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(A) ::  Liberalismo e conservadorismo

 Liberalismo e conservadorismo

Poderá o conservadorismo passar sem o liberalismo? Não. O conservador pouco ou nada tem a esperar do Estado. A tarefa de regeneração da sociedade civil cabe ao exercício das liberdades individuais.

Luiz Cabral de Moncada
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 1 Há para aí alguma confusão entre o liberalismo e o conservadorismo. Para a esquerda é tudo a mesma coisa. Mal, evidentemente.

    O liberalismo é uma ideologia. O conservadorismo não é: é uma atitude. Uma atitude crítica. O liberalismo é o herdeiro de uma visão racional do homem baseada na doutrina cristã da personalidade com raízes clássicas e medievais, e mais tarde no racionalismo iluminista.  Mas para os tratadistas medievais a liberdade ainda não era um pressuposto. Só a razão é que era. O homem era um ser imperfeito, manchado pelo pecado original mas dispunha, apesar de tudo, da razão natural para compreender qual o seu papel dentro do estatuto que dele era próprio assim se acomodando em vista da paz e da salvação. Com o Iiluminismo a razão já não visava a adequação às coisas já criadas, mas sim o proveitoso exercício dos direitos individuais. O homem está agora antes do Estado e o desenvolvimento da personalidade humana faz-se livremente por si próprio. No princípio estava a liberdade. O retrato de Descartes exprime bem isto. Aparece sozinho sobre fundo negro sem qualquer adereço. Apenas ele, o homem, ali está, e contempla o espectador como que lhe exigindo o mesmo. A liberdade é autodeterminação e serve para a realização concreta do homem conforme ele quisesse.

Cristianismo e racionalismo europeu complementam-se. O pensamento cristão, mesmo que nem sempre fiel à Igreja católica, soube sair mais tarde da mera contemplação bem como do indivíduo isolado, e içou a bandeira da solidariedade social. Ignorar a doutrina social da Igreja Católica é desonesto e corrupto. É isto a Europa.

2 O que tem o conservadorismo a ver com isto? Nada. O conservadorismo, como se disse, é uma atitude que nada fica a dever a uma conjunto de ideias auto-sustentáveis que se valorizam por si próprias e que remetem umas para as outras em circuito fechado à procura de uma harmonia interna, ou seja, não é uma ideologia. O conservadorismo fundamenta-se na experiência humana, aprende com a história, porque sabe que os homens não se modificam assim tanto e que em circunstâncias parecidas reagem sempre de modo não muito diferente. Desconfia, portanto, das revoluções, a não ser que sejam conservadoras, como a norte-americana, e não tem ilusões quanto à bondade dos arrivistas e dos visionários. É adepto da evolução, não da revolução. Quem quer cortar com o passado é porque zomba dos homens. Daí uma atitude crítica e racionalista. É por isso que o conservadorismo aceita e defende o Estado Social, porque precisamente a experiência histórica e o bom-senso racional dele fizeram um imperativo.

3 Poderá o conservadorismo passar sem o liberalismo? Não. E por uma razão muito simples: é que tudo nos tem ensinado que não há alternativa à liberdade e que o seu exercício gera aquilo que de mais decente e valioso se pode esperar. Sem liberdade o homem nada vale. Daí que o conservadorismo tenha de aceitar, ao menos parcialmente, os resultados do liberalismo. Há sobretudo um aspecto muito importante: o conservador de hoje pouco ou nada tem a esperar do Estado. A tarefa de regeneração da sociedade civil deve sobretudo caber a ela própria que é com o quem diz, ao exercício das liberdades individuais.

    Sem conservadorismo o liberalismo é libertinagem e oportunismo (coisa que muito portuga ainda não percebeu) e sem liberalismo o conservadorismo é reaccionarismo. Ideologia e experiência crítica conjugam-se. Se eu sou conservador tenho de aceitar de boa vontade o resultado do exercício da liberdade alheia, mesmo que ele nem sempre seja positivo e com ele não concorde, e se eu sou liberal não posso deixar de censurar certos excessos, sempre possíveis: não posso aceitar que a liberdade de todos se confunda com as extravagâncias de minorias em bicos de pés em busca de privilégios. O conservador não parte de nada fixo. Observa, critica e conclui.

A conjugação não é fácil. A dificuldade não onera só um dos lados.

4 O conservadorismo não é apenas uma atitude política. É uma exigência cultural. Claro que para a esquerda nacional não se pode dizer isto, habituada como está a ver no conservadorismo o inimigo do «progresso», adepto do trono e do altar, obscuro, reaccionário, machista, marialva e por aí fora. É mais de um século de propaganda a funcionar. Mas nada disto é verdade.

A democracia actual corre perigos graves, e a atitude conservadora pode esconjurar alguns deles. Vejamos: o cidadão actual está em larga medida liberto das contingências e dos limites que afligiram os seus antepassados. Vive das e para as maravilhas tecnológicas em que vê o futuro, e esquece as licões do passado e a prova dos factos. Mais: despreza o passado e vive sem memória. Mesmo as pessoas mais cultivadas de hoje são ignorantes em matéria de história e filosofia e julgam-se os primeiros a pisar a terra munidos de varinhas mágicas que tudo vão transformar para melhor. Para tanto, adoptam uma linguagem técnica e mecânica de que se servem em domínios que não relevam da técnica, ao mesmo tempo que, mesmo sem o saberem, são vítimas de uma linguagem intoxicada. O resultado é um empobrecimento da semântica através da proliferação de palavras cujo significado foi alterado. A funcionalidade da linguagem utilizada abastarda o seu significado. Submetem-se assim  ao significado que as forças hegemónicas atribuem à linguagem.

Já não são as pessoas que pensam através da linguagem: é esta que pensa em vez das pessoas. E como a linguagem é técnica e politicamente orientada, o cidadão transforma-se num acessório da técnica, uma espécie de chip, e num militante mesmo que o não saiba.

5 A linguagem comum está hoje cheia de elementos tóxicos que alteram e ofuscam o que através dela se quer transmitir. Isto dá imenso jeito à actual retórica política. O palavreado invadiu completamente o discurso político e deturpou-o. As palavras passam a ter pequenas doses de veneno que vamos ingerindo sem dar conta e quando nos queremos exprimir destilamos aquilo que nos inocularam. Querem regressar à pureza da palavra no nosso português? Leiam Camilo, Aquilino e, sobretudo, Torga. E atirem para o caixote do lixo a «literatura» de aeroporto que para aí anda aos pontapés promovida pelo jornalixo e pela televisão.

Uma tarefa fundamental do conservadorismo de hoje é impedir a alteração do significado das palavras. É ele a nossa pátria. Se as palavras já não têm o significado emancipador e esclarecedor que tiveram e foram substituídas pelo linguarejar, o cidadão comum fica sem defesa e a hora é a dos intrujões. O objectivo é deixar o cidadão indefeso e sem capacidade crítica, à mercê das primeiras aldrabices.

O resultado é a destruição da herança do Ocidente, o minar das bases personalistas, liberais e democráticas que o edificaram, o ataque a todas as instituições que o caracterizam e o achincalhamento da cultura cristã e judaica em que se louva. E se o significado das palavras estiver alterado nada o vai impedir.

A estratégia baseia-se em três frentes, parafraseando o imortal G. Orwell: a novilíngua, o duplo pensamento e a mutabilidade do passado. A novilíngua aposta na deturpação do significado das palavras, o duplo pensamento leva-as acreditar numa narrativa mentirosa que ofusca a verdade, e a mutabilidade do passado permite justificar os disparates do presente. As escolas portuguesas são hoje o laboratório desta estratégia gizada pelos vários Ministros da Educação socialistas. O objectivo é transformar a linguagem de modo a neutralizar a capacidade crítica.

6 O conservadorismo é hoje, portanto, uma barreira contra o abastardamento da cultura e da linguagem que a serve. O objectivo do conservadorismo actual não é a tomada do poder: é pôr as pessoas a pensar impedindo que elas caiam na intrujice da linguagem vulgarizada. É por isso que o conservadorismo é hoje a garantia da cultura e da capacidade crítica. É mesmo uma questão de sanidade mental. Conservar o quê? A nossa inteligência e autonomia intelectual perante as mentiras e as vulgaridades que nos querem impingir.

O conservadorismo não admite assim que por «democratização» do ensino se entenda a desautorização dos professores e a perda de autonomia das escolas, execra o facilitismo, detesta a burocratização do trabalho dos professores, não tolera disparates como os que eram vulgares nas universidades onde se chegou a pretender que deviam ser os alunos a fazerem exames uns aos outros, como queriam vários imbecis que foram meus colegas em Coimbra, a pretexto de «democratização» do ensino. Não pactua com o achincalhamento sistemático da nossa história. Não vai nisso pela mesma razão que não admite que sejam os filhos a mandar nos pais e os animais nos donos (os meus dois cães condicionam a minha vida mas não mandam em mim), nem quer pôr os animais a falar nem obrigar os veterinários a prescindir dos seus honorários profissionais e também não quer alterar as regras de precedência nas orquestras clássicas, a pretexto de não serem «democráticas». Como dizia o genial Herbert von Karajan «em arte não há democracia». Conservadorismo oblige; oblige a quê? A ter respeito pela nossa herança e por aquilo que a nossa cultura comum de nós fez  e a tirar daí as devidas consequências.