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(A) :: As crianças que não veem morrer

As crianças que não veem morrer

Talvez tenhamos confundido proteger com esconder. Porque não podemos proteger os nossos filhos da morte para sempre.

Diana Pedreira
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A morte tornou-se, para muitas crianças, um assunto proibido.

Perder alguém parece-lhes quase impensável. Levar uma criança a um funeral é, para muitos adultos, uma espécie de violência desnecessária. Não se leva porque pode impressionar. Não se mostra porque pode assustar. Não se fala demasiado porque ainda é pequena.

Protegemos. Ou, pelo menos, acreditamos que estamos a proteger. Nem sempre foi assim.

Houve um tempo em que as crianças cresciam muito mais perto do princípio e do fim das coisas. Viam nascer animais e viam-nos morrer. Sabiam de onde vinha aquilo que lhes chegava ao prato. Assistiam, de uma forma muito mais direta do que hoje, ao ciclo natural da vida.

E também as pessoas morriam mais perto.

Morria-se mais cedo, é certo, mas morria-se também mais em casa e mais dentro da vida quotidiana. Os velórios faziam parte das famílias. As crianças ouviam falar dos mortos, viam os adultos chorar e percebiam, mesmo sem compreender completamente, que havia pessoas que chegavam e pessoas que partiam.

Não estou certa de que tudo fosse melhor assim. Provavelmente não era. Mas havia uma aprendizagem inevitável: tudo o que vive pode morrer.

Hoje conseguimos adiar essa aprendizagem durante muito mais tempo.

Vivemos mais anos. Os doentes morrem muitas vezes longe de casa. E, quando alguém morre, discutimos se devemos contar à criança, se deve ir ao funeral, se não será demasiado pequena para ver os adultos chorar.

Construímos uma infância onde a morte parece não existir.

Curiosamente, nunca as crianças viram tanta morte. Morrem personagens nos filmes. Morrem nos desenhos animados. Morrem centenas de vezes nos jogos e voltam a aparecer quando carregamos num botão. Talvez por isso a morte esteja simultaneamente em todo o lado e em lado nenhum. Existe como conceito, mas não como realidade.

Porque a morte verdadeira não tem um botão para recomeçar. Deixa uma cadeira vazia. Uma voz que não volta a ouvir-se. Uma pessoa que passa a existir apenas nas fotografias, nas histórias e na memória dos outros.

E isso aprende-se.

Não sei se uma criança deve ir a todos os funerais. Não sei sequer se existe uma idade certa para assistir a um.

Mas talvez tenhamos confundido proteger com esconder.

Porque não podemos proteger os nossos filhos da morte para sempre.

Podemos apenas decidir se, quando ela finalmente lhes bater à porta, será uma desconhecida absoluta ou uma parte dolorosa de um ciclo que aprenderam, devagar, a compreender.

Talvez ensinar uma criança sobre a morte não seja roubar-lhe a inocência.

Talvez seja ensinar-lhe, precisamente, o valor de estar vivo.