Alta incidência de Acidentes Vasculares Cerebrais; aumento de enfartes e episódios de morte súbita em pessoas mais jovens; número elevado de mortes prematuras por doenças cardiovasculares, sendo que 80% poderiam ser evitadas. O cenário é preocupante, e levou a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) a tomar uma posição: defende a implementação de um rastreio regular aos fatores de risco cardiovascular — pressão arterial, glicemia e colesterol — a partir dos 35 anos, feito nos centros de saúde ou nas farmácias. Em entrevista ao Observador, a presidente da SPC apela ao Ministério da Saúde para que invista mais na prevenção das doenças cardiovasculares (a principal causa de morte em Portugal) e recomenda à população — e aos colegas médicos de família — que meçam de forma regular os níveis de glicemia, colesterol e a pressão arterial, de forma a prevenir os eventos cardiovasculares.
A SPC defende a criação de um programa nacional de rastreio cardiovascular que integre prevenção, rastreio, tratamento e reabilitação numa estratégia coerente, financiada e com prazos definidos. “Temos de fazer mais na área de prevenção e de rastreios de doença precoce. Deveríamos ter, a partir dos 35 anos, momentos específicos em que faz parte da nossa avaliação de saúde fazermos estas medições”, diz Cristina Gavina, sublinhando que poderiam ser “os médicos de família a sinalizar, na consulta”, a necessidade de os utentes avaliarem estes parâmetros. “Estas coisas não têm que ser muito complicadas, porque, na verdade, isto é possível fazer, inclusivamente, numa farmácia”, lembra a presidente da SPC, defendendo uma “estratégia sistemática e concertada” de rastreio.
A cardiologista vinca que, inclusivamente, os próprios doentes podem introduzir os valores da glicemia, pressão arterial e colesterol na aplicação do SNS, juntamente com a idade e a informação sobre se são ou não fumadores. “Isso é suficiente para lhes darmos os tais calculadores de risco, que lhes vão dizer onde é que eles estão, se na área vermelha, laranja ou verde [de risco cardiovascular]”, sublinha a também diretora do Serviço de Cardiologia do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.
“Precisamos de tornar o rastreio cardiovascular obrigatório”
Outra hipótese, diz a médica, é que o rastreio cardiovascular seja feito de forma oportunística nos centros de saúde, isto é, que o médico de família meça os três indicadores principais (glicemia, pressão arterial e colesterol) num contexto de consulta — algo que, critica Cristina Gavina, ainda não é feito atualmente. “Ainda não entrou dentro do que é considerado o rastreio standard. Este é o problema. Precisamos de tornar o rastreio cardiovascular obrigatório”, defende a cardiologista, explicando que a medição destes indicadores ainda não está incluída nas ações obrigatórias dos centros de saúde.

As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal, responsáveis por mais de 33 mil mortes por ano. Parte destas mortes é considerada prematura (em pessoas com menos de 70 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde). Entre essas, os cardiologistas estimam que 80% sejam evitáveis, através da intervenção sobre os fatores de risco (hipertensão, diabetes, colesterol elevado) e mudança dos estilos de vida. Cristina Gavina alerta particularmente para o aumento dos eventos cardiovasculares em pessoas mais jovens, uma realidade que se estende desde o AVC aos enfartes do miocárdio.
“Nas idades mais jovens, estamos a ter mais eventos cardiovasculares, porque o padrão de risco é cada vez pior. As pessoas estão mais gordas, mexem-se pouco, têm cada vez mais um aumento da tendência para ter pré-diabetes ou diabetes. Há uma série de alterações que também estão muito relacionadas com o excesso de peso, e que fazem com que as pessoas tenham mais risco”, lamenta a especialista, explicando que é preciso apostar na prevenção ao longo da vida, e desde idades precoces — uma vez que, lembra, a doença cardiovascular tem um efeito cumulativo, resultado de um processo progressivo que vai aumentando o risco. “Controlar os fatores de risco é fundamental, porque pode prevenir essa tal dita mortalidade prematura”, sublinha a médica, que lembra não ser “normal ter doença cardiovascular muito cedo na vida”. Se tal acontecer, “isso pode comprometer a capacidade funcional das pessoas, como acontece, por exemplo, com o AVC, ou aumentar a mortalidade”.
Cristina Gavina ressalva que a intervenção sobre os fatores de risco descontrolados nem sempre terá de seguir obrigatoriamente a via farmacológica, podendo incidir apenas sobre uma mudança dos fatores de estilos de vida — como a alimentação, o exercício físico, o tabagismo ou o stress. “Sabendo nós quais são os fatores de risco e sabendo que [nos devemos focar] no controlo desses fatores de risco e alterações de comportamento, não é necessário medicar toda a gente”, diz a presidente da SPC, garantindo que, se houver uma alteração nos comportamentos, o risco de morte prematura cai de forma significativa. “Deixar de fumar é uma das intervenções comportamentais, não aumentar o peso, tentar ter uma alimentação equilibrada. Alterando esses comportamentos, já poderemos ter um ganho significativo, ou seja, a probabilidade de morrer prematuramente cai significativamente“.
Morte súbita cardíaca e enfartes em crescendo em pessoas mais jovens
Um dos fenómenos que está em crescendo é a morte súbita cardíaca. “Os números confirmam que nós temos cada vez mais eventos cardiovasculares em pessoas mais jovens. Normalmente estamos a falar de pessoas com doença coronária, fumadoras, com algum fator de risco, de meia-idade, a maior parte do sexo masculino”, refere Cristina Gavina, dando o exemplo da morte repentina do treinador de futebol Jorge Costa, aos 53 anos. A médica sublinha que “há uma concentração, nestas idades mais jovens, de doença coronária nos homens”.
“Não estamos a conseguir prevenir mortes em idades onde é crítico e onde provavelmente o impacto de prevenir vai ser maior. Não é normal ter doença cardiovascular muito cedo na vida e isso pode comprometer a nossa capacidade funcional, como acontece, por exemplo, com o AVC, ou aumentar a nossa mortalidade”, alerta a especialista.
Daí que, reforça, seja importante o controlo dos fatores de risco desde cedo para evitar o aumento anormal do risco cardiovascular na meia-idade. “É uma inevitabilidade da idade podermos vir a desenvolver a doença aterosclerótica, a doença vascular. É mais provável termos alguma doença nas artérias quando chegamos aos 80 anos. Agora, não é normal é pessoas de 50 anos, 60 anos, ou até antes dos 40 anos, terem mortes súbitas, quando podíamos ter feito alguma coisa 20 anos antes”, alerta a médica.
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Questionada sobre o fator de risco mais perigoso ou influente no surgimento de doença cardiovascular, Cristina Gavina aponta para a hipertensão. “Há um fator de risco que é o fundamental, neste momento, que é a hipertensão. É o fator de risco mais prevalente na população portuguesa. Estima-se que cerca de 40 a 45% dos portugueses são hipertensos, e temos valores de tensão arterial que não estão controlados na maioria das pessoas”, sublinha a especialista, lembrando que a hipertensão é o maior fator fundamental para o AVC. Já no caso do enfarte do miocárdio (vulgo ataque cardíaco), “cerca de metade do risco está ligado ao colesterol”.
Cardiologistas apelam à medição regular da pressão arterial, glicemia e colesterol a partir dos 35 anos
Cristina Gavina deixa, por isso, um apelo à população para que sejam feitas medições regulares dos níveis de pressão arterial. “Se eu não conhecer os meus números, não conheço o meu risco. Se não conheço o meu risco, a minha vida vai mudar completamente”, avisa a médica, que aconselha que as medições regulares comecem a partir dos 35 anos, ou até antes. A nível europeu, a presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia explica que existe um programa, chamado Safe Hearts Plan, que está a tentar impulsionar rastreios cardiovasculares sistemáticos a partir dos 35 anos.
A médica sublinha que os rastreios poderão ser feitos de forma oportunística. “A pessoa vai ao médico por algum motivo e aproveita-se e vê-se as tensões, e se for fazer análises, aproveita-se e mede-se glicemia e o colesterol. A partir dos 35 anos isso deve ser feito pelo menos uma vez de cinco em cinco anos, sendo que, se houver alterações, vai ter de se repetir com maior frequência”, explica. A médica lamenta que os portugueses ainda desvalorizem a importância de saberem em que níveis estão os indicadores que medem o risco cardiovascular. “Quando se tem 35 anos, por um lado não se procura uma vigilância regular. Mesmo os médicos de família normalmente tendem a fazer rastreios e a procurar o risco cardiovascular mais à frente, em pessoas mais velhas”, sublinha Cristina Gavina, pedindo uma mudança de paradigma de modo a prevenir a doença cardiovascular mais cedo.
No caso da pressão arterial, a presidente da SPC lembra que “o normal” é ter a pressão sistólica (a máxima) entre 12 e 13 e a pressão diastólica (a mínima) entre os 7 e 8. “Quando se começa a subir a partir disso, já não é completamente normal, já quer dizer que os vasos sanguíneos estão a começar a entrar em sofrimento de alguma forma”, explica a cardiologista, aconselhando, nesses casos, a procura por ajuda médica. A médica explica que, no caso de pessoas com valores de tensão entre “os 13 e os 14, que não sendo normais ainda não são hipertensão, é possível controlar a tensão com exercício, perda de peso, e com deixar de beber bebidas alcoólicas e fumar”, reforçando a importância da mudança dos fatores de risco.
Já no que diz respeito à glicemia, o valor normal fica abaixo dos 100 mg/dL. “Quando começamos a ter mais do que isso, já começamos a entrar numa faixa em que não estamos a conseguir retirar da corrente sanguínea o açúcar que temos em circulação”, explica Cristina Gavina, acrescentando que o açúcar em excesso “é tóxico para as paredes das artérias e vai fazer com que haja produção de doença aterosclerótica”. Ainda assim, a especialista ressalva que valores de glicemia entre os 100 e 126 não são ainda considerados diabetes.
Quanto ao colesterol, os valores considerados normais estão abaixo dos 200 mg/dL, sendo que o colesterol LDL (conhecido por mau colesterol) não deve ser superior a 115 mg/dL. Alertando que cerca de metade da população portuguesa tem colesterol elevado (embora parte não o saiba), a presidente da SPC alerta para a importância de conhecer os valores do colesterol, um inimigo silencioso. “Se não vou valorizar, o que vai acontecer é que, mais cedo ou mais tarde, vai provocando dano nas paredes arteriais e vai aparecer um evento cardiovascular”, alerta a médica, acrescentando que a Sociedade Portuguesa de Cardiologia e a Sociedade Portuguesa de Diabetologia vão iniciar um estudo, designado PULSAR, que vai contribuir para conhecer a prevalência do colesterol elevado na população, uma vez que os últimos dados epidemiológicos existentes têm já mais de 15 anos.
https://observador.pt/2025/11/25/maior-estudo-nacional-vai-medir-o-pulso-a-diabetes-e-risco-cardiovascular/
“O objetivo é que as pessoas se apercebam de que estão com determinado risco e que tenham tempo para alterar a sua vida e diminuir o risco para o futuro”, reforça Cristina Gavina.
Doença cardiovascular nas mulheres está subdignosticada
As mulheres têm 14 vezes mais probabilidade de morrer por doença cardiovascular do que por cancro da mama. A comparação é muitas vezes feita pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia para alertar para o subdiagnóstico neste grupo, sobretudo devido aos sintomas mais inespecíficos que caracterizam a doença cardiovascular nas mulheres em comparação com os homens. “Descrevem os sintomas como mal-estar, falta de ar, angústia. E, portanto, é mais difícil suspeitar. Elas próprias não sabem o que têm e não procuram ajuda”, lamenta a presidente da SPC.
Por outro lado, parte do subdiagnóstico deve-se à abordagem dos profissionais de saúde. “Há o problema dos próprios profissionais de saúde, porque acham que as mulheres têm menos risco e vãoo desvalorizar”, diz Cristina Gavina, lembrando que as mulheres têm doença cardiovascular dez anos mais tarde do que os homens, em média, normalmente depois da menopausa.
O resultado? Uma maior mortalidade por doença cardiovascular no sexo feminino. “A mortalidade cardiovascular é maior nas mulheres que nos homens. Aliás, em Portugal, conseguimos já chegar a isto: em 2024, o que se verificou foi que, nos homens, já se conseguiu equiparar a mortalidade cardiovascular à mortalidade por cancro, mas, nas mulheres, ainda temos mais mortalidade por doença cardiovascular do que por todos os cancro juntos”, assinada a especialista.
Cristina Gavina chama a atenção para sinais de alerta nas mulheres, como a hipertensão ou diabetes na gravidez. “Hipertensão na gravidez, diabetes na gravidez ou parto prematuro são situações que indicam que o sistema cardiovascular já não está saudável”.
Cardiologistas pedem maior investimento na prevenção e envolvimento das farmácias
A Sociedade Portuguesa de Cardiologia defende também a necessidade de a Direção-Geral da Saúde construir um novo Programa Nacional das Doenças Cérebro-Cardiovasculares. Mais uma vez, o que existe, liderado pela cardiologista Fátima Franco, não está à altura dos desafios atuais. “O atual programa é conduzido por uma pessoa de imensa reputação e capacidade para conduzir o programa, mas que se debate com muitas dificuldades na implementação”, diz a presidente da SPC, apontando o dedo à tutela pela falta de aposta na prevenção. A médica explica que o país tem capacidade para atuar na fase aguda da doença e dos eventos cardiovasculares, nomeadamente nas vias verdes AVC e via verde coronária (o que contribuiu para a redução significativa da mortalidade cardiovascular, de 35% nos últimos 10 anos, e de 45% da mortalidade por AVC), mas continua a falhar na área da prevenção.
“Precisa ser melhorado o investimento nesta área de prevenção. Tem de haver medidas específicas e que precisam de apoio e vontade política”, apela Cristina Gavina, pedindo um aumento do investimento em campanhas massivas de informação para a população, para que as “pessoas compreendam o que é o risco cardiovascular e por que é tão importante prevenirem as doenças”. A especialista defende também “uma articulação entre as diretivas europeias, as normas da DGS e a implementação no terreno”. “Não é uma questão de gastarmos mais dinheiro, é aproveitarmos o dinheiro que estamos a gastar de uma forma mais eficiente e para isso temos que criar programas que sejam sistemáticos, regulares, e em que vamos monitorizando os resultados”, reforça.
“O que precisamos é de organizar melhor os cuidados, de tentar encontrar momentos fixos para avaliação de risco. A maior parte das coisas que vamos fazer não são muito diferentes daquilo que já fazíamos. Nem são coisas extremamente complexas, nem tecnologicamente muito avançadas. Só precisamos de voltar ao básico: perguntar às pessoas o que é que elas sentem e fazer a avaliação”, conclui a presidente da SPC.
Cristina Gavina defende também o envolvimento das farmácias no rastreio cardiovascular regular à população. “Deveria haver um investimento junto das farmácias comunitárias — que estão perto das pessoas — para ser possível, uma vez por ano, um cidadão ter acesso a uma destas avaliações”, vinca.