A crise dos incêndios florestais na Europa veio expor o fracasso de uma retórica de despesa pública que não encontra correspondência numa gestão eficaz do território e das florestas. Em 2023, os governos da União Europeia gastaram 40,6 mil milhões de euros em serviços de protecção contra incêndios. Em 2022, essa despesa tinha ascendido a 37,4 mil milhões de euros.
O Tribunal de Contas Europeu concluiu que a fiscalização da despesa era incompleta, que o acompanhamento dos resultados era deficiente e que não existiam garantias de que o financiamento fosse canalizado para as medidas de maior impacto. Entretanto, a área média anual ardida na UE aumentou para 527 mil hectares entre 2021 e 2024, quase o dobro dos 268 mil hectares registados entre 2006 e 2010. Por outras palavras, gastar mais não se traduziu em melhores resultados.
Os próprios documentos da Comissão Europeia reconhecem que uma gestão florestal sustentável, o desbaste da vegetação, a abertura de faixas corta-fogo e caminhos de acesso, a criação de zonas-tampão, o pastoreio misto e o fogo controlado são instrumentos essenciais para reduzir o risco de incêndio. O agravamento dos incêndios florestais não pode, por isso, ser explicado apenas pelas alterações climáticas: é também reflexo de falhas na gestão do território, na concepção das políticas de prevenção e, sobretudo, na sua execução.
Este é apenas mais um exemplo de como um Estado maior não significa necessariamente melhores serviços. A União Europeia gasta mais e obtém piores resultados. E o que dizem os governos? Naturalmente, que precisam de mais receitas.
O objectivo de emissões líquidas zero, o chamado net zero, está a revelar-se um fracasso onde quer que seja aplicado. Entre 1996 e 2024, a Europa, o Reino Unido e o Canadá reduziram as emissões de CO₂ e de gases com efeito de estufa. Contudo, grande parte dessa redução resultou da estagnação económica e da desindustrialização, do aumento dos custos internos da energia e de uma dependência crescente das importações de bens manufaturados provenientes de economias mais intensivas em carbono, como a Rússia, a China e a Índia. A edição de 2025 da base de dados EDGAR, que disponibiliza séries históricas por país e por sector entre 1970 e 2024, mostra que as emissões globais de gases com efeito de estufa atingiram 53,2 Gt de CO₂ equivalente em 2024, mais 1,3% do que em 2023, apesar de muitas economias avançadas continuarem a registar reduções das suas emissões internas.
A questão central não é saber se as emissões diminuíram na Europa, no Reino Unido e no Canadá. Diminuíram. A verdadeira questão é saber se quase duas décadas de políticas climáticas assentes na tributação, de imposições associadas ao net zero e de mecanismos de fixação do preço do CO₂ conseguiram assegurar uma descarbonização duradoura sem, em contrapartida, esvaziar a base industrial dessas economias. Os dados mostram que grande parte do aparente sucesso resultou do enfraquecimento da produção industrial interna e da transferência para o estrangeiro de uma parcela crescente das actividades produtivas intensivas em energia.
Desde finais da década de 1990 e sobretudo a partir de meados da década seguinte, a política climática europeia tem assentado na atribuição de um preço ao carbono, na imposição de limites às emissões e de metas para as energias renováveis, numa pesada tributação da energia e em programas de subsídios directos, a que vieram juntar-se os objectivos de emissões líquidas zero. O Sistema de Comércio de Licenças de Emissão da União Europeia, o sucessivo quadro britânico de orçamentos de carbono instituído ao abrigo da Climate Change Act e os sistemas federal e provinciais de fixação do preço do carbono no Canadá tiveram todos o mesmo propósito: encarecer as emissões e tornar mais atractivo o investimento em alternativas de baixo carbono.
Estas políticas reduziram efectivamente a intensidade das emissões em vários sectores, mas aumentaram também os custos suportados pelas indústrias intensivas em energia, obrigadas a competir à escala mundial com margens reduzidas. A análise da OCDE sobre a transição para energias limpas e a deslocação do emprego nas indústrias intensivas em energia identifica custos de ajustamento significativos e perdas de postos de trabalho nos sectores mais expostos das economias da OCDE, mesmo quando os dados agregados sobre o emprego acabam por ocultar os danos económicos sofridos a nível local e regional.
As séries históricas da EDGAR mostram que, desde 1996, a Europa e o Reino Unido registaram reduções substanciais das emissões produzidas nos seus territórios, sobretudo depois de 2005. No Canadá, os progressos foram mais modestos e irregulares.
Em 1996, as economias industriais avançadas da Europa, do Reino Unido e do Canadá conservavam uma parcela da indústria pesada e uma capacidade transformadora muito superiores às actuais. Em 2024, essas economias tinham reduzido significativamente as suas emissões internas, mas as emissões mundiais tinham aumentado, enquanto a China e a Índia passaram a representar uma parcela muito maior tanto da produção industrial mundial como das emissões de CO₂. O relatório EDGAR de 2025 mostra que as emissões globais continuaram a crescer em 2024, apesar de décadas de políticas climáticas na Europa e da progressiva expansão da agenda net zero nas economias avançadas.
Se este modelo tivesse sido inequivocamente bem-sucedido, seria de esperar que a redução das emissões nas economias de elevada tributação e forte regulação tivesse sido acompanhada por uma estabilização mais generalizada das emissões mundiais, sobretudo após anos de tributação do carbono e de despesa pública em políticas climáticas. Em vez disso, as emissões foram, em muitos casos, simplesmente deslocadas geograficamente através do comércio internacional e da deslocalização da produção. Mais ainda: se este quadro de políticas verdes tivesse funcionado como prometido, deveria ter produzido mais emprego, maior crescimento económico e uma expansão da produção industrial. Aconteceu o contrário.
A Agência Internacional da Energia (AIE) assinala uma profunda alteração da geografia mundial das emissões: o peso das economias avançadas tem vindo a diminuir, enquanto o da Ásia emergente cresce rapidamente. Os dados por país e os relatórios da EDGAR mostram que a China e a Índia registaram fortes aumentos das emissões em termos absolutos durante o mesmo período em que a Europa e o Reino Unido adoptaram metas climáticas cada vez mais exigentes. As cadeias de abastecimento globais absorveram uma parcela significativa da actividade industrial que deixou de ser realizada no Ocidente.
É precisamente por isso que a contabilização das emissões com base apenas no território nacional pode ser enganadora. Um país pode reduzir as emissões registadas dentro das suas fronteiras e, simultaneamente, aumentar o consumo de bens importados cuja produção, no estrangeiro, é mais intensiva em carbono. Nesse caso, a política interna altera sobretudo o lugar onde as emissões são produzidas, e não a quantidade de emissões geradas à escala mundial.
O custo económico é visível na própria estrutura da produção, do emprego e do investimento. Os estudos sobre o net zero nos sectores da energia e da indústria mostram que a criação de emprego e de valor acrescentado depende, em larga medida, da capacidade de manter localmente as cadeias de abastecimento. Assim, à medida que a produção é substituída por importações, os benefícios económicos diminuem, enquanto os custos internos de ajustamento permanecem. Os trabalhos da Resolution Foundation sobre o emprego associado ao net zero mostram igualmente que a transição para uma economia mais verde afecta de forma muito distinta os diferentes sectores e regiões, sendo as zonas industriais particularmente penalizadas, uma realidade que os números agregados do investimento verde não são suficientes para revelar.
Tudo isto se traduziu num abrandamento do investimento industrial, em custos mais elevados da electricidade e dos combustíveis para os consumidores, e numa dependência crescente de transferências orçamentais, subsídios e programas de política industrial destinados a compensar os danos provocados pelo choque inicial destas políticas. Ou seja, os governos começam por encarecer a produção interna através de impostos, preços do carbono e imposições regulamentares e, em seguida, gastam milhares de milhões de euros de fundos públicos para tentar compensar algumas empresas e famílias pela consequente perda de competitividade e de poder de compra.
O Canadá constitui um exemplo claro deste fracasso. A despesa pública em políticas climáticas e os mecanismos de fixação do preço do carbono são justificados como instrumentos destinados a reforçar a competitividade a longo prazo. Contudo, nada disso se concretizou e tornou-se praticamente impossível preservar a actividade industrial quando as empresas podem transferir os seus investimentos para jurisdições onde os custos são mais baixos. A mesma lógica aplica-se à Europa e ao Reino Unido, onde as corridas aos subsídios e os mecanismos de compensação se tornaram uma característica permanente da política climática, em vez de constituírem uma solução transitória.
A crítica mais contundente às políticas climáticas fortemente assentes na tributação é de natureza empírica. Quase duas décadas após a expansão dos mercados de carbono, dos impostos sobre a energia e dos compromissos de net zero, as emissões mundiais continuam a aumentar. Segundo a EDGAR, as emissões globais de gases com efeito de estufa atingiram 53,2 Gt de CO₂ equivalente em 2024. A Agência Internacional da Energia descreve um quadro semelhante: as reduções alcançadas nas economias avançadas são compensadas pelo aumento das emissões noutras regiões, sobretudo em países onde o carvão continua a desempenhar um papel central na produção de electricidade e na actividade industrial.
A China e a Índia tornaram-se indispensáveis à produção industrial mundial precisamente durante o período em que os governos ocidentais tornaram mais restritivas as suas políticas climáticas internas. No essencial, as políticas climáticas da Europa, do Reino Unido e do Canadá funcionaram como um gigantesco subsídio ao crescimento chinês e indiano, pago pelos consumidores dos próprios países que as adoptaram.
O resultado é um modelo a que podemos chamar «estagnação net zero». As emissões internas diminuem, mas diminuem também a capacidade industrial e o crescimento real dos salários líquidos, enquanto as emissões mundiais prosseguem uma trajectória ascendente. A Europa, o Reino Unido e o Canadá demonstraram que os impostos, a fixação do preço do carbono e a despesa pública conseguem reduzir as emissões produzidas internamente, mas à custa da deslocalização da indústria nacional. Estas políticas tendem a reduzir as emissões globais apenas através da transferência da produção para outros países, enfraquecendo a competitividade, empobrecendo os cidadãos e aumentando o peso do Estado na economia.
Uma estratégia climática mais sólida daria menos importância a metas simbólicas e à tributação punitiva, e concentrar-se-ia mais na inovação tecnológica, nos mercados livres, na produção interna de energia, no crescimento da produtividade e na concorrência aberta. Até que isso aconteça, uma parte substancial dos tão celebrados progressos na redução das emissões das economias avançadas continuará a ter como contrapartida fábricas que desaparecem e economias cada vez menos competitivas.
Tradução do artigo original em Inglês de 26/jul/2026 pela Oficina da Liberdade.
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