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(A) :: A Europa e o dilema do futuro do futebol mundial 

A Europa e o dilema do futuro do futebol mundial 

A UEFA possui inegavelmente o peso específico para tomar nas nossas mãos o futuro da modalidade.

António Maria Mello e Castro
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Era uma vez um sr. Infantino, um homem cheio de carisma, que gostava muito do vil metal, mais ainda do que de futebol, ao ponto de lhe ter passado pela cabeça criar um Fundo financeiro e convidar investidores financeiros – que providenciariam até a um limite de 20% da totalidade do seu montante -, a multiplicar os lucros da FIFA por ocasião da organização das próximas edições da World Cup. Nas suas palavras, este novo órgão não interferiria em nada que implicasse o processo desportivo em si.

Porventura ofuscado pelas doiradas perspetivas que logo terá adivinhado se tal projeto viesse a ser inaugurado, aquele dirigente esqueceu-se de consultar, ou apenas informar, o conjunto de representantes das Federações e Confederações de Futebol representativas das mais de duas centenas de países, nações e territórios, que se contam entre os membros daquela poderosa instituição. O suíço-italiano apaixonou-se por esta ideia, e, tal como frequentemente acontece nestas circunstâncias um pouco irracionais, não quis partilhar com ninguém esse íntimo segredo, até achar que a relação mútua entre o criador e a criatura estaria já devidamente consolidada: a argumentação a seu favor teria de ser absolutamente inatacável.

A ocasião escolhida para o anúncio foi então o imediato pós-Mundial de Futebol que acabara por findar em New Jersey com a vitória da Espanha: haviam-se registado vários e assinaláveis recordes, como a extraordinária dimensão dos lucros depositados nos cofres da FIFA, ou a participação pela primeira vez de 48 seleções nacionais na fase final da competição. Tinha a sensação de que esta festiva constatação lhe oferecia a apropriada ocasião para dar a conhecer a sua descoberta: em momento de euforia desportiva, nada mais pertinente do que a revelação de uma proposta prometendo a prossecução e melhoria dessa gloriosa realidade.

No entanto, mesmo munido de toda essa oportunista prudência, o que se veio a verificar foi precisamente o contrário do que havia pensado: quase todas as ignoradas entidades consideraram a dita uma pretensiosa nova-rica, e não se coibiram de gritar a sua indignação por tal improvável escolha.

O que esteve por detrás de uma grande porção das acerbas críticas foi alimentado, em simultâneo, por duas razões complementares respeitantes ainda à competição agora terminada: o alheamento do presidente em relação às graves anomalias ocorridas durante a realização do Mundial, e a profunda desconfiança quanto à possibilidade de se concretizar a indicada e total separação entre o novo órgão e a estrutura desportiva existente.

Entre as ditas irregularidades, sobressaíram os incidentes de ordem política ocorridos com um árbitro escalado pela FIFA cuja entrada nos EUA foi boicotada pelas pertinentes autoridades norte-americanas, e igualmente nesse plano, a impossibilidade de a seleção iraniana pernoitar nos USA.

Em paralelo, destacou-se a abusiva prática no que ao preço dos bilhetes disse respeito, com o seu valor sendo calculado no preciso momento da desejada aquisição, numa dinâmica fundamentada exclusivamente na lógica do mercado, afastando assim todos aqueles fãs que não tivessem disponíveis os necessários recursos financeiros.

Voltando ao que tem a ver especificamente com a indicada criação de um espaço exclusivamente dedicado ao aumento de receitas, foi unânime a rejeição dessa infantil tentativa de convencimento junto de futuros e reticentes votantes: toda a gente sabe que, mais ou menos visivelmente, qualquer investidor acaba por propor, quando não impor, as alterações que sirvam o seu verdadeiro objetivo final, a saber, a obtenção de uma margem tão grande quanto possível de ganhos operacionais. Mesmo sendo evidente que nada se consegue, naquilo que hoje se transformou numa indústria, sem um ajustado suporte financeiro – e a figura das SADs ilustra eloquentemente esse facto – o que aqui se discute é um potencial e duro golpe em toda uma conceção desportiva que apresenta o jogador e o espetador no centro da equação.

De todas as vozes, pessoais ou institucionais, que se fizeram ouvir, a Europa, através da sua UEFA, foi aquela que, demonstrando uma sólida unidade interna na sua recusa em aceitar a visão do presidente da FIFA, marcou de forma mais determinada essa atitude. Como se sabe, e para já, não obstante a desistência com desculpas associadas de Infantino, a «Union of European Footbal Associations» mantem o seu boicote relativamente a todas as competições de futebol agendadas pela organização sediada em Zurique. Não há pressa num qualquer levantamento desta ameaça, até porque, não sendo inédita esta intenção – recordemos a gorada tentativa, arrogante e elitista, efetuada por um grupo de prestigiados clubes , em petit comité, de virem a organizar uma competição “ao lado” da Liga dos Campeões -, convém aproveitar este tempo de surpresa para desde já se apanhar pelos cornos o touro da dissensão, iniciando-se assim um período de discernimento sobre as evoluções possíveis que possam merecer um qualquer e futuro consenso.

A calma beleza de Nyon, onde trabalham os funcionários da UEFA, parece oferecer um cenário propício para uma sábia gestão desta questão que – não se duvide! – poderá ser reanimada se não for seriamente assumida: poderosos agentes ligados ao futebol não desarmarão das suas intenções se não encontrarem uma oposição consequente e competente, capaz de eventuais concessões mínimas que garantam a preservação do status quo.

A UEFA possui inegavelmente o peso específico de acolher um conjunto de seleções e clubes que, pela sua superior qualidade, convocam a atenção de multidões de entusiastas de todas as partes do mundo. Esta constatação autoriza-nos, e direi inclusive, obriga-nos, a tomar nas nossas mãos o futuro da modalidade. O ótimo sendo o inimigo do bom, importa pois que, para lá de circunstanciais cálculos eleitoralistas que possam ocasionalmente envenenar os necessários debates, saibamos ser um exemplo de procura de preservação do espírito inicial de leal competição e respeito mútuo entre os jogadores, com assegurado acesso da maioria dos seus fãs a esse maior espetáculo do planeta.

A Europa tem agora a oportunidade de confirmar, não só a sua equilibrada postura , como a capacidade de agir apropriadamente como moderadora nesta fase de difícil contenção dos ímpetos de um capitalismo particularmente agressivo que, se tem ajudado à sobrevivência e renascimento de múltiplos clubes de futebol, não deixa de os abandonar sem estados de alma se não forem cumpridos os requisitos de ordem financeira que sempre são a sua prioridade.