Bem sei que foi dia de eclipse, daquele tipo especial que só acontece uma vez na vida, mas uma outra história merece ao menos alguns parágrafos de reflexão esta semana. José Maria Pyrrait, 61 anos este mês, completou segunda-feira uma viagem ao longo de toda a costa continental portuguesa: 900 quilómetros ou 500 milhas náuticas, de Moledo à foz do Guadiana, em Vila Real de Santo António, numa modesta prancha de SUP, stand up paddle. 61 anos, 900 quilómetros, uma prancha de SUP.
Claro que Pyrrait não é exactamente um sexagenário como outro qualquer; é surfista e treinador. Mas percorrer a costa portuguesa, dobrar o Cabo Carvoeiro e o da Roca e o Espichel e o Sardão e o de São Vicente, numa tabuinha de fibra de carbono leve como uma pena, sem vela nem motor, em que uma pessoa comum teme ser arrastada para o largo por qualquer corrente, quanto mais passar no canhão da Nazaré? Podia ter 18 anos ou 20 e nascido com guelras e barbatanas de origem. Não há muito louco ou super-herói no mundo que o fizesse.
A viagem começou a 29 de Junho e deveria ter-se prolongado por um mês, à razão de uma etapa média de 30 quilómetros por dia. “A primeira etapa correu muito bem”, declarou então Pyrrait, citado pela TSF, “tive logo um bom agouro, porque entrei dentro de água e apareceram golfinhos. Acho que é um bom sinal”. E há-de ter seguido, Julho e país abaixo, de acordo com o plano, parando mais ou menos a meio na Ericeira, onde está hoje estabelecido e tem a sua escola, para festejar o segundo aniversário do neto mais novo.
Pyrrait nasceu em Lisboa, em 1965. Diz a imprensa que descobriu o mar na adolescência, no Rio de Janeiro, onde começou a fazer surf, e, depois, nos Açores, no tempo em que era fotógrafo oficial do Governo Regional, colaborou com jornais e revistas da especialidade e fez caça submarina. Andou a fotografar a guerra civil em Angola, acompanhando a guerrilha da UNITA e as históricas eleições na África do Sul que deram a vitória a Mandela. Em 1998, deixou a fotografia para se dedicar a tempo inteiro ao surf. “O mar não é nosso, mas há certas pessoas que são do mar”, dirá o navegador solitário à chegada, “e eu tenho a sorte de ser uma delas”.
A história de José Maria Pyrrait e da sua viagem serviu para mostrar que a idade não nos deve limitar. Que devemos continuar a traçar metas e a superar desafios; a recusar a rendição à solidão e à inércia de ficar em casa, “muito fácil”, mas com “um preço muito elevado a nível mental, psicológico, físico e espiritual”. É a história de uma viagem contra um outro eclipse, o da velhice, o do fim que deixamos aproximar e ir cobrindo a vida como se já cá estivesse, escurecendo, imobilizando tudo. Mas não é o conto exemplar mais fácil de entender.
Nalgumas etapas, Pyrrait teve companhia. Foi numa delas, cumpridos já mais de três quartos da epopeia, ao dobrar a Pedra da Agulha, na Arrifana, que desapareceu no mar um jovem de 28 anos, Arran Strong, surfista profissional britânico que chegou a representar o Reino Unido em competições internacionais. Tinha epilepsia, “não lidava muito bem com ela”, dirá Pyrrait à RTP à chegada, depois de uns dias de paragem obrigatória para chorar e homenagear o amigo desaparecido, antes de retomar caminho, também em nome dele. “Foi a hora do Arran. Foi no elemento de que mais gostava”, continuou, com uma serenidade e um pragmatismo certamente já esculpidos pelos dias de luto. “Todas as pessoas que nós amamos morrem um dia. Umas vão antes, outras vão depois de nós.”
Em Portugal, as pessoas com 65 ou mais anos já representam um quarto da população – e vão continuar a aumentar. Há quase dois idosos para cada jovem; meio milhão vivem sozinhos. 92% dos cidadãos seniores não praticam exercício físico de forma regular e dois terços são totalmente sedentários, uma das taxas mais catastróficas da União Europeia. Não se lhes recomenda que agarrem numa prancha de stand up paddle e vão dar a volta ao país, mas que pensem que, se um homem de 61 anos o consegue fazer, talvez elas possam continuar a caminhar, passear, correr, nadar, dançar, recusar-se a deixar chegar o velho de foice e capuz ou a sua irmã mais nova, a depressão.
A todos esses, a história de José Maria Pyrrait pode e deve inspirar; já a de Strong é mais difícil de entender. Podemos encontrar-lhe um sentido, como fez Pyrrait, ou ficar imobilizados pela perplexidade. Porque é que, na mesma aventura, a vida nos mostra que pode ser tão forte e tão frágil? Tão mais do que estamos à espera e tão menos? Ou talvez seja apenas um nosso velho vício humano, o de de toda a história tentar extrair uma moral. E, no limite, nesta podermos ler apenas e só isso mesmo: que a vida pode ser muito grande e muito curta e que é preciso vivê-la, independentemente de não sabermos o tamanho nem a resistência da nossa.
Os antigos atribuíam aos eclipses um sem-número de significados, quase todos de mau presságio ou desgraça iminente; hoje, em princípio, limitamo-nos a interessar pela raridade do fenómeno astronómico.
Conhece os teus deuses. Aprende a rezar-lhes e a ouvi-los. A receber o que te dão. Às vezes, é extraordinário.