Este artigo faz parte da série “Na Primeira Pessoa”, um conjunto de textos escritos por uma jornalista a partir de conversas com pessoas que partilham momentos da sua doença mental.
Há dois momentos críticos da minha doença. O primeiro foi numa altura em que tive de parar de trabalhar, era administrativo, empregado de escritório numa cadeia de hipermercados. Sentia que não estava bem, fui ao médico, e estive de baixa durante três semanas. Passei oito dias no sofá, metido comigo mesmo e com os meus pensamentos que não me permitiam fazer rigorosamente nada. Sempre a ruminar ideias, a ritualizar a realidade, nada mais do que isso.
A minha mulher saía muito cedo de casa para trabalhar, por volta das seis da manhã, e eu ficava sentado no sofá da sala. Quando ela chegava, às sete e tal da noite, eu ainda estava no mesmo sítio, no mesmo sofá, e não me perguntem se eu almoçava, se jantava, se via televisão, se ia à casa de banho. Não tenho ideia do que aconteceu nesse período. Como se a memória o tivesse apagado. Foi o período mais complicado da doença, nem percebo exatamente o que aconteceu, nem sabia que tinha Perturbação Obsessivo-Compulsiva (POC), ainda não tinha sido diagnosticado. Tinha 28 anos.

O outro momento, esse mais consciente, foi quando a minha mulher ficou grávida, há 37 anos. Estava constantemente com a ansiedade a disparar e com medo. Medo do diabo, da figura do demónio. Que estivesse aqui e ali, que fizesse alguma coisa à minha filha que ainda nem tinha nascido. Andava permanentemente em pânico, inquieto, a repetir ações, rituais… se os fizesse nada de mal ia acontecer e a ansiedade, por momentos, baixava. Eu pensava que essa era a solução.
Passei muito mal nesse tempo, dei uma vida terrível à minha mulher e à minha mãe que, na altura, vivia connosco. Foi muito complicado, em momentos de stress maior do que o habitual, a POC ataca mais e os efeitos são mais corrosivos. Quando a minha filha nasceu, a primeira vez que lhe peguei já ela tinha três semanas e, mesmo assim, sentei-me no sofá e tremia que nem varas verdes quando a minha mulher me pôs a miúda no colo. Os pensamentos continuavam a destruir toda essa experiência.
Fazer e desfazer o que já estava feito
Nesse tempo, eu achava que era um extraterrestre, que mais ninguém tinha nada assim. Até que percebi que se repetisse determinadas ações quando vinha o pensamento negativo, forçando-me a ter um pensamento positivo contrário, a ansiedade baixava. Vinha-me um pensamento à cabeça e eu pegava num lenço e tinha de voltar a pô-lo onde queria, mas com um pensamento de Jesus, de Deus, de um santo, de um anjo da igreja. Agora imagine o que é fazer isto dez vezes para o lenço ficar naquele sítio. E quem diz o lenço, diz tudo e mais alguma coisa.
Era com tudo. Com interruptores, não porque achasse que a luz tinha ficado ligada, mas porque tinha tido o pensamento quando a desliguei e então tinha de a ligar outra vez. E andava nisto dez ou quinze vezes. Pôr o carro a trabalhar e desligá-lo dez vezes, nunca por achar que havia algum problema. O problema era como o processo não tinha sido feito com um pensamento positivo, antes pelo contrário: vinha acompanhado de um pensamento negativo. Então eu tinha de andar para trás e para a frente com o lenço, com o copo de água, apertar e desapertar os sapatos, apertar e desapertar o cinto das calças, apertar e desapertar os botões da camisa.
Para chegar a tempo ao trabalho, tinha de me levantar uma hora antes pelo tempo que demorava a apertar e a desapertar a camisa, os sapatos, a baixar e a subir as calças. E quando estava ao pé de pessoas, fazia os possíveis e os impossíveis para que não se apercebessem do fazia. Desde os 18 anos, um terço da minha vida, provavelmente mais, foi gasto a fazer o que já estava feito.
Porquê o diabo? Não faço a mínima ideia. Provavelmente por causa da formação religiosa que tive. Frequentava a igreja desde muito novo e comecei, não me pergunte porquê, a ter medo da figura do diabo. No fundo, associado a tudo o que a igreja incute nessa matéria: o pecado, o mal, o castigo, o inferno. E então comecei a ter pavor de tudo o que tinha a ver com esse tema. A POC está muito associada ao medo de alguma coisa. No meu caso, era este medo.

Eu tinha pensamentos constantes e obsessivamente a ocupar-me a cabeça. A certa altura, o filme O Exorcista estava em exibição. Se estivesse na Avenida da Liberdade, eu ia por qualquer outro sítio só para não passar perto do cinema onde o filme estivesse. Se abrisse um jornal e visse um anúncio do filme, estava tudo estragado. Não me lembro de deitar o jornal fora, mas puxava-o para o lado e não lhe pegava mais, isso era garantido.
Andar a marcar passo
Comecei a achar que havia qualquer coisa que não estava bem e quando tinha 18 anos fui a um psiquiatra que me deu três medicamentos. Não me disse nada sobre POC. Só ao fim de 37 anos, é que soube o que era. Já tinha corrido vários psiquiatras, vários psicólogos, já tinha feito hipnoterapia, já tinha feito acupuntura. Havia alturas em que melhorava ligeiramente, mas depois voltava tudo outra vez. Os médicos diziam-me que era ansiedade, depressão, angústia. Até chegar à Associação Domus Mater, nunca soube que a minha doença se chamava POC. Eu tinha 55 anos. Hoje tenho 65.
Andei a marcar passo durante muito tempo, umas vezes melhor, outras pior, a sofrer e a fazer sofrer os outros. Durante estes anos, até podia achar que isto era uma doença, mas com o medo ocupava a minha cabeça, não transportava tudo para uma doença mental, apesar de achar que não fazia sentido nenhum. Tinha medo de que o diabo me matasse? Não, nem me lembro se pensei alguma vez nisso. No meu caso, não era nada palpável. Era só medo. E o medo era tudo.
Em 2014, era dezembro, a minha mulher falou-me de um programa da manhã, que tinha visto na televisão, que eu deveria ver, que podia ser parecido com aquilo que eu sentia. Começo a ver o programa e cada coisa que um rapaz do Porto dizia eu identificava-me com aquilo — o problema dele nada tinha a ver com diabo, mas com a contaminação: lavava as mãos quase ao ponto de fazer ferida, por mais que lavasse achava que estava sujo e contaminado. Apercebi-me que a base dele era a mesma que a minha, o medo dele era um, o meu era outro, mas tínhamos medo de qualquer coisa. O ritual dele era tomar banho durante horas ou lavar as mãos constantes, o meu era andar para trás e para a frente até a ansiedade baixar. Foi a primeira vez que ouvi chamar à doença POC.
Pensei: “provavelmente é isto que tenho”. Enviei um email à Domus Mater [Associação de Apoio ao Familiar e Doente com Perturbação Obsessivo-Compulsiva], fui a uma consulta de diagnóstico. Em fevereiro de 2015, comecei nas consultas todas as semanas e em junho entrei nas sessões de terapia em grupo. Nunca tinha estado com mais ninguém que tivesse POC, ou nada parecido, e dou por mim numa sala com 50 e tal rapazes, raparigas, homens, mulheres, e algumas crianças, a mostrarem-me que eu não era um extraterrestre, que o problema não era o diabo, a perceber que, afinal, havia uma luz ao fundo do túnel.




Na festa de Carnaval de 2016, da Domus Mater, toda a gente tinha de ir mascarada, vesti-me de diabo, imagine o que foi para alguém que se assustava só de ouvir o nome dele, que fugia a sete pés da imagem. A psicóloga falou com a minha mulher e ela também foi vestida de diabo para ajudar à festa. O objetivo era confrontar o medo, perceber que aquilo não fazia sentido. Ter-me vestido de diabo ou ter ido de calças de ganga era a mesma coisa. A minha cabeça é que lhe dava uma importância diferente. Outra coisa foi ter visto “O exorcista”. Comprei o filme, vi-o até ao fim, houve alturas que estremeceu um bocadinho comigo, mas nada de transcendente, nada que me fizesse desligar a televisão.
Recorrer às ferramentas
Até aos 18 anos, eu era um rapaz normalíssimo, nada de problemas, pelo menos aparentemente. No meu primeiro emprego, um trabalho na contabilidade numa fábrica grande em Alverca, tinha um colega que passava a vida a gozar comigo, o que me provocava vergonha e medo. A história de ser gozado começou muito antes. Quando era miúdo, tinha as orelhas um bocado mais saídas e toda a gente na escola me conhecia pelo “orelhas”. Na altura, isso mexia comigo. Hoje sei que tudo isso fez disparar a POC.
Passaram-se muitos anos e, sinceramente, não imaginava que ia ficar como estou hoje. A medicação ajudou-me bastante. Não estou a cem por cento porque, segundo parece, a POC não tem cura, mas diria que estou 95% melhor. Das consultas regulares de psicologia na associação Domus Mater, que inicialmente eram semanais, passando a quinzenais cerca de um ano e pouco depois, tive alta passados dois anos e meio. Atualmente, e até agora, não tenho necessitado de consultas individuais, mas participo nas terapias de grupo, que acontecem mensalmente, e nos fins de semana terapêuticos que acontecem duas vezes por ano.
Tenho uma pequena empresa de informática, trabalho, estou ativo, sinto-me bem. Em momentos mais complicados, de mais stress, mais ansiedade, recorro às ferramentas para ir dando a volta. Ferramentas para tentar desfocar os pensamentos como trautear uma canção ou jogar mentalmente ao Stop, aquele dos nomes, países, cidades – enquanto penso nisso, não penso noutras coisas. E aprendi uma coisa muito importante: ninguém me vai tirar os pensamentos, eles vão continuar a surgir, mas agora sei viver com eles, a desvalorizar o peso que têm na minha cabeça.