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(A) :: Uma Certidão de Nascimento diluída por 15 anos

Uma Certidão de Nascimento diluída por 15 anos

Ao querer celebrar três momentos distintos sob a mesma égide, o país arrisca-se a não celebrar nenhum com a dignidade e a clareza necessárias.

Florentino Cardoso
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1. A recente decisão governamental de fundir as comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal numa trilogia de marcos históricos — estendendo o foco original da Batalha de São Mamede (1128) para incluir a Batalha de Ourique (1139) e a Conferência de Zamora (1143) — expõe uma debilidade profunda na gestão da memória coletiva do país. Longe de representar um enriquecimento do debate historiográfico, esta diluição conceptual reflete uma gritante falta de vontade política para assumir e resolver uma discussão identitária essencial. O processo de comemoração peca por um duplo falhanço estratégico, que começa na escala local e culmina na conveniência do poder central.

2. Na génese desta polémica reside, em primeiro lugar, o erro de cálculo político do anterior executivo da Câmara Municipal de Guimarães, que colocou precipitadamente todo o seu capital político na reclamação de um feriado nacional para o 24 de junho, sem acautelar o previsível resvalo no terreno movediço da historiografia, onde a exclusividade de 1128 na conjuntura da Fundação está longe de ser consensual. Ainda se pensava que a Comissão Científica – por ele criada em 22 de junho de 2023 -, se destinaria a colmatar esta fragilidade técnica a favor da tese vimaranense, mas a verdade é que este organismo nada tem feito para amparar a cidade-berço neste capítulo perante a tutela central.

3. Esta fragilidade local serviu de pretexto ideal para o Governo central satisfazer as fortes correntes ideológicas que se opõem à criação do pretendido feriado nacional reclamado por Guimarães. Ao desdobrar as comemorações por Ourique e Zamora, o poder político central encontrou o biombo perfeito para travar as aspirações vimaranenses do 24 de junho. Sob o pretexto de respeitar a pluralidade académica, o Executivo cedeu ao lóbi conservador da capital, receoso de que a oficialização desta nova data pusesse em perigo de extinção feriados nacionais já consolidados, como o 10 de junho ou o 1 de dezembro. E assim, em vez de liderar uma decisão soberana sobre a nossa certidão de nascimento, o Governo preferiu estender as comemorações no tempo, para aplacar os temores dos setores tradicionais e esquivar-se à complexidade de definir o terreno de São Mamede como o epicentro onde brotou a independência de Portugal.

4. O resultado desta dupla omissão — a falha estratégica de Guimarães e a falta de coragem política do Governo — é a desvalorização da própria efeméride. Ao querer celebrar três momentos distintos sob a mesma égide, o país arrisca-se a não celebrar nenhum com a dignidade e a clareza necessárias. Transforma-se um momento fundador num programa difuso de eventos dispersos, demonstrando que, mesmo passados nove séculos, Portugal continua a preferir a conveniência do adiar ao rigor de se assumir.

5. Porém, Guimarães não se poderá queixar deste desfecho se persistir em viver confortavelmente à sombra dos “dias um” e das “primeiras tardes portuguesas”, em vez de encetar um esforço sério no que toca à confirmação da coincidência direta entre a Batalha de São Mamede e a efetiva independência de Portugal. É preciso ter consciência de que a independência é o valor supremo de um Estado-nação como Portugal e constitui o único argumento verdadeiramente legítimo para justificar a excecionalidade de um feriado nacional. Enquanto Guimarães trocar essa demonstração política e histórica pelo romantismo identitário, continuará a ver a relevância de São Mamede diluída nos gabinetes de Lisboa.