merece respeito. Mas é exactamente essa memória que deveria tornar impossível fechar os olhos a Cuba, não porque o regime cubano seja igual ao Estado Novo, mas porque a lógica da prisão política, da voz calada, do vizinho que denuncia vizinho, é a mesma lógica, esteja pintada de vermelho ou de azul.

Paulo Raimundo tem o direito de ir a Havana. Tem o direito de admirar quem quiser. O que não tem, nenhum dirigente político tem, é o direito a fazê-lo sem que se diga, alto e claro, o que fica de fora do discurso: que a “revolução cubana” que hoje se celebra em Havana é também, e sobretudo para quem lá vive, um sistema que prende quem discorda, que nega julgamentos justos, e que trata a liberdade de expressão como crime. Comemorar Fidel sem dizer isto não é homenagear a história. É editá-la.