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Dietas ideológicas: o que não mata, engorda!

Proletários de todo o mundo, não tendes nada a perder, a não ser o vosso apetite.

Paulo Nogueira
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Se hoje tudo é ideologia, claro que até o nosso combustível biológico – o alimento –  foi politizado. Dantes defendia-se a revolução porque uns morrem à fome e outros de indigestão. Hoje, precisamos de menos cuidado com as banhas do que com a gordofobia: gordura voltou a ser formosura. Se a culinária é uma arte, até ela está a tornar-se panfletária e a puxar a brasa para a sua sardinha.

Os olhos também comem, mas na gastronomia os principais sentidos são o olfato e o paladar. Um odor é uma violação do equilíbrio de oxigénio por outros elementos – metano, carbono, nitrogénio… Dependendo disso, temos uma fragrância ou um pivete. Perfumes como o  Chanel nº 5, parceria entre Coco Chanel e Ernest Beaux, com itens florais e a US$ 3500 por 225ml – duas gotinhas dele eram o único pijama que Marilyn Monroe vestia. Ou miasmas como o das peúgas de um maratonista nos últimos metros dos 42 kms.

O olfato humano capta 1 milhão de milhões de cheiros diferentes, e participa da escolha de parceiros amorosos e da deteção da agressividade alheia. Em média, cada pessoa respira 23.040 vezes por dia (se duvidam, podem contar: eu espero aqui, a menos que o resultado da vossa conta seja zero). No início de À La Recherche du Temps Perdue, de Marcel Proust, o lânguido protagonista molha um bolo no chá e pumba: uma epifania que faz a trama pegar de empurrão e (4215 páginas e sete volumes depois) cruzar a meta como o melhor romance do século XX.

Hoje um gajo entra num restaurante e, em vez de um maître deferente com a ementa, há um QR code na mesa. Na era pré-digital, houve menus desenhados por Toulouse-Lautrec. Outro dia, em Bangkok, vi uma ementa só com emojis. Há 80 anos, menus sugeriam Coca-Cola (cuja receita já incluiu cocaína) como panaceia medicinal (até Freud prescreveu-a) e ofereciam charutos, incentivando os clientes a fumarem como chaminés (isso hoje implica linchamento sumário).

E dantes aprendíamos sobre sabores com as nossas avós queriduchas. Agora, é no ecrã – rolamos vídeos com mais olhos que barriga. Resultado: uma epidemia de obesidade. Como notou Steven Pinker, a nossa é a primeira sociedade da história em que os pobres são gordos. Não: apesar da flacidez moral contemporânea, questionar os badochas não é gordofobia. A OMS classifica a obesidade como epidemia mundial, com mil milhões de doentes (1/8 do planeta). Desde 1990, as taxas de obesidade dobraram em adultos, e quadruplicaram em crianças e adolescentes, associadas a diabetes, distúrbios cardiovasculares e tipos de cancro. É como se seguíssemos o conselho de Talullah Bankhead: “Nunca coma de estómago vazio”.

No TikTok, um vídeo 30 segundos de um influencer cretino pode entronizar ou arruinar um restaurante. Os comensais já não têm que gamar  o menu como souvenir de um jantar memorável: basta fotografar o prato com o tlm. O que aliás eu jamais faria com as receitas do podcast “Está na mesa, Vegg”, cuja palavra de ordem é “saúde para as massas” (não no sentido macarrónico, mas revolucionário) – deixar as nossas tripas um brinquinho.

Ingredientes do bem? Quinoa, cúrcuma, tofu (este parece e sabe a esferovite). Enxofres? Glúten, carboidratos, sal e açúcar, que matam lentamente (embora ninguém esteja com pressa). Para mim, comida sem sal é… insossa. E sem açúcar, um amargo de boca. O santo padroeiro dessa gente é o vegetariano Bernard Shaw: “Um homem com a minha intensidade espiritual não come cadáveres”. Ou seja, todo o carnívoro é um necrófilo. Passo – antes necrófilo que coprófilo. Sei que essas coisas são subjetivas, mas para mim a culinária vegan não é carne nem peixe.

Hoje os grandes chefs não são cozinheiros, mas artistas excelsos, e os seus menus são manifestos estéticos, tão conceituais como o Manifesto Surrealista. O chef não é alguém que esgrime uma colher, mas um pensador e um profeta com a pedra filosofal. Como o lugar de mulher já não é na cozinha, a maioria deles são homens (até porque já ninguém faz a mais pequena ideia do que é uma mulher – sabemos apenas que as trans são mulheres). As raparigas da geração Z não sabem, não querem saber e têm raiva de quem percebe de fogão, essa geringonça sexista (falo pelas minhas duas filhas).

Claro que há estupendas chefs femininas, como a portuguesa Marlene Vieira e a brasuca Helena Rizzo (eleita duas vezes a melhor do mundo). Ambas têm restaurantes com estrelas Michelin. Em 1926, os franceses André e Édouard Michelin, donos de uma fábrica de pneus, criaram um guia gratuito para motoristas, com mapas e sugestões onde comer e dormir, e a classificação estrelada dos restaurantes. Não admira que o rechonchudo boneco publicitário Michelin tenha tantos pneuzinhos.

Estreou-se agora o filme “Tony”, de Matt Johnson, sobre o mais mediático e cosmopolita de todos os chefs: Anthony Bourdain, interpretado por Dominic Sessa, e Antonio Banderas como o seu mentor. A fama veio quando a mãe de Bourdain, editora do “New York Times”, confiou um texto do filho ao diretor da “New Yorker”, David Remnick, que o publicou. O artigo acabou expandido num best seller: “Kitchen Confidential”, sobre os bastidores escabrosos dos restaurantes, cujas cozinhas o autor comparava à “tripulação de um navio pirata”.

Bourdain protagonizou programas de culinária: “Cook’s Tour”, “No Reservations”, “Parts Unknow”. Os produtores deram-lhe carta branca (e cheques idem) para trotar pelo planeta fora, a prospectar exóticas pepitas de ouro gastronómicas. Tony inspirou biografias não autorizadas, como “Down and Out In Paradise” (alusão à primeira obra que Eric Blair assinou como George Orwell), de Charles Lerhsen, ou “Bourdain: The Definitive Oral Biograph”, de Laurie Woolever, e documentários como “Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain”, e “In the Weeds: Around the World with Anthony Bourdain”. Todos mostram um cozinheiro que cada vez mais perde a receita da vida: “Odeio o meu trabalho. Odeio os meus fãs. Odeio ser famoso”.

E depois o guru do deleite enforcou-se. Foi em 8 de junho de 2018, na suíte do hotel boutique Le Chambord, na vila francesa de Kaysersberg (diária: 600 euros), onde Tony gravava mais um episódio da série para a CNN. Aos 61 anos, levitava no auge da notoriedade (Barack Obama foi um dos primeiros a expressar pesar). Pela primeira vez na história do Sistema Solar, foi possível ler a mente (uníssona) de todos os terráqueos: “Como pode matar-se a pessoa que tem o melhor emprego do mundo?”

Havia as drogas, o álcool, os esteroides. E a relação tempestuosa com a ergonómica atriz italiana Asia Argento. Em 2017, Asia dissera ao repórter Ronan Farrow que Harvey Weinstein a tinha assediado sexualmente – com o respectivo texto na “New Yorker”, brotava o #MeToo.  Em 2018, o ator Jimmy Bennet acusou Asia de ter abusado dele – ele com 17 anos, e ela com 37. A atriz (que fizera de mãe de Bennet num filme) negou, mas surgiram fotos dos dois na cama vestidos só com o Chanel nº 5. Consta que Bourdain pagou o acordo. E depois Asia declarou que Ronan Farrow distorcera os factos na “New Yorker”, e que o sexo com Weinstein fora consensual. E citou Oscar Wilde: “É sempre Judas que escreve a biografia”.

Como tantos nas atuais castas virtuosas, Bourdain angustiava-se com  a discrepância entre sua santimónia ideológica, sua vida suntuosa e, digamos, a realidade. Tudo o que professava e vendia como transgressor, desinibido e até punk no fundo era agora mainstream e institucional.

Basta citar os últimos episódios de “Parts Unknow”.  Pouco depois do Brexit (que Tony odiou), ele visita o restaurante Rudloe Arms, do chef Marco Pierre White, na Inglaterra. O guru revira os olhos quando o entrevistado evoca com nostalgia o passado – raios, como um britânico pode reverenciar uma história racista e colonialista?  Em desespero de causa, Bourdain dá uma abébia: “Eras da classe trabalhadora, Marco. Foi uma luta para chegares até aqui, certo?” Resposta exasperante, com um encolher de ombros: “Ah, mas a vida era difícil para toda a gente”. Lembra-me o grande Robert Graves: “Quando falamos que o alho-porro é o espargo do pobre, isso não é simpático nem para o alho-porro, nem para o espargo, nem para o pobre”.

Noutro episódio, Bourdain petisca lagostins com ativistas alemães em Colónia. A cavaqueira gira em torno da (bruxos…) “extrema-direita”, inflamada desde que a Sra. Merkel escancarou as fronteiras de par em par. O guru suspira: “Como vão integrar um milhão de refugiados?” Os interlocutores explicam-lhe tintim por tintim: “A única maneira é os brancos desaparecerem da Alemanha e do mundo, e daqui a 70 anos haverá só pessoas cor de capuccino”.  Bourdain exulta: “Pois! É a única saída!”

Assim, a arte da fuga é um cravo bem temperado: a comida é o melhor argumento a favor da imigração em massa, agora que as justificações económicas, morais e sociais estão a claudicar, e as sociedades degeneram em coleções aleatórias de pessoas. Nas ilhas britânicas (do rabugento Marco) já há mais muçulmanos que galeses. Mas quem se rala, se a comida é de se lamber os beiços, em vez do fish and ships e da torta de rim? Os partidos Trabalhista e Verde consideram que Paris (ou Londres ou Ceuta) vale bem uma mousse – de cuscuz.

O sessentão Bourdain, como tantos snowflakes da geração Z, estava deprimido. Afinal, se comermos o fruto da árvore edénica do bem e do mal fará de nós deuses, o facto é que nem só de pão vive o homem – e nem mesmo só de caviar Goût de Diamants, o champanhe mais caro do mundo (US$ 1,8 milhão a garrafa). Camus já resmungava que o suicídio é a questão filosófica crucial. Vale a pena fazer alguma coisa? Porque eu devia levantar-me da cama de manhã? E alguma coisa conta no grande esquema das coisas? Não podemos encomendar o sentido da vida pela Amazon, como mais uma commodity (o fruto proibido entregue pelo Uber Eats)?

Como saber o que queremos, se já não acreditamos que é possível distinguir entre o bom e o mau, e o certo e o errado, pois a verdade é um self-service? A crise da modernidade consiste no facto de que o ocidental agora cospe no prato em que comeu – não crê num padrão universal plausível, que não seja relativo e resista ao tempo e à distância. Só acreditamos no prato do dia, cujo nome artístico é niilismo. Também tem a ver com a abundância hedonista e aquele círculo vicioso de que já ouviram falar: “Tempos difíceis criam homens fortes. Homens fortes criam tempos fáceis. Tempos fáceis criam homens fracos. Homens fracos criam tempos difíceis.”

Sentimos comichão com a ideia de hierarquia, de que algumas pessoas são melhores do que as outras (mais inteligentes, mais perseverantes, etc.). Impugnamos aquilo que os gregos chamavam thumos: a necessidade íntima de ser valorizado e respeitado pelo que se é e pelas próprias ações dignas. Ou a “eudaimonia” de Aristóteles: florescimento, um bem-estar gerado pela realização e plenitude. Hoje só neandertais tacanhos classificam alguém pelo caráter ou mérito: “capacitismo” é opressão. Todos os estilos de vida são equitativamente válidos – não nos cabe julgar, muito menos baseados em categorias obsoletas como dever, honra, sacrifício e grandeza, profundamente constrangedoras (senão fascistas). O que louvamos é a “vulnerabilidade” e o “cuidado”, já que toda a gente tem um valor inerente, independentemente do que conquiste ou como se comporte. Em vez da igualdade de oportunidades, postulamos a igualdade de resultados (conhecida na intimidade como “cotas”).Bom, pessoalmente penso como Orwell: “Os santos devem ser considerados culpados, até provar-se que são inocentes”.

Mas então e a ciência, a posta de pescada que aquele doutor da mula ruça (Anthony Fauci) tanto arrotou? Não é real apenas o que pode ser pesado e medido? Mas quantos quilos pesa a ternura? Quantos metros tem a esperança? Com a palavra, o materialismo: “És o descendente de uma minúscula célula de protoplasma primordial que surgiu numa praia deserta há 3,5 mil milhões de anos. És o produto cego e arbitrário do acaso e das forças naturais, o saco  de compras de partículas atômicas e substâncias genéticas. Existes num planeta foleiro num sistema solar minorca num canto ermo de um universo fortuito. Diferes em grau, mas não em espécie, de um micróbio. Não tens essência além do teu corpo, e na morte deixarás de existir completamente e para sempre, assim como todos os teus entes queridos, que nunca mais verás. Quando morrerem os teus bisnetos ninguém nunca mais saberá que exististe (se é que providenciaste bisnetos, na crise da natalidade). Em suma, vieste do nada, e não irás para lugar nenhum”.

Credo, não pode piorar, certo? Errado – Thomas Nagel (“The Absurd”): “Mesmo que escrevas uma obra-prima que continue a ser lida milhares de anos no futuro, o Sistema Solar arrefecerá e o Universo entrará em colapso. Se tudo o que existe for físico, e não houver um Deus ou uma vida além deste mundo material, então não importará se és um psicopata ou um filantropo. Tudo o que fizeste, com quem fizeste e para quem fizeste, desaparecerá para sempre”.

Com esse nada cósmico, todos vivemos vidas trágicas, cómicas, ou ambas. Gaita, mas pelo menos há terapias, não? A tristeza não se reduz a neurotransmissores e “desequilíbrio químico”? Não somos todos “neurodivergentes”? Não temos todos TDAH? Com os antidepressivos e o colinho psicanalítico, não será mais necessário perdoar tudo, pois não haverá nada a ser perdoado. Ninguém nunca será responsabilizado pelo seu estado ou situação, pois somos todos vítimas – sofro, logo existo. Nem toda a gente tem talento, mas toda a gente sofre (com certeza, até Hitler sofria). Por isso, toda a gente é gira da maneira como é. Ninguém será julgado, e muito menos julgará a si próprio, ufa!  A empatia performática é o melhor álibi para a autopiedade, hoje a mãe solteira da autoestima.

Sim, todo esse pacote soa compassivo, mas na prática elimina as próprias condições que tornam o autorrespeito possível, pois para evoluir precisamos de ser capazes de autocrítica e de sentir vergonha de nós mesmos. E também foram desmantelados os ritos de passagens: hoje há adolescentes senis.

O autoconhecimento é a forma mais difícil de conhecimento? Claro, mas as redes sociais existem para nos desenrascar: “Fingirei estar interessado na tua trivialidade, se fingires estar interessado na minha”. No finzinho da vida, Freud publicou o ensaio “Análise Terminável e Interminável” – adivinhem qual  a preferível? Ah, podermos tagarelar sobre próprios até ao último suspiro! Sim, aquele Freud  que até 1938 alegava que seu verdadeiro inimigo não eram os nazis, mas a Igreja Católica. Meses depois, como era mundialmente apaparicado, conseguiu fugir de Viena para Londres. Mas as suas anónimas quatro irmãs, judias como ele, morreram em Auschwitz.

Caros leitores, espero não ter arruinado o vosso apetite. Como dizia o exército prussiano: “A situação é catastrófica, mas não é grave”. Afivelemos o babete e regressemos à mesa, com a definição de A. Bierce de ‘comestível’: “Agradável ao paladar e benigno ao estômago, assim como o verme para o sapo, o sapo para a cobra, a cobra para o porco, o porco para o homem, e o homem para o verme”.

Mas o melhor mesmo é fazermos um detox de todas as dietas ideológicas – pois em casa em que falta pão, todos ralham e só as ortodoxias têm razão. Caso contrário, mais vale emborcarmos de uma vez aquele digestivo indigesto que Sócrates saboreou depois do seu julgamento em Atenas. Já agora, duplo e com um cheirinho, se faz favor. À nossa!