“Espero não acordar amanhã”, escreveu um membro da tripulação do USS Abraham Lincoln à sua mulher, numa mensagem enviada na quinta-feira da semana passada.
Nesse mesmo dia, cerca de 200 familiares dos mais de cinco mil marinheiros e fuzileiros navais destacados no navio de guerra reuniram-se com responsáveis da Marinha norte-americana para denunciar o agravamento das condições de vida a bordo. Os militares encontram-se há nove meses no mar — já estavam no navio há quatro meses quando foram destacados para a guerra no Médio Oriente, não tendo tido em todos estes meses grandes oportunidades de pisar terra firme. No total, estiveram já 250 dias consecutivos sem poder desembarcar — um recorde para um porta-aviões nos tempos modernos. Desde que foi redirecionado, em janeiro, o USS Abraham Lincoln permanece estacionado no Mar Arábico, relatou a Forbes.
Numa missão sucessivamente prolongada devido à guerra com o Irão, multiplicam-se os relatos de membros da tripulação que terão tentado lançar-se ao mar, segundo informações publicadas pelos jornais militares Navy Times e Stars and Stripes. Durante o encontro com responsáveis da Marinha norte-americana, entre os quais o secretário interino, Hung Cao, uma das participantes terá mesmo acusado a instituição de ter “quebrado a confiança entre nós e a liderança”, refletindo o crescente descontentamento entre as famílias.
“Ele está com medo. Pensa que vai receber uma baixa desonrosa e que, só porque estava exausto, a sua carreira de 13 anos será arruinada de um momento para o outro”, contou Annabelle Loma ao Navy Times. Segundo relatou ao jornal, o marido tentou lançar-se ao mar várias vezes depois do seu período de serviço ter sido prolongado.
A mulher de outro marinheiro relatou ainda um incidente distinto a bordo do USS Abraham Lincoln, no qual o marido terá impedido um colega de se suicidar, agarrando-o a tempo quando este se preparava para se lançar ao mar e conseguindo trazê-lo de volta para o convés.
Não são apenas os familiares dos membros da tripulação que manifestam preocupação com a situação a bordo do USS Abraham Lincoln. Também vários congressistas norte-americanos têm vindo a alertar para as dificuldades enfrentadas pelos militares destacados no porta-aviões, que já cumpre o seu quinto mês de operações de combate relacionadas com o conflito com o Irão.
Mike Levin, membro democrata do Congresso pela Califórnia, denunciou os “chuveiros com mofo, casas de banho avariadas, lavandarias paradas durante semanas, longos períodos sem água quente, uma refeição que se resume a meia chávena de arroz e duas tortilhas“. Afirmou ainda, de acordo com o The Guardian, que não existe “sabão, desodorizante ou pasta de dentes”. Jason Crow, congressista democrata pelo Colorado e antigo militar, alertou que a pressão sobre os membros da tripulação e as suas famílias tem vindo a “aumentar semana após semana”.
“O mínimo que o país lhes deve é água quente, uma casa de banho a funcionar e uma refeição a sério”
Entretanto, Pete Hegseth classificou os relatos dos familiares da tripulação a bordo do USS Lincoln como “mais notícias falsas”. A reação do secretário da Defesa dos EUA motivou críticas de Mike Levin, que acusou Hegseth de ignorar os problemas enfrentados pelos militares destacados no porta-aviões.
“Estes homens e mulheres alistaram-se para servir o seu país. O mínimo que o país lhes deve é água quente, uma casa de banho a funcionar e uma refeição a sério. Hegseth nem isso consegue, e ainda tem a ousadia de olhar nos olhos das suas famílias e chamar-lhes mentirosas”, afirmou o membro democrata do Congresso pela Califórnia, segundo o The Guardian.
Em declarações ao jornal britânico, um oficial da Marinha norte-americana afirmou ter noção de que os “desdobramentos prolongados impõem uma pressão significativa” sobre os militares e as suas famílias. No entanto, garantiu que, “com base nas informações disponíveis”, não foi identificado um “aumento de relatos de ideação suicida ou tentativas de suicídio a bordo do navio”.
Apesar de ter reconhecido que o atual conflito com o Irão interrompeu os centros de abastecimento tradicionais, o oficial disse que “os relatórios atuais do navio confirmam o acesso contínuo a água potável, ar condicionado a funcionar e opções de refeições saudáveis”.
O USS Abraham Lincoln partiu de San Diego a 21 de novembro com destino ao Pacífico, mas acabou por ser redirecionado para o Médio Oriente após o início da guerra entre os EUA, Israel e Irão. Desde então, os mais de cinco mil membros da tripulação tiveram apenas duas breves oportunidades para pisar terra firme: uma escala em Guam, em dezembro, e outra em Omã, em julho, revelou o MS Now.
O destacamento, que deveria ter terminado em maio, foi sucessivamente prolongado devido à continuação do conflito, mantendo a tripulação no mar durante um período sem precedentes.